Parashá Semanal

Levantando a Moral dos Escravos

Como reabilitar uma pessoa que tantos anos de escravidão pesada, acabaram por transformar num servo de espírito derrotado? Como semear em seu íntimo um mínimo de autoestima e um pouco de liberdade e orgulho?

Uma multidão de escravos dos quais capatazes cruéis arrancaram todo e qualquer  vestígio de identidade pessoal ou nacional  – como levantar a moral destas pessoas?

Antes de tudo, tirando-as do local da escravidão e levando-as… ao deserto. Sim, justamente o deserto, um lugar no qual poderão isolar-se, evitando a convivência com outros povos que já tenham vivido longos períodos de relativa liberdade. Assim, esta multidão poderia afastar-se por um tempo e tratar-se de modo adequado.

Já no isolamento do deserto faz-se um censo, contando a todos, em uma espécie de exercício de formação de identidade. Cada um de forma individual e todos como um coletivo sentem com isto sua importância fundamental.

É sobre este censo que trata o trecho aqui abordado:

“E falou o Eterno a Moisés no deserto de Sinai… no segundo ano de sua saída (dos filhos de Israel) da terra do Egito… Recebei a soma de toda a congregação dos filhos de Israel, por suas famílias, segundo os seus pais, segundo o número dos nomes, todo homem cabeça por cabeça.”

Números 1:1-2

Qual é o sentido desta contagem?

“Devido à estima que tem (Deus) por eles, conta-os todo momento. Quando saíram do Egito contou-os. Ao caírem diante do bezerro, contou-os para saber quantos sobraram. E quando veio estender sua graça Divina sobre eles, contou-os.”

Rashi em nome do Midrash

 

Esta contagem deu forma e consistência ao acampamento de escravos, antes disforme e sem personalidade. Pois este censo foi acompanhado pelo agrupamento das pessoas em tribos e famílias, conforme consta dos versículos citados. A contagem foi precisa, incluindo até o último dos homens de cada uma das tribos. A tribo de Ruben possuía quarenta e seis mil e quinhentos homens; a de Simão, cinquenta e nove mil e trezentos; a de Judá, setenta e quatro mil e seiscentos, e assim por diante, cada tribo merecendo os versículos que relatam detalhadamente o número de seus homens.

No entanto devemos atentar: Quem determinou que este censo fosse realizado? Deus, o Onisciente, que sabia de antemão o número exato das pessoas.

Na realidade, Ele não tinha necessidade desta contagem. Ela foi ordenada em benefício dos filhos de Israel, para incrementar a autoestima que começava a brotar na alma de cada um deles, tornando perceptível o valor que tinham como indivíduos e como povo. Pois conta-os “devido à estima que tem (Deus) por eles”.

“Com o que se assemelha esta situação? Com um rei que possui muitos celeiros, todos imundos e cheios de mato, os quais ele não se preocupa em contar, com exceção de um, que era formoso e bem cuidado. E disse o rei: ‘Aqueles celeiros imundos e cheios de mato, não me preocupo em contá-los, mas este que está cheio de belos cereais, quero contá-lo para saber quantos sacos e quantas medidas contém.”

Midrash Rabá

 

Era esta a sensação agradável que sentiam os filhos de Israel cada vez que eram contados. Percebiam, de modo quase repentino, o efeito cumulativo destas contagens, sentindo que alguém se interessava e prestava atenção neles, que tinham valor e que cada um deles tinha sua importância.

Lentamente, os filhos de Israel se libertaram da escravidão que estava encravada em seus corações por anos de sofrimento no Egito. Du­rante as contagens, eles respiravam a plenos pulmões o ar límpido da identidade pessoal, a mãe da liberdade da alma.

Atentemos também à precisão do versículo que ordena o censo. A Moisés não foi ordenado apenas juntar e contar o povo. A ele foi dito:

“Recebei a soma de toda a congregação dos filhos de Israel.”

Números 1:2

“Pois a expressão ‘recebei a soma’ é expressão de grandeza.”

Nachmânides

 

Grandeza, pois esta contagem necessariamente levaria o povo a assomar-se, levantar a cabeça e conhecer seu valor, melhorando assim sua autoestima. Estas são condições primárias para a  consolidação de um povo, para que ele seja capaz de assumir responsabilidades pessoais e coletivas, metas e objetivos bem definidos, com os quais possa marchar de encontro à História.

Além disso, este censo possuía mais um propósito: o de reabilitar a família.

As pessoas não foram contadas como gado ou como presos em uma penitenciária. A contagem estava diretamente relacionada às “suas famílias, segundo os seus pais” (Números 1:2). Em todo o mundo e em todas as épocas, escravos não possuem uma família no sentido usual do termo. Nossos antepassados, os escravos libertos, necessitavam da estrutura familiar, no sentido mais nobre da palavra, no início de sua caminhada como homens livres.

Sabemos que a identidade pessoal do homem está íntima e inexoravelmente ligada a seu lar e à sua família. Frases como “Meu pai fazia assim e assado”, “Meu avô materno agiu de tal modo ao se encontrar com fulano” e “É costume em nossa família…” – sempre acompanham uma faísca de orgulho e satisfação, que salta aos olhos de quem as pronuncia. Frases deste tipo nos ensinam muito sobre o sentimento de pertinência das pessoas e sua vontade de fazer parte de algo maior, que transcenda seu ser pessoal e individual, e que seja ao mesmo tempo palpável. É infeliz a  pessoa que vive sem esta ligação familiar, vagando pelo mundo sem um passado pessoal.

Portanto, esta não foi uma contagem de cabeças de gado, mas sim de cabeças pensantes, relacionando cada pessoa à sua respectiva família. Este foi mais um elemento que contribuiu para a construção da personalidade dos indivíduos, por meio do fortalecimento de suas relações com o coletivo.

Estes não são aspectos secundários. Muito pelo contrário, das profun­dezas desta relação entre indivíduos e coletivo emana a possibilidade de o povo vir a receber a Torá, deixando de ser guiado pelos modismos do mundo para tornar-se um povo que mudaria a história da humanidade através de sua moral.

Assim diz o Midrash:

“Quando Israel recebeu a Torá, outros povos do mundo tiveram inveja: O que viu (Deus) para se aproximar mais daquele? Deus, bendito seja,  calou suas bocas. Disse-lhes: Tragam-Me o livro de suas genealogias, pois foi dito ‘Dai ao Eterno, ó família dos povos’ (Salmos 96:7), do mesmo modo que os filhos de Israel trouxeram e se multiplicaram em suas famílias… pois  apenas lograram receber a Torá graças à sua genealogia. Ouviram os povos e também começaram a glorificar”.

Vemos que o fundamento de um povo é a família. Não há “povo” mais forte e resistente do que esta unidade básica. Como elos frágeis de uma corrente, a fraqueza da instituição familiar põe em perigo a existência do próprio povo e da sociedade. Não há povo sem família, pois apenas por meio desta é possível transmitir conteúdos e valores através das gerações. Apenas o pai pode transmitir a seu filho a chama da moral, da Torá e da identidade judaica, para que este, por sua vez,  também possa transmiti-la a seus filhos, geração após geração.

Mais um detalhe: Um acorde extra que acompanha este censo e que indica o carinho nutrido ppr Deus em relação ao povo. O censo também continha em sua ordem de execução uma espécie de “exercício psicológico”, que visava fortalecer a autoestima de cada uma daquelas pessoas. O texto realça que a contagem deveria ser feita “segundo o número dos nomes” (Números 1:2). Qual o significado destas palavras?

“Cada um disse seu nome, e o anotaram em um livro; depois contaram os nomes e souberam o número de pessoas.”

Malbim

 

O motivo da escolha de uma forma tão complicada para realizar a contagem reside novamente no princípio de contribuir à saúde mental do povo:

 

“Cada um naquela geração era contado pelo seu nome, que indicava sua personalidade e virtudes pessoais. Analogamente ao que fora dito (por Deus a Moisés para demonstrar o carinho e predileção que nutria por ele: ‘Eu o saberei pelo nome.”

Seforno

Tudo isto vem nos ensinar aquilo que já estamos quase cansados de saber: o nome da pessoa lhe é, para ela, o que há de mais querido. Ela pode ouvi-lo ser pronunciado inúmeras vezes, e ainda assim seu nome soa como uma melodia aos ouvidos. Esta é uma expressão clara do nosso ego, que brota das profundezas de nosso ser. Não é à toa que, em palestras sobre relações humanas, ensina-se que a forma mais segura para se fazer amizades é através do uso repetido do nome próprio das pessoas. Não há coisa no mundo capaz de acariciar mais os nossos egos do que o som de nossos próprios nomes.

Eles tiveram o mérito de ser reconhecidos pelo nome. Com o passar dos dias, este nome se eternizou.

 

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Trecho extraído da obra:

Reflexões sobre a Torá
Autor: Moshe Grylak, Editora Sêfer.

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