Contos e parábolas

RAV ASHI – O principal arquiteto do Talmud da Babilônia

O diretor da ieshivá de Sura, rav Ashi, é considerado o editor, ou, melhor, o principal arquiteto do Talmud Babilônio. O próprio Talmud, que só foi selado após a morte do rav Ashi, o considera uma das três figuras da história judaica que combinaram o estudo da Torá com o da grandeza do mundo, e foram os líderes isolados do povo judeu em seus respectivos períodos.1

No judaísmo, Torá e assuntos mundanos eram reinos mutuamente excludentes – não por razões políticas, mas em função dos caracteres e das aptidões das personalidades envolvidas. Apesar disso, ao longo das gerações sempre existiu o desejo de que a Torá e as questões mundanas se integrassem numa única pessoa, isto é, quem dominasse as questões mundanas também tivesse o domínio da Torá, e vice-versa. Tal síntese, no entanto, só raramente ocorria, de modo que era ao lado dos – às vezes, em oposição aos – líderes laicos do povo judeu que estavam seus líderes espirituais, os quais frequentemente não tinham qualquer importância política.

Portanto, é bem espantoso que tão pouco se saiba sobre o rav Ashi, uma figura que desempenhou papel histórico tão central. Nada sabemos de suas origens familiares, nem mesmo o nome de seu pai (embora se acredite que a grande riqueza que o sustentava era herança de família), nem sabemos quem foram os professores do rav Ashi. Embora o encontremos em debates com eruditos das gerações anteriores, ele nunca figura nelas como aluno ante seus mestres. Em vez disso aparece como um colega estudante, isto é, com uma postura própria – conquanto fosse muito jovem, menos de 20 anos de idade. A posição do rav Ashi na comunidade acadêmica era tão extraordinária que um sábio eminente como Ravina (o primeiro), de grande proeminência e bem mais velho que o rav Ashi, considerava o rav Ashi um colega estudante.2 

O rav Ashi não poderia ter muito mais de 20 anos quanto alcançou plena estatura como diretor da ieshivá de Sura, posição que manteve durante cerca de 60 anos.3 Este fato surpreende, pois a liderança das grandes ieshivót de Sura e Pumbedita constituía então um dos mais honoráveis e influentes papéis, tanto localmente quanto no âmbito de todo o povo judeu. Quando os gueonim queriam dizer que alguém atuara como diretor de uma ieshivá, eles usavam a frase “O rabi tal-e-tal reinou,” igualando seu status ao de um rei.

Na época do rav Ashi, a ieshivá em Pumbedita estava destruída, ou ao menos deixara de funcionar. A comunidade judaica na Terra de Israel – que sofria bastante com as perseguições dos imperadores bizantinos que queriam converter os judeus ao cristianismo – já não tinha um grande peso espiritual. Com isso, o diretor da ieshivá de Sura não só era o primeiro entre seus pares na Babilônia como também o mais destacado líder judeu do período. Também no terreno político, o rav Ashi era considerado o incontestável líder de fato de todo o mundo judaico e cuja autoridade era aceita até mesmo pela autoridade no exílio (mesmo sem ter relações de sangue com ele).

O rav Ashi deixou atrás de si mais do que um monumento: um legado que é todo o seu ser espiritual, dentro da obra magna que é o Talmud Babilônio – não só nas regras haláchicas que, aliás, ele mesmo fixou, como também em todos os debates talmúdicos e pronunciamentos nos quais ele não é mencionado. Todo o Talmud Babilônio é, de certo modo, reflexo da figura do rav Ashi: seu modo de pensar, criatividade, porque, afinal, tudo no Talmud é resultado do padrão único que ele moldou.

Sabemos muito pouco a respeito da redação do Talmud para poder afirmar se ela foi feita oralmente ou por escrito. Dado o método de estudo da Torá durante aquelas gerações, a edição pode realmente ter sido feita oralmente e, neste caso, o Talmud Babilônio é uma depuração – uma espécie de holograma do estudo da Torá, do modo como foi conduzido na ieshivá do rav Ashi e da vida e dos eventos daquela época.

Durante os 60 anos em que o rav Ashi foi diretor da ieshivá de Sura, ele ensinou um tratado da Mishná em cada um dos Iarchê Calá, juntamente com seus tradicionais comentários, como foram transmitidos ao longo das gerações. No entanto, diferentemente de outros acadêmicos, o rav Ashi trabalhava sistematicamente: entre os 60 tratados da Mishná, em cada semestre era estudado um tratado diferente, de modo a que no período de 30 anos ele cobria o Talmud inteiro. Esta recapitulação de todos os tratados foi, na verdade, a primeira redação do Talmud Babilônio. No Talmud ela é referida como a mahadurá camá – a “primeira recapitulação”. A segunda – mahadurá batrá – é a segunda revisão do Talmud pelo rav Ashi, feita durante o segundo período de 30 anos como diretor da ieshivá. As diferenças entre as duas versões estão registradas em vários lugares no Talmud.4 Essas duas edições sucessivas moldaram um particular estilo de estudo, seja escrito ou oral, e criou o modelo básico do Talmud.

Assim, devemos a criação do Talmud Babilônio à integração entre a Torá e a grandeza do mundo, combinada com a longevidade com a qual o rav Ashi foi abençoado a qual lhe possibilitou consolidar e concluir o empreendimento iniciado na juventude.

A redação do Talmud foi um empreendimento enorme e complexo, o que se deve, entre outras coisas, à sua estrutura única. Embora todas as suguiót tenham seu início na Mishná, elas depois se ramificam – não em uma ordem particularmente lógica, mas numa corrente continuamente associativa, um tópico levando a outro. Em termos de estrutura – embora certamente não na essência ou no conteúdo –, o Talmud se parece com os romances de fluxo de consciência. Um tópico inicial contém outra questão, que precisa ser esclarecida, e no decurso do debate descobre-se que também, um segundo ponto deve ser elucidado. E assim prossegue o Talmud, navegando de um tópico a outro, às vezes em pequenas digressões de uma linha ou duas, às vezes em longas digressões que se estendem por várias páginas de texto. Assim, podem-se encontrar certas halachót em tratados cujo tema central não tem a menor relação com elas. As leis referentes ao luto, por exemplo, estão no Tratado Moêd Catan; as leis da festa de Chanucá aparecem no Tratado Shabat, e as leis dos tefilin aparecem no Tratado Menachot.5 Essas combinações não são por coincidência; na verdade, os temas são relacionados, mas as conexões são associativas, e não lógicas.

A essência única do Talmud é marcante, e evidente ao se o comparar com outro texto que também é um sumário da halachá: o código legal de Maimônides, o Iad Hachazacá. O livro de Maimônides está organizado de um modo coerente; os tópicos e as leis aparecem em ordem lógica, nas seções adequadas, enquanto no Talmud os tópicos parecem estar em toda parte e em todos os formatos. Isto, no entanto, não é resultado de coincidência ou de uma editoração desleixada, mas consequência da concepção total do rav Ashi quanto à maneira pela qual a Lei Oral devia ser transmitida às gerações futuras.

O objetivo ostensivo do Talmud é ser uma sinopse das halachót da Lei Oral, mas definitivamente a decisão haláchica não é seu único propósito. Ao longo das opiniões haláchicas aceitas na prática, o Talmud também registra opiniões dissidentes. O Talmud não é um esboço traçado por um indivíduo para ensinar outros ou transmitir conclusões; é o próprio e real regateio, o toma-lá-dá-cá, o fluir vivo do processo de aprendizado. O que o rav Ashi quis preservar não são as decisões haláchicas nem esta ou aquela questão talmúdica, mas o próprio movimento do processo de estudo, e isso dentro do contexto de um livro escrito, não mais em desenvolvimento ou regeneração. Ele não é como um arquiteto que constrói uma casa; é como um artista que tenta insuflar vida numa estátua inanimada. O rav Ashi tentou fazer o aparentemente impossível: reter mobilidade e flexibilidade, a pergunta não respondida e a exploração investigativa, num formato que é escrito, editado e concretamente definido.

Para impedir que o Talmud se tornasse uma coleção aleatória de discursos, o rav Ashi adotou simultaneamente dois princípios. Primeiro, formulou e encapsulou a história das ideias, a progressão dos debates mais significativos que aconteceram nos 300 anos, ou mais, anteriores à sua época. Assim, ele sintetizou não apenas as soluções correntes para problemas de sua época, mas as grandes questões nas quais se envolveram as mentes dos estudiosos durante aquelas gerações. Mais de uma vez ele criou construtos (conceito teórico não observável) inteiros de postulações que não chegam a nenhuma conclusão final. Para ele, não era o ponto de chegada que interessava, mas o processo – a pergunta –, e eventualmente até mesmo o erro. Era crucial demonstrar como se chega a decisões, e que obstáculos e problemas foram vencidos ao longo do caminho.

O segundo princípio do rav Ashi foi organizar o material da maneira a mais precisa possível. E, de fato, apesar do fluxo associativo de um assunto a outro, cada sentença individual é editada com muita precisão em termos da ordem das palavras, ordem das sentenças, posição sintática dos nomes próprios, nuanças etc. Por exemplo, “O rabi tal-e-tal disse” tem significado diferente de “Disse o rabi tal-e-tal”; questões apresentadas numa sequência são sempre consecutivas, e a sequência não é aleatória; quando são trazidas duas opiniões haláchicas, a segunda sempre é halachicamente obrigatória, e assim por diante. Todos estes, e muitos outros elementos constituem a base para a futura determinação da halachá.

A dupla dificuldade para editar o Talmud está, portanto, em preservar a mobilidade e a flexibilidade numa entidade fixa, enquanto se mantém a exatidão. O rav Ashi teve de assegurar que esses debates, aparentemente inconclusivos, e as perguntas e respostas servissem como um material bem definido e extremamente preciso, do qual fosse possível tirar conclusões práticas no futuro. O que, a um primeiro olhar, parece ser uma redação aleatória do Talmud, é, de fato, resultado de uma grande meticulosidade, que conseguiu reter o sentido de liberdade enquanto apresenta, exatamente, o que os sábios quiseram expressar.

 

  1. Guitin 59a: “Desde Moisés até Rabi não encontramos ninguém que seja sublime tanto na Torá quanto nas questões mundanas… Entre Rabi e rav Ashi não houve ninguém que fosse sublime tanto na Torá quando nas questões mundanas.”
  2. Eruvin 63a: “Ravina examinou a faca do magarefe na [cidade de] Babilônia. Disse a ele o rav Ashi: ‘Por que o mestre age desta maneira?’ O outro respondeu: ‘… E eu sou também o colega do mestre, assim como seu discípulo’.”
  3. Isso, segundo as tradições gueônicas, consideradas confiáveis e precisas, tendo sido baseado em anotações e material escrito das próprias ieshivót.
  4. Bava Batra 157b: “Ravina disse: ‘Na primeira versão, o rav Ashi nos disse que o primeiro credor adquiriu o direito sobre a terra; a segunda versão do rav Ashi, no entanto, nos diz que a terra era para ser dividida. E a lei é que a terra é para ser dividida’.” Ver o Rashi, que cita a Responsa do rav Chai Gaón.
  5. O Tratado Moêd Catan trata dos dias intermediários das festas [em festas que duram uma semana, apenas nos primeiros e últimos dias o trabalho e outras violações são proibidas, os intermediários são dias de festa, mas as atividades são permitidas]; o Tratado Shabat trata das leis do Shabat; e o Tratado Menachot trata das oferendas no Templo.

 

Capítulo 13 do livro
FIGURAS DO TALMUD
de Adin Steinsaltz (Even-Israel) disponível na Editora Sêfer

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