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Estudos Bíblicos

Seria Jesus um profeta, mestre ou grande rabino?

Nenhum profeta judeu, nem mesmo Moisés, “o mestre dos profetas”, alguma vez afirmou estar mais próximo de Deus do que qualquer outro ser humano.

Nos últimos anos temos tomado conhecimento de inúmeros apelos diretos e indiretos de judeus letrados, desde Sholem Asch,
o novelista iídiche do passado, atualmente o mais dedicado propagador das ideias cristãs, até John Cournos, o crítico literário recentemente convertido ao cristianismo, que reivindicam Jesus como filho fiel do povo e religião judaicas. O argumento apresentado é que, embora o judaísmo possa não ser capaz de reconhecer as alegações cristãs do poder messiânico e da divina perfeição de Jesus, ainda assim pode e deve aceitá-lo como profeta, mestre ou pelo menos como um grande rabino.

Antes de prosseguir com a refutação detalhada dessas sugestões, devemos parar por um momento para considerar a posição de Jesus frente ao cristianismo. Claro que as várias correntes religiosas cristãs diferem em sua interpretação a respeito do fundador da sua fé. Mesmo assim, até os protestantes mais liberais que não tenham se afastado da Igreja, dificilmente estariam prontos a admitir que Jesus foi nada mais que um mestre, um profeta ou um rabino. Portanto, é errôneo, da parte de certos judeus, assumir que seu endosso a Jesus como mestre, profeta ou rabino será primordial para estabelecer um melhor relacionamento entre cristãos e judeus. Pelo contrário, vários cristãos se ressentem profundamente de ter seu Filho de Deus e Messias aclamado como um simples e mortal mestre, profeta ou rabino. (…)

Para os cristãos, Jesus é infinitamente mais do que um grande profeta e mestre; (…) com exceção de uma insignificante parcela de modernistas, Jesus é, primeiramente, o Filho de Deus e Messias. Para a cristandade, ele é a revelação na carne da perfeição de Deus. (…)

O cristianismo é baseado na doutrina da encarnação, o que significa dizer, na crença de que “Deus estava em Cristo – não em escrituras, doutrinas, milagres, experiências subjetivas ou formas sacramentais, mas numa pessoa histórica, no espírito de Cristo, na sua palavra, na sua vida e na sua morte”. Como resultado, a virtude e perfeição cristãs consistem na “imitação de Cristo”, enquanto para o judeu, a bondade está atrelada à tentativa de imitar, por aproximação, a perfeição de Deus, pois o judaísmo não reconhece a encarnação do Ser Divino. Por isso, o judaísmo rejeitou e rejeita Jesus como Filho de Deus e como uma encarnação do Ser Divino. A ideia de Deus para o judeu, conforme estabelecida em detalhes no capítulo um desta obra (“O Conceito de Deus para Judeus e Cristãos”), é a própria negação da Trindade e a doutrina da encarnação subjacente a ela.

Mas para os cristãos, Jesus não somente é a encarnação de Deus, mas também o Messias e Redentor cujos adventos futuros estão anunciados nos livros da Bíblia Hebraica. O Novo Testamento é, portanto, de forma bastante ampla, o empenho orquestrado para provar que Jesus foi o Messias prometido e que nele todas as promessas proféticas foram concretizadas. O judaísmo, por outro lado, afirma que Jesus não foi o Messias, pois não realizou as esperanças messiânicas. Os defensores do judaísmo, nas suas “Controvérsias Religiosas”, organizadas pela Igreja medieval e impostas aos judeus com a esperança de derrotar seu porta-voz, invariavelmente enfatizavam que nenhuma das promessas messiânicas foi realizada por meio de Jesus. Ele não estabeleceu a paz universal e justiça social para toda a humanidade, nem redimiu o povo de Israel, nem tampouco elevou as montanhas do Senhor acima do topo das outras. No tocante aos judeus, seu próprio exílio e falta de um lar e a continuação da guerra, pobreza e injustiça são provas conclusivas de que o Messias ainda não chegou, pois sua vinda, de acordo com as promessas proféticas, apressará a redenção do povo de Israel do exílio e a redenção de todo o mundo dos males da guerra, pobreza e injustiça.

Foi defendida a tese de que Jesus não se considerava o Messias e que esse papel foi atribuído a ele posteriormente pelos autores dos Evangelhos. Não estamos aqui preocupados em criticar o Novo Testamento; foge ao objetivo do nosso tema tentar concluir quais pronunciamentos atribuídos a Jesus são autênticos e quais não são. O que realmente importa não são as exatas palavras que Jesus pronunciou, mas o espírito das mesmas. Não resta dúvida, entretanto, que nos Evangelhos temos o ipssimus spiritus de Jesus. Aparentemente, a tradição ligada a Jesus deve ter fornecido aos escritores dos Evangelhos base suficiente para enfatizar seu caráter messiânico – de outra forma, seria inexplicável que lodos os relatos evangélicos ressaltem a ênfase dada pelo próprio Jesus a seu papel e missão messiânicos. A resposta de Jesus à pergunta de João Batista, se ele era o prometido pelos profetas, mostra claramente que Jesus se considerava mesmo o Messias (Mateus 11:2-6). A sua resposta a Simão Pedro (Mateus 16:13-20) e, ainda mais, a admissão em seu julgamento diante do sumo sacerdote de ser “Cristo, o Filho de Deus” (Mateus 26:63-66; Marcos 14:61-64; Lucas 22:67-71) também provam conclusivamente que Jesus se considerava o Messias e, mais que isso, como o Filho de Deus. Essas duas pretensões o colocaram inevitavelmente em oposição eterna ao judaísmo, o qual não pode reconhecer Jesus como o Messias por ele não ter conseguido apressar a chegada da era messiânica e por considerar a própria ideia de “Filho de Deus” como uma transgressão do monoteísmo puro.

Pode então Jesus ser classificado pelo menos de “profeta”, do ponto de vista judaico? A resposta é não, pois ele não atendia aos padrões da profecia hebraica exemplificada pelos profetas dos primórdios ou por aqueles mais recentes. O profeta hebreu foi, no seu todo, o porta-voz de Deus. Nenhum dos profetas de Israel alguma vez pregou em seu próprio nome ou por sua própria responsabilidade.
O “Eu” dos profetas é Deus; o “Eu” de Jesus, entretanto, é ele próprio. Jesus ensinava por sua própria conta, frequentemente se opondo aos ensinamentos dos rabinos da época e enfatizando suas opiniões pessoais acima de qualquer coisa que já tivesse sido ouvida em Israel. Nenhum profeta ou mestre alguma vez profetizou ou ensinou por sua própria conta. Pelo contrário, empenhavam-se para encontrar justificativa para novos ensinamentos na Torá. De acordo com a convicção judaica, com o apoio dos sábios talmúdicos e devidamente resumido pelo Maimônides, “um profeta não deve ‘aumentar ou diminuir’, isto é, acrescentar ou revogar qualquer um dos mandamentos da Torá”. Jesus, por outro lado, fez exatamente isso. Sua ênfase exagerada na ética e sua deliberada violação da lei ritual o desqualificaram como profeta. Pois se os profetas exigiam justiça de preferência a sacrifícios para agradar a Deus, não afirmaram que os sacrifícios eram supérfluos, mas somente enfatizaram que Deus não aceitaria as oferendas dos praticantes do mal. Jesus, entretanto, como ainda veremos, se reservava o direito de anular ou alterar certas leis e práticas rituais.

A ênfase de Jesus em seus próprios ensinamentos, a maioria dos quais contrários ao verdadeiro espírito da profecia hebraica, culminou em sua reivindicação de possuir proximidade especial com Deus, proximidade não compartilhada e nem mesmo semelhante à de qualquer outro ser humano. (…)

Nenhuma palavra desta natureza foi jamais pronunciada por um profeta ou mestre judeu, pois as alegações contidas nelas são contrárias à fé democrática judaica de que todos os seres humanos são iguais perante Deus e que não existe um “Filho de Deus” específico, que esteja mais próximo do Pai no Céus do que os outros. A ideia de que uma pessoa em particular teria o poder de revelar ou não revelar, conforme sua “escolha”, a compreensão de Deus deve ter sido chocante para os contemporâneos judeus de Jesus, que eram ensinados a considerar apenas a Deus como a única Fonte de toda a verdade.

Os evangelhos estão repletos de alegações feitas por Jesus de que mantém uma relação especial com Deus e com promessas àqueles que acreditarem nele de que serão recompensados por Deus. (…)

Esses pronunciamentos (…) Representam uma ostensiva, eterna e intransponível negação das convicções e ensinamentos judaicos, que não aceitam uma posição privilegiada de pessoa alguma. Deus, do modo como o judeu O conhece, está igualmente próximo de todos os seres humanos, e a Sua proximidade depende de quão próximo eles querem que Ele esteja e quão próximo eles desejam chegar Dele. Nenhum profeta judeu, nem mesmo Moisés, “o mestre dos profetas”, alguma vez afirmou estar mais próximo de Deus do que qualquer outro ser humano. Os profetas se consideravam servos de Deus e se empenhavam em cumprir sua tarefa fielmente, mas mantinham suas personalidades, seus amores, ódios e ambições, o máximo possível para um ser humano, separados de sua missão. Eram os porta-vozes de Deus que precisavam proclamar Sua mensagem, quer eles quisessem, quer não, pois o fogo da Divina inspiração consumia seu interior. O chamado era tão poderoso que, sob o seu impacto, a personalidade do profeta era quase esmagada e ele se tornava apenas um instrumento escolhido por Deus – um instrumento a ser tocado de acordo com a vontade do seu Criador, mas não para tocar uma melodia da sua própria vida…


Judaísmo e Cristianismo: As Diferenças

 

Trecho xxtraído do cap. 8 do livro:
JUDAÍSMO E CRISTIANISMO – AS DIFERENÇAS
de Trude Weiss-Rosmarin
Editora Sêfer

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