Contos e parábolas

Rebeca, a ovelha branca da família

Rebeca [Rivcá] aparece em apenas umas poucas cenas na Bíblia (Gênesis 24:15-67, 25:19-26 e 27:1-46.), e a cada vez sob uma luz diferente. Ora ela é uma jovem tirando água do poço, ora uma mulher grávida averiguando o futuro, e outra vez enviando seu filho Jacob para Padán-Aram. Em cada caso, o fator predominante em Rebeca é a total confiança naquilo que faz. Ela exibe consistência, certeza e comprometimento em tudo que acredita ser a coisa certa. Este espírito resoluto é a característica mais destacada de Rebeca.

Na primeira vez que encontramos Rebeca (Gênesis 24:15-28), ela se comporta de um modo que foi característico ao longo de toda a sua vida: sem pretensão, com a mesma cálida sinceridade que marcou suas ações posteriores na maturidade, embora então ainda fosse muito, muito jovem. Ela recebeu um estranho de um país distante com uma graça extraordinária, assumindo a preocupação de dar água aos camelos até que “terminaram de beber” (24:22). Ela então se apresentou ao estranho e lhe disse a respeito da casa de seus pais: “Tanto palha quanto forragem temos bastante, e também lugar para dormir” (24:25). Àquela altura ela não sabia quem era a pessoa que estava convidando ou qual seria o significado disso em sua vida futura. No entanto, assumiu a responsabilidade: os camelos beberiam água; seu dono, assim como seus servos, beberia, e haveria lugar na casa de seu pai onde passar a noite.

A capacidade de chegar à conclusão correta e de agir de acordo com isso se destaca no interessante incidente após o servo ter revelado o motivo de sua vinda e o significado de seu encontro com Rebeca. Seu irmão e seu pai, Labão e Betuel, tinham concordado, em princípio, com sua união com Isaac, mas protelaram, tentando adiar as coisas, seu irmão e sua mãe pedindo “que a moça fique conosco um ano ou 10 meses” (Gênesis 24:55). Afinal, disseram: “Chamemos a moça e perguntaremos a sua opinião” (24:57). Temos aqui não uma recusa explícita, e sim, apenas um indício de cautela e advertência. Eles estavam talvez contando com a incerteza da moça e o medo que teria do futuro para fazê-la hesitar, e assim ganhar tempo. No entanto, essa donzela, jovem como era, não teve dúvidas. Decidiu, provavelmente para grande surpresa de sua família, que iria imediatamente embora com o estranho, para sua casa num país distante, porque sabia que era isso que tinha de fazer. Esta impressão de um espírito decidido é confirmada no curto relato do primeiro encontro entre Rebeca e Isaac. Depois de ter viajado durante muitos dias, ela viu um homem no campo e decidiu que aquele era o homem. Certamente não perguntou isso a respeito de cada homem que tinha encontrado no caminho, mas aquele, ela sentiu, era especial: “Quem é este homem que vem pelo campo ao nosso encontro?” (24:65). Ela sabia exatamente o que ele era e qual seria o papel dela.

Neste aspecto, Rebeca é o oposto de Isaac, e complementar a ele. Isaac aparece destacadamente como uma pessoa que não toma decisões, como uma pessoa para a qual as coisas acontecem. Em seu primeiro grande teste, quando foi amarrado ao altar (Gênesis 22:1-18), Isaac não agiu, e sim foi objeto de uma ação. Ele não saiu em busca de uma esposa; uma esposa foi trazida até ele. Depois disso, em cada etapa de sua vida, era Rebeca quem decidia e agia, adequada e confiantemente, enquanto Isaac se mostrava hesitante e inseguro. Quando foi necessário perguntar a Deus o significado do conflito que havia em seu útero, não enviou seu marido, e foi ela mesma em busca de orientação (25:22-23). Mais do que isso, guardou consigo a informação que recebeu e tirou dela suas próprias conclusões.

Ao mesmo tempo, o interessante é que, com toda a sua determinação e tomada de decisões, Rebeca não tentou governar seu parceiro, atropelar sua personalidade. Não tentou assumir coisas que estavam fora de sua própria alçada, e aparentemente não só amava seu marido como também o admirava. Quando Rebeca enviou Jacob para que ele recebesse a bênção de Isaac, sente-se – com toda a enganação e astúcia nisso envolvida – um fundamento de confiança e admiração. Para Rebeca estava muito claro que Isaac era um justo e um santo, e que sua bênção traria o bem e, portanto, ela fez o máximo que pôde para garantir que o filho certo fosse o abençoado. Temos aqui tanto admiração por Isaac quanto a consciência de suas limitações. Ela pode ter tentado conduzi-lo, mas não em todas as coisas, e nunca além do limite de sua própria certeza.

Rebeca foi uma mulher dotada de grande entendimento. Quando sentia necessário, era capaz de afastar quem estivesse em seu caminho: família, pais, parentes. Mas não havia nada que implicasse dominação ou destrutividade nessa determinação: ela fazia o que achava que tinha de fazer, e depois se retirava para seu lugar nos bastidores.

Para os sábios, as matriarcas tinham poderes de profecia, superiores aos dos patriarcas; e Rebeca, de fato, agia como uma profetisa, respondendo a uma percepção que atravessava o véu do presente. No caso dela, não era um estado de prevenção constante, mas de flashes de uma clareza exaltada, consistente com a descrição que o Maimônides fez da profecia como o brilhar de um relâmpago revelando a rota a ser tomada. Nesse sentido, em todos os momentos cruciais de sua vida, Rebeca teve uma clareza de visão maior do que a daqueles que a cercavam.

Sabia que devia dar água aos camelos; sabia que tinha de ir embora com o estranho, servo de Abrahão, e que este era seu destino. Quando avistou Isaac, sabia que ele era o homem; e quando teve os seus filhos, sabia qual deles teria o direito de primogênito. Em cada momento de suas intervenções, Rebeca estava agudamente consciente da situação imediata e do futuro. No entanto, segundo o Talmud, Rebeca nem sempre tinha consciência de sua própria intuição e visão profética.

Uma importante chave para compreender o caráter de Rebeca é dada na passagem em que ela é descrita como “Rebeca, filha de Betuel, o arameu, de Padán-Aram, irmã de Labão, o arameu” (Gênesis 25:20). Esta tríplice ênfase nas origens dela – de quem era filha e de quem era irmã, bem como de onde provinha – é muito significativa. Rebeca foi um desses casos não acidentais de crianças com muitas qualidades, criadas numa família que, apesar da excelência ancestral e das boas conexões, estava em decadência. Vemos essa decadência na hesitação de Betuel, o pai, que parece ter abdicado de seu papel em favor do filho, Labão, a figura que decide na família. Vamos conhecer melhor Labão em capítulos seguintes do Gênesis, quanto ao seu relacionamento com Jacob, filho de Rebeca. Lendo nas entrelinhas da narrativa bíblica, podemos constatar que a família tinha seu lado não palatável. Na época do casamento de Rebeca com Isaac, ela provavelmente ainda mantinha algo de suas pretensões e aparências exteriores mesmo quando já declinava para uma vida de pobreza, de enganação mesquinha, de desonra. 

Dos dois ramos da família de Térach, a linhagem de Abrahão é descrita como grande e poderosa, enquanto a outra, de Nachor, decaiu, perdeu suas propriedades e envolveu-se no pequeno comércio. Rebeca, portanto, é uma figura atávica, retratada como contendo dentro de si a força e a vitalidade da grande linhagem da qual descenderam os patriarcas. Na mistura das diferentes linhas familiares, ela era a pessoa mais saudável em uma família doentia. E uma criança saudável e brilhante numa família decadente, defeituosa, é uma dádiva do céu. No caso de Rebeca, é ela quem toma decisões rápidas, drásticas, porque ninguém ao seu redor é confiável para isso. Tinha de ser ela quem iria determinar o rumo dos acontecimentos, enquanto seus homens ficavam empenhados num “toma-lá-dá-cá”. Desde a infância, ela teve de aprender ser dela a responsabilidade, e esta característica permaneceu com ela durante toda sua vida.

Também neste sentido Rebeca foi o oposto de Isaac, que crescera cercado de gente em quem se podia confiar: “Isaac, filho de Abrahão – Abrahão gerou a Isaac” (Gênesis 25:19). Ele teve uma mãe aristocrática e um pai do mais nobre caráter, um velho empregado de integridade irredutível e outros servos fiéis. O mundo de Isaac era solidário, seguro; ele podia hesitar e até cometer erros, porque sempre havia outros, carinhosos e preocupados com ele, para lhe dar apoio. Esse ambiente solidário tinha outro aspecto: Isaac pouco conhecia o mundo do mal e da fraude, porque seu mundo imediato era harmonioso e íntegro. Rebeca, por outro lado, cresceu num mundo cujas falhas ela conhecia bem demais. Tinha aprendido o significado da enganação, da hipocrisia; e esse conhecimento estava na raiz da diferença entre Rebeca e Isaac no relacionamento com seus filhos.

Isaac era uma “vítima fácil” da duplicidade; ele não alimentava suspeitas nem temores, porque em seu próprio coração não havia desonestidade. Portanto, ele via seus filhos a uma luz superficial. Para ele, o filho bem-comportado e ativo também era bom e obediente; Isaac não enxergava além da fachada. Rebeca, no entanto, era uma especialista nessas questões. Sabia que alguém como Esaú poderia ter outro aspecto, menos agradável, e que a fazia lembrar o próprio irmão Labão. Reconhecia em Esaú a própria família, sabia de seus defeitos e pontos fracos. Nas Escrituras não se diz que Rebeca não amava Esaú, e certamente não se diz que ela o detestava; ela, simplesmente, era mais perspicaz do que Isaac. Isaac era principalmente a vítima inocente – a oferenda pura – fora do contexto deste mundo, enquanto Rebeca era, muito claramente, parte dele. Era talvez o modelo da mãe judia, lutando pela existência e pela sobrevivência de seus filhos num mundo duro e cruel. Como Rebeca nascera numa família próxima das margens da sociedade, ela teve de desenvolver sua forte personalidade e aptidão para agir confiante e decididamente, porque, se não fosse resoluta, não haveria ninguém para agir em seu lugar. Conhecia o mundo, conhecia suas limitações e suas dificuldades, mas o fato de saber reconhecer o mal não a havia corrompido; ao contrário, ela mesma cultivou uma admiração pelo que era bom, puro e inocente. Assim, o relacionamento entre Rebeca e Isaac adquiriu um significado adicional: para ela, ele representava outro mundo, um nível existencial superior ao que ela tinha conhecido; estava ligada a ele e talvez o amasse por causa dessa pureza. Poderia ter sido necessário enganá-lo aqui e ali, mas sempre para o próprio bem dele, para poupá-lo do erro e da injúria. Foi característico de Rebeca não dizer a Isaac que ele estava errado na avaliação de seus filhos, e que ela achava que Esaú não era confiável. Foi por amor a Isaac que ela o manipulou para abençoar Jacob em vez de Esaú, numa tentativa de escudá-lo e protegê-lo do choque emocional que teria em consequência de seu próprio erro.

Isaac só conhecia o mal de muito longe; Rebeca, de muito perto. Sua vida foi uma vitória pessoal sobre o ambiente, suas origens, seu nascimento, e ela tentou, desde então por toda a sua vida, aderir ao essencialmente bom: a boa família, a continuidade da boa linhagem. E se outros, inclusive seu marido, fossem incapazes de assegurar esta condição, ela, que conhecia a dor e a feiura do mal, teria de manifestar sua própria vitória pessoal, uma luz brilhando na escuridão.

 

Capítulo 5 do livro
FIGURAS DA BÍBLIA
de Adin Steinsaltz (Even-Israel) disponível na Editora Sêfer

 

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