Parashá Semanal

O Verdadeiro Exército do Povo

A tradição judaica mudou o antigo nome do quarto livro da Torá, de Chumash Hapecudim (Livro dos Censos, Números) para Bamidbar, que significa “no deserto”. Essa mudança do nome original (mencionada na Mishná Iomá 7:1 e mantida na maioria das traduções da Bíblia) não é destituída de significado.

A permanência dos israelitas no deserto por não menos de 40 anos parece ser uma das mais importantes fases em sua marcha da escravidão para a liberdade. Se o Êxodo tornou-se, para sempre, um paradigma da libertação, a longa estadia no deserto não é menos significativa. O Livro Bamidbar ensina que não há atalhos para a Terra Prometida, nem é possível transformar, de imediato, um bando de escravos libertos em uma nação responsável e independente; não haverá uma geração de redenção (dor hagueulá) sem o desaparecimento, no deserto, da geração anterior (dor hamidbar).

A leitura do Livro de Bamidbar na sinagoga é iniciada quase sempre no Shabat anterior à festa de Shavuót, que marca a entrega da Torá no Monte Sinai. O fato de a Torá ter sido entregue no Sinai, no deserto, deu origem a numerosas interpretações dos nossos pensadores. A mais conhecida afirma que Deus escolheu entregar a Torá num lugar sem dono, para mostrar que a Torá não pertence a qualquer povo ou terra, e, sim, a quem estiver pronto a aceitá-la. De acordo com essa interpretação, o local da Revelação em “terra de ninguém” proclama a universalidade da Torá.

Outras interpretações veem mensagens diferentes na ligação entre Torá e deserto. Todas enfatizam que a escolha do deserto não foi acidental, mas, sim, parte do significado da Torá e da redenção. Entretanto, o deserto não era visto, como em outras religiões, como uma fuga para as antigas vidas monásticas ou lugar ideal para meditar e aproximar-se de Deus. Ao contrário, a Torá deveria ser vivida no meio da civilização, pois sua função era conquistar e dominar o demoníaco deserto interior do homem.

A revelação no deserto lembra-nos sempre que, se o homem não dominar o deserto, poderá acabar por ele dominado. Não existe coexistência pacífica entre os dois, seja material ou espiritual.

A longa permanência dos filhos de Israel no deserto serviu-lhes de treino intensivo para preparar sua entrada na terra a eles destinada. Suas provações e sofrimentos são narrados em detalhes nos 33 capítulos de Bamidbar. O deserto tornou-se, assim, não só o local onde foi entregue, mas também uma parte integrante da própria Torá.

A primeira ordem que Moisés recebe, como nos revela a história dos israelitas no deserto, é a de fazer um censo de todos os adultos do sexo masculino, “de 2O anos de idade em diante, todos aqueles aptos a sair para o exército” (Números 1:3). Por que um exército? Não eram eles dependentes dos milagres realizados por Deus e Seu fiel mensageiro Moisés? Ele, que subjugou seus ferozes inimigos no Egito; Ele, que lhes dividiu o mar – não irá ajudá-los a alcançar sua terra, como prometera repetidas vezes?

Claro que Ele irá ajudá-los! Mas a lição que devem aprender, quando estão se preparando para seguir à sua própria terra, é que não se pode contar apenas com milagres. De fato, a lei judaica não permite essa dependência (Talmud Babilônico, Tratado Shabat 32b). Para se beneficiar da miraculosa ajuda de Deus, Israel, como nação independente em sua própria terra, deve ter um exército bem treinado e bem equipado.

O exército a ser formado não deveria ser simplesmente uma pequena força militar, constituída apenas de um seleto grupo. Deveria incluir cada membro da congregação de Israel “de 20 anos de idade em diante”. Um verdadeiro exército do povo.

Era uma ideia bastante revolucionária para a época. Em geral, Israel é reconhecido como precursor de ideias de liberdade, igualdade etc., mas poucos sabem que Israel deu origem, também, a um novo e revolucionário conceito militar.

Na verdade, é o primeiro registro histórico de um exército composto não de escravos ou mercenários, nem de voluntários ou soldados de carreira, mas pela totalidade de um povo. Cada um, sem exceção, devia se alistar, desde que sua idade o permitisse. Todos serviam igualmente e os postos de comando eram ocupados por homens do próprio povo.

O alistamento obrigatório abrangente é considerado uma inovação recente. Não se tem notícia de fato semelhante nos tempos antigos, na Assíria, Babilônia, Egito, Grécia ou Roma; era desconhecido também nos tempos medievais, quando a responsabilidade de lutar por seu povo ou país era dividida entre os nobres – os comandantes – e as massas de escravos – os comandados. O primeiro exemplo em que encontramos a totalidade do povo compartilhando igual responsabilidade por seus deveres militares é o dos filhos de Israel, no deserto.

E o exército formado no deserto deveria, por outro lado, ser um verdadeiro exército popular contrastando com uma simples força militar. A Moisés – o encarregado de preparar o censo para formar o exército – é ordenado:

Levanta o censo de toda a congregação dos filhos de Israel, segundo os seus pais e o número dos nomes, todo homem, cabeça por cabeça.

(Números 1:2)

O soldado israelense jamais será apenas “número sem nome”; deve permanecer sempre como indivíduo, com seu nome individual. Jamais tornar-se um pracinha anônimo, mas continuar sempre como parte de sua família e da casa de seu pai. Um soldado-guerreiro, quando necessário; um filho e pai de família, o tempo todo.

 

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Trecho extraído da obra:

Torá Hoje, Um encontro renovado com a Escritura Sagrada
Autor: Pinchas H. Peli, Editora Sêfer.

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