Contos e parábolas

O Shabat

Vamos começar pelo mais rico, complexo e sofisticado símbolo do judaísmo: o Shabat

Para as novas gerações, guardá-lo – único dos Dez Mandamentos que evoca um símbolo exclusivamente judaico – como manda a Lei parece ser cada vez mais difícil, uma vez que a sedução exercida pela vida moderna desafia as restrições. 

Os preceitos que regem o Shabat compõem um dos mais extensos tratados do Talmud. Milhões e milhões de palavras são dedicadas ao assunto, e não apenas nas Escrituras, tornando-o um dos mais extensos temas dentro da bibliografia hebraica. Mas creio que o primeiro capítulo do Gênesis e o Quarto Mandamento, ambos familiares à maioria dos leitores, compreendem com precisão inigualável o que é realmente relevante à questão.

As páginas de abertura do Gênesis foram, evidentemente, o campo de batalha de teólogos e cientistas do século 19. As armas com que eles se enfrentavam encontram-se, hoje, imobilizadas e corroídas pela ferrugem, quebradas e cobertas pelos matagais. Os mortos foram sepultados. As cinzas da batalha dissiparam-se há muito tempo. Agora, frente aos nossos olhos, está uma planície verdejante que acabou adquirindo para nós um novo aspecto, graças às lutas nela travadas. 

O resultado, todos conhecem: os cientistas ganharam; os teólogos saíram clamando que a infame vitória seria o fim da Bíblia. Isto não aconteceu, nem tampouco parece estar no horizonte. O que, sim, aconteceu, foi que a partir de então, o mundo passou a entender o Gênesis de maneira diferente.

O Que Diz o Gênesis

O primeiro capítulo do Gênesis rompeu com um facho de luz as trevas da antiga mitologia. Sob esta luz vive hoje a humanidade e mal podemos imaginar o efeito causado por ela, quando brilhou pela primeira vez. O universo foi declarado como sendo uma ordem natural criada e desenvolvida por uma só força e acionado como uma vasta máquina que deveria funcionar sob o impulso de sua própria energia. Não havia deuses em forma de gente. Nem havia animais deuses e nem os deuses eram animais. Não havia o deus do sol, o deus da lua, o deus do amor, o deus do mar ou o deus da guerra.

O mundo e a humanidade não eram frutos de incestos titânicos e de sodomia, praticados por monstros celestes. O sol, a lua, os ventos, os mares, as montanhas, os astros, as pedras, as árvores, as plantas e as feras faziam parte da natureza e eram desprovidos de todo e qualquer poder mágico. Os fetiches eram um equívoco.

Os deuses e sacerdotes que exigiam que crianças fossem queimadas em holocausto, que corações fossem arrancados de seres vivos, que se praticassem horrendas obscenidades ou que lhes eram trazidas sucessivas oferendas, revelaram-se inúteis, tolos, ofensivos ao universo e condenados a desaparecer. Terminava o pesadelo da infância da humanidade. O dia estava nascendo.

O relato do Gênesis sobre a Criação extirpou do pensamento humano o câncer da idolatria. Levou algum tempo até ele prevalecer, mas no final, até as supostas deidades gregas e romanas enfraqueceram-se diante do golpe. O Gênesis é a linha divisória entre a inteligência contemporânea e a confusão primitiva no domínio das coisas primeiras e últimas. Nestas condições, não vejo como ele possa se tornar superado.

Os antigos teólogos fundamentalistas afirmavam que, ou Moisés teria lançado mão da aritmética para descrever tão precisamente o que vira ou, então, que ele não mereceria mais crédito do que um homem primitivo da Idade da Pedra. Os cientistas alegremente acolheram essa formulação. Pode-se dizer que eles venceram, mas nenhuma calamidade seguiu-se à discussão. Porque os fundamentalistas haviam elaborado uma hipótese falsa. Os homens continuam rendendo tributo ao Livro do Gênesis. Pensadores modernos atualmente dão por certo – como há muito os rabinos já tinham sugerido – que o Gênesis é uma visão mística da origens das coisas, expressa através das palavras mais cristalinas e incisivas, acessíveis à mente infantil e inspiradoras à inteligência adulta, suficientemente claras para subsistir em eras primitivas e profundas o bastante para desafiar culturas desenvolvidas. 

O Shabat no Primeiro Livro da Torá

Nosso principal propósito aqui é vincular o Shabat à sua fonte: o relato judaico da Criação.

Entre judeus e gentios, poucos desconhecem o Shabat. Um dia a cada sete, todo o trabalho cessa, e os homens louvam o Criador. Este preceito judaico impregna a civilização, e regulamenta a escala de trabalho na ampla maioria dos países. Mesmo nos momentos mais rigorosos de uma guerra, ele é raramente violado. O hábito é arraigado e certamente não é por acaso que parece existir uma perfeita adequação quanto à proporção de seis dias de trabalho para um de repouso. Apesar da semana de cinco dias de trabalho vigente em tantos lugares hoje em dia, sabemos todos que se trata de um luxo, um dividendo da prosperidade, e não uma necessidade natural.

O repouso é apenas uma parte do preceito – a parte “negativa”, digamos. O sétimo dia é sagrado: distingue-se pelas mudanças nas roupas, nas maneiras, nas refeições, nas ocupações e, em especial, numa maneira diferente de cultuar o Criador. São princípios essencialmente judaicos que encontram paralelo nos costumes que vigoram no dia designado ao descanso semanal dentro das outras culturas. 

No entanto, quando colocadas em confronto com as leis que regem o Shabat judaico, os mais rigorosos preceitos dominicais parecem muito brandos. Muitos cristãos ainda argumentam que as restrições dominicais seriam “judaizantes” e que não faz sentido submeter os cristãos a esta disciplina do Velho Testamento. Os puritanos de outros tempos, dizem eles, levavam o Velho Testamento demasiadamente a sério.

No Shabat, o judeu devoto não viaja, não cozinha, não usa equipamentos elétricos ou motores, não manuseia dinheiro, não fuma nem escreve. O mundo industrial morre para ele nesse dia. Quase todas os confortos mecânicos da civilização são postos de lado. O rádio silencia, o televisor permanece desligado. Os cinemas, as partidas desportivas, os teatros, os clubes noturnos, as rodovias, o carteado, os churrascos, enfim, todas os tipos convencionais de lazer não são para ele. O Shabat judeu é uma cerimônia que exige muito para ter efeito. O judeu que se propõe a observar seus preceitos confina-se virtualmente, desde o pôr do sol de sexta-feira até o fim do dia de sábado, num mundo isolado. Não tenhamos dúvidas quanto a isto.

Mas esse mundo pode constituir-se em algo extremamente agradável para nós. Se até aqui importunei o leitor com restrições que podem ser vistas como difíceis de cumprir, passo agora a lhe contar o que o nosso Shabat, este dia sagrado, significa na prática: ele é nada menos do que o ponto de apoio da existência do judeu observante. É a fonte que renova as energias, traz alegrias e recria o prazer. Fácil de dizer; difícil de compreender. Tentarei explicar.

A grande diferença entre o dia semanal de descanso de outros povos e o Shabat judaico é imperceptível a olho nu, mas irresistível sob uma ótica espiritual. Tudo começa com as bênçãos das velas e do vinho. Luz e vinho são as chaves do dia. Os rituais são solenes, mas têm o poder de ampliar a liberdade interior, instalar a paz, trazer a alegria e promover a elevação espiritual.

Uma Opinião

O Shabat representa um profundo corte transversal na minha própria vida, sempre que estou com alguma peça teatral sendo ensaiada ou experimentada. [Na época em que se dedicou a este livro, e durante muitos anos, o autor escreveu roteiros frequentemente encenados nos teatros da Broadway – N.T.]  A atmosfera de crise que envolve uma tentativa de conquistar a Broadway é uma lenda de nossos tempos, mas é verdadeira. Era menor a tensão que eu sofria quando ia enfrentar uma batalha naval. A tarde de sexta-feira parece chegar inevitavelmente durante os ensaios, quando tudo parece cambalear para o fracasso. Às vezes, sinto-me até mesmo culpado por me apegar ao Shabat, quando as circunstâncias são tão desesperadoras. Mas aí ocorre-me a lição, aprendida com a experiência, de que quase todo empreendimento teatral se encontra sempre nesta situação. Umas vezes, cambaleia para a ruína, outras, para o sucesso. A instabilidade é seu ritmo normal, o grito de angústia é seu tom natural. Por isso, não sem relutância, despeço-me de meus colegas nas tardes de sexta-feira, para tornar a me reunir com eles nas noites de sábado. Nesse intervalo, a peça não sofre nenhum colapso. Quando volto, encontro-a correndo o mesmo perigo e os gritos de agonia continuam tão desesperados como sempre. No final das contas, minhas peças tanto podem fazer sucesso quanto fracassar, mas, honestamente, não poderia atribuir o resultado, em nenhum dos casos, ao fato de ser um judeu que segue os preceitos do Shabat.

Deixo para trás o soturno teatro, as xícaras de café, os intratáveis atores, os ajudantes de cena sempre aos berros, o atormentado diretor, o agoniado produtor, a ruidosa máquina de escrever, a densa nuvem de fumaça dos cigarros e a poeira dos bastidores. Chego em casa. Dá-se uma mudança que me toma de sobressalto, como se por um momento eu estivesse acabando de voltar da guerra. Minha mulher e meus filhos, de cuja existência quase ia me esquecendo na luta ansiosa para contornar o abismo, estão lá, à minha espera, alegres, nas suas roupas de festa, tão maravilhosamente atraentes. Sentamo-nos para o esplêndido jantar à mesa ornada de flores e dos velhos símbolos do Shabat: as velas acesas, os pães torcidos (as Chalót), os peixes recheados e as taças de prata de meu avô transbordantes de vinho. Abençoo meus filhos, e entoamos os hinos da mesa de Shabat, deliciosamente ritmados. Não se fala em preocupações, e minha mulher e eu retomamos nossa conversa semanal. As crianças, cientes de que Shabat é o dia de se fazer perguntas, começam a perguntar. Sobre a mesa empilham-se a Bíblia, a enciclopédia e o atlas. Falamos de judaísmo e lá vêm elas com as habituais indagações impossíveis a respeito de Deus, às quais eu e minha mulher tentamos responder da maneira menos desajeitada possível. Para mim, tudo isto significa um refúgio de restauradora magia.

O dia de sábado transcorre em atmosfera igual. Nossos filhos sentem-se à vontade na sinagoga e gostam dali. E gostam ainda mais da presença confiante de seus pais. Nos dias de semana, as tarefas escolares, os afazeres domésticos e o trabalho – especialmente quando estou produzindo alguma peça teatral – muitas vezes não lhes permite mais do que um rápido contato conosco. No Shabat, eles sabem que sempre poderão contar conosco. Sabem que não estou trabalhando e que minha mulher está disponível. É o dia deles.

É o meu dia também. O telefone está silencioso. Posso pensar, ler, estudar, caminhar ou não fazer nada. É um oásis de tranquilidade. Quando cai a noite, volto ao irritante e maravilhoso jogo da Broadway. Muitas vezes, é nesse momento que dou minha melhor contribuição da semana para a terrível criação literária, que se repete interminavelmente até a noite da estreia. Meu produtor disse-me certa vez, numa noite de sábado: “Não tenho inveja da sua religião, mas invejo o seu Shabat.

Se menciono esta experiência, é porque creio que, na minha própria vida, ela é a que melhor exemplifica aquilo que o Shabat deve ter sido para os nossos ancestrais. Para comunidades judaicas que hoje vivem e desfrutam das benesses da vida moderna, a transição de um dia de semana para o dia de Shabat está longe de ser a dramática passagem, tão familiar aos nossos ancestrais, do estado de aflição, apuros, penúria e crise vigente durante os outros seis dias da semana para um dia de graciosos prazeres. Nossos avós e bisavós guardavam suas melhores roupas e os  alimentos mais requintados ao seu alcance para o dia dedicado ao louvor especial ao Criador. Poucos eram tão pobres que não tivessem, para esse dia, um pouco de vinho, pão trançado, um pedaço de carne e outro de peixe. E aqueles que o eram, e não podiam comprá-las, as recebiam da sinagoga, como acontece até hoje. As restrições inerentes ao Shabat, que tantos obstáculos parecem encontrar na vida moderna, eram uma segunda natureza para nossos ancestrais, jamais colocadas em questão, encaradas simplesmente como parte da realidade. Em cada detalhe referente à observância do Shabat, residia – e para muitos de nós, felizmente, ainda reside – o prazer maior da vida. 

É possível para qualquer judeu, hoje, esteja ele onde estiver, obter tudo aquilo que o Shabat oferece. Para isto, é possível que precise se esforçar mais do que seus pais, avós, ou bisavós. Talvez parta daí, desta necessidade de dispender maior energia religiosa, a inevitabilidade do Shabat ter se constituído em ponto divisório entre as gerações. Mas, ao mesmo tempo, é também o ponto por onde muitos e muitos judeus retornam à prática do judaísmo. Não é excessivo afirmar que o Shabat encerra em si os aspectos mais atraentes e mais profundos de nossa fé. 

O Quarto Mandamento

As duas tábuas da Lei contêm as sete grandes proibições sobre as quais se sustenta a civilização: a idolatria, o perjúrio, o assassinato, o adultério, o roubo, o falso testemunho e a ganância. E trazem três mandamentos positivos: o culto a um só Deus, a honra aos pais (o que muitas vezes possibilita a preservação da tradição) e o respeito ao Shabat. Somente isto. Às vezes, admiro-me com as pessoas que levam mais a sério o Dia do Perdão e até mesmo as festas – inclusive talvez Chanucá – do que o Shabat, quando, sempre que entram numa sinagoga, o que veem de imediato são as Tábuas da Lei sobre a Arca Sagrada, nas quais o Quarto Mandamento ordena que se guarde o Shabat. Enfim, creio ser muito natural “não enxergarmos” algo que nos causa constrangimento. Por que, entre os milhares de símbolos que compõem a estrutura do judaísmo, este é mais exaltado nas Tábuas da Lei? Existem duas respostas, uma no Êxodo e outra no Deuteronômio.

Elas citam os dois fundamentos do Shabat que são, na verdade, os fundamentos de todos os demais mandamentos da Torá. No meu entender, o Shabat ocupa um lugar tão proeminente também porque as duas passagens da Torá unificam-se em seu significado profundo de modo essencial.  Guardadas as devidas proporções, são de certa forma uma síntese de toda a Torá.

Diz o Êxodo 20:11:  

 “… porque em seis dias fez o Eterno os céus e a terra, o mar e tudo o que há neles, e repousou no sétimo dia; portanto abençoou o Eterno o dia de Sábado e santificou-o”.

E diz o Deuteronômio (5:12-14):

 “Guardarás o dia do Shabat para santificá-lo, como te ordenou o Eterno, teu Deus. Seis dias trabalharás e farás toda tua obra, e o sétimo dia é o sábado do Eterno, teu Deus; não farás nenhuma obra – tu, teu filho, tua filha, teu servo, tua serva, teu boi, teu jumento, teu animal, teu prosélito que estiver em tuas cidades –, para que descansem teu servo e tua serva bem como tu.”

O Shabat é, em primeiro lugar, um gesto dramático e unissonante da comunidade – o antiquíssimo gesto coletivo de parar o trabalho e celebrar. Todas as nações comemoram o dia de seu nascimento com um feriado e com cerimônias. Os judeus, cientes de que Deus criou o Universo, celebram a própria Criação e elevam graças ao Criador uma vez por semana. Uma prova secular de que esta frequência é apropriada talvez esteja no fato de que ela é considerada em quase todo o mundo, de uma forma ou de outra.

Em segundo lugar, o Shabat assinala o surgimento da nação judaica durante o Êxodo do Egito. Os judeus veneram não só o Deus da Criação, mas também o Deus que escreve a história da humanidade. Este é para nós o significado do êxodo dos campos de escravidão de Goshen. Os escravos não têm nenhuma opção em se tratando de trabalho ou repouso. São como animais falantes, sujeitos à vontade do amo. A criatividade não está em suas mãos. O tempo não lhes pertence. Mas a liberdade é a condição de Adão; é o direito de escolha; é ser dono do próprio tempo. O Shabat tem um significado todo especial para o povo de Israel, que atingiu a nacionalidade passando da escravidão para a liberdade.

O duplo significado cobre todos os símbolos da religião judaica: o culto agradecido ao Deus Único e a celebração do destino peculiar de Israel como testemunho irrefutável de Sua existência perante a História.

Conquistas que Só o Shabat Traz

Não estamos aqui, porém, tratando de uma interrupção qualquer de trabalho. Isto representa apenas o começo da observância do Shabat. Sua essência é uma abstenção ritual de todos os atos, inclusive dos mais leves, que contenham algum elemento de inovação, de processamento e de manipulação de objetos em geral.

Por exemplo, a Torá nos proíbe de recolher gravetos ou acender qualquer tipo de fogo no Shabat, duas atividades simples e necessárias que quase todos estamos fisicamente aptos a praticar. No total, a Torá relaciona 39 atividades proibidas no Shabat. Elas se referem a um pequeno grupo que inclui o pão, vestuário, habitação, carne, couro,  manufatura, e comércio. O Talmud explora e explica minuciosamente cada uma destas 39 proibições, que implicam a mais completa abstenção de todo e qualquer ato produtivo comum. Se o leitor parar e refletir, verá que, ao contrário do que ocorre com trabalhos pesados, evitar pequenos esforços é quase uma cerimônia. Levantar o argumento de que acender o fogo, por exemplo, não é trabalho pesado e, portanto, não teria por que fazer parte da lista, foge à verdadeira essência da questão – que é, numa síntese bastante simplificada, a proibição absoluta de se criar qualquer coisa nova no Shabat

O Shabat judaico pode ser rigoroso demais para algumas pessoas, ou pode ser que elas simplesmente não concordem com o princípio em si. Mas o fato é que, em seus próprios termos, trata-se de um ritual marcante, inigualável, que penetra todos os aspectos da vida. Não é meramente um dia de folga. O exigente ritual transforma 24 horas de cada semana em uma unidade de tempo “fora do tempo”, que se distingue do restante da semana em cada detalhe.

Os símbolos e cerimoniais da religião têm como um de seus objetivos revelar a verdade de forma impactante – como a arte, por exemplo. Talvez esta semelhança tenha induzido Santayana a concluir que a religião é uma variação da estética, o melhor dos sonhos criadores do homem, o que, no meu entender, não é muito certo, a menos que situemos, absurdamente, Moisés e Charles Dickens num mesmo ramo de atividade. De qualquer forma, o certo é que tanto a arte quanto a religião combatem, através de instrumentos distintos, a ferrugem que o hábito, a rotina, acabam criando e que tem como resultado nublar ou tornar invisível para nós a maravilha inerente a cada um dos infinitos itens da Criação.  Uma árvore pode ser extremamente bela, mas eventualmente uma boa parte das pessoas precisa de um Cézanne ou de um Corot para lembrar-se de como são belas as árvores. O Shabat cumpre um papel sem igual ao assinalar semanalmente, para cada um de nós, a grandeza da Criação e, ao mesmo tempo, os primórdios de Israel. 

Expectativas não condizem com a observância do Shabat. Talvez alguns judeus bastante elevados do ponto de vista espiritual consigam alcançar regularmente nesse dia sagrado algo parecido com uma ardente visão do destino de Israel. Mas para a maior parte de nós, o Shabat é, principalmente, um agente renovador. O ciclo de sete dias marca profundamente nossa vida. Todos os planos se relacionam com o sétimo dia: planos de trabalho, de viagem, de repouso e até mesmo os que se relacionam com a habitação. Ocupando um lugar tão decisivo na vida e vindo com tanta frequência, o Shabat dispõe de toda a existência humana para impregnar seu significado no nosso espírito e em nossa mente. Aqueles que respeitam esse dia conservam as ideias da Criação e do Criador, do Êxodo e da identidade judaica solidamente implantadas em sua mente e em seu espírito.

Não procuro aqui formular noções filosóficas ou metáforas a respeito do Shabat judaico. A bibliografia é vasta e os quadros místicos, abundantes. Alguns exemplos:

… O Shabat é uma noiva e o cair da tarde de sexta-feira é a hora do casamento, razão pela qual o judeu devoto se entrega nessa ocasião à leitura da ardente poesia amorosa do Cântico dos Cânticos.

… O Shabat é o lembrete da sociedade de Deus com o homem, no domínio da criação.

… O Shabat é o começo da imitação de Deus pelo homem.

… O Shabat é um dia da era messiânica dentro de nosso tempo, uma antecipação da futura paz entre o homem e Deus, entre o homem e a natureza, entre o homem e seu semelhante… 

Estes pensamentos são uma constante  nos escritos sobre o Shabat, em sua liturgia, e costumes particulares. Se assim o desejar, o leitor poderá buscar mais conhecimentos a respeito por conta própria. O máximo que posso fazer é expor as três ideias a seguir: que o Shabat judaico é a culminância da árdua disciplina do judaísmo, um dia de prazer enobrecedor; que é difícil de ser cumprido, mas valem a pena todos os esforços exigidos nesse sentido; e que, em nossa religião, nele se encontra a pedra fundamental da simbologia, através da qual buscamos a verdade. 

Antes de seguir adiante, exponho dois pontos relevantes. Todas as leis restritivas do Shabat deixam de vigorar instantaneamente em qualquer situação de emergência – doenças agudas, acidentes etc. A definição de emergência é rigorosa e realista. Toda e qualquer circunstância que implique risco de vida ou coloque em perigo a integridade física do indivíduo é classificada como emergência – a vida humana é tão sagrada para o judaísmo que é permitido fazer tudo o que for necessário para salvá-la e mantê-la, inclusive no Shabat. Por outro lado, ainda que alguns discordem, uma situação de risco para os negócios, mesmo que envolvendo transações de milhões, definitivamente não é uma emergência. 

No século 19, quando importantes cientistas da época passaram a defender a tese sobre o caráter infinito e eterno do Universo, a concepção do Shabat pareceu entrar em conflito com a filosofia. A ideia judaica da Criação opusera-se durante milênios às teorias gregas sobre a eternidade do tempo. Por absoluta ausência de provas concretas, a discussão limitou-se a meras palavras. Hoje, o julgamento mais informado pende para o outro lado. As evidências acumuladas apontam cada vez com maior precisão para um Universo finito em termos de tempo e espaço. 

Sim, todos nós gostaríamos de saber o que houve antes da Criação, e o que existe além das fronteiras do Universo. Quando questionados, cientistas respondem com um sorriso e mudam de assunto – um pouco como meu avô fazia quando eu aparecia com perguntas absurdas. A mais assídua delas era   “Quem fez Deus?”…

 

Capítulo 4 – O Shabat do livro ESTE É O MEU DEUS, de Herman Wouk, Editora Sêfer 

 

 

 

 

 

 

 

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