Parashá Semanal

Números significativos

É interessante notar que a contagem do povo judeu no deserto, que consta da parashá desta semana, é feita por cada uma das tribos de Israel, individualmente, com a totalidade da população judaica dividida em quatro grupos separados, e os cohanim e levitas formando outro grupo completamente separado. Por que essa particularidade? Por que a Torá não se contentou em fornecer uma única contagem da população para toda a nação judaica?

Por que essa particularidade? Por que a Torá não se contentou em fornecer uma única contagem da população para toda a nação judaica?

Acredito que a mensagem subliminar expressa aqui é a afirmação da visão da Torá do povo judeu e, na realidade, de toda a humanidade como formada por muitas pessoas diferentes e nunca como um todo monolítico. De fato, essa é a origem da opinião da Torá de nunca se contar pessoas individualmente, de forma direta e pessoal. Não há duas pessoas iguais, e duas pessoas quaisquer não estão obrigadas a ter exatamente as mesmas opiniões.

Há agrupamentos e tribos que formam o povo judeu, hoje e ao longo de toda a história judaica. Essa percepção deveria nos tornar mais tolerantes e menos amargamente divididos na sociedade judaica. Por isso a Torá está determinada a tratar a contagem do povo judeu como uma contagem de pessoas em vez de um grande grupo ou a nação inteira. Ela quer mostrar que o povo judeu é realmente formado por diversos componentes diferentes e muitas pessoas e personalidades diferentes, e ela exige de nós a maturidade de lidar com essa situação onipresente da condição humana.

Outro ponto que me intriga nesta parashá é a relativa pequenez da atual população frente à contagem que nela aparece. Os números que aparecem na parashá indicam uma população total de cerca de 3 milhões de pessoas, entre velhos, jovens, homens e mulheres. Três milênios depois, o povo judeu no mundo inteiro parece se constituir de cerca de 15 milhões de pessoas. O crescimento natural sozinho durante tão longo espaço de tempo deveria prover números muito maiores. Entretanto, a própria Torá prevê que o povo judeu sempre será o menos numeroso de todos os povos.

O exílio, os pogroms (matanças), a assimilação, as conversões e o Holocausto causaram um significativo decréscimo em nossos números. Entretanto, apesar desses números baixos, nunca perdemos nossa influência e efetividade na sociedade e na civilização. A Torá nos ensina que números são necessários – não pode haver judaísmo sem judeus –, mas números não são tudo. É de notar-se que, ainda no deserto, a Torá indica que o crescimento populacional do povo judeu era problemático.

Durante os quarenta anos no deserto, a população judaica não cresceu. A contagem ao fim desses quarenta anos praticamente permaneceu igual à que consta na parashá desta semana. Pessoas importam muito. Esta é apenas uma das muitas contribuições do povo judeu para a história da humanidade.

ama-paz-busca-paz
Ó, Jerusalem!

Depois de 70 anos de exílio na Babilônia, os judeus, conduzidos por Ezra e Zerubavel, retornaram.

Os intentos de reconstruir a cidade de Jerusalém foram violentamente combatidos pelos samaritanos e sutilmente minados pelas autoridades persas. Entretanto, sob a liderança de Ezra e Neemias, tendo numa mão a espada e na outra a colher de pedreiro, as paredes da cidade foram reconstruídas, o Templo voltou a existir (embora num padrão mais humilde) e os judeus voltaram a habitar em Jerusalém. Na época do Rei David, a cidade ficava ao sul do Monte do Templo. Na época do Segundo Templo, a maior parte da cidade ficava a oeste do Monte do Templo. Mas a soberania judaica e sua hegemonia na cidade tiveram duração relativamente curta.

Alexandre, o Grande, poupou a cidade da destruição em sua vitoriosa campanha no Oriente Médio. Entretanto, a Terra de Israel ficou sob o efetivo controle grego. Foi o ponto central das guerras entre os sucessores de Alexandre – os ptolomeus no Egito e os selêucidas no norte da Síria. Após a vitoriosa revolução dos hasmoneus contra os selêucidas, mais uma vez a cidade ficou em mãos judaicas, e o Templo foi reparado e santificado. As guerras internas dos hasmoneus (entre si) trouxeram Roma ao cenário e, no ano 63 da era comum, a cidade caiu ante Pompeu e as legiões romanas.

Naquela ocasião, os romanos não destruíram a cidade ou o Templo, mas a autonomia nacional judaica terminou efetivamente pela designação de Antípatro (Antipater), e depois seu filho Herodes, como governadores da Judeia e Jerusalém. Herodes mostrou ser um assassino desnaturado, mas foi também um grande construtor. Ele tornou Jerusalém uma cidade de esplendor, e o Templo que ele reconstruiu completamente se tornou uma das maravilhas do mundo antigo. Um grande número de turistas vinha a Jerusalém para admirar suas maravilhas e sua grandeza. Mas a rebelião judaica contra o domínio romano terminou em derrota em 70 e.c. Jerusalém foi saqueada pelo exército romano, e o Templo, queimado.

Uma segunda rebelião, dessa vez contra Adriano, em 135 e.c., também terminou em derrota e os romanos então arrasaram completamente a cidade, araram o local onde havia existido o Templo e deram a Jerusalém o nome de Aelia Capitolina. Uma geração posterior de judeus retornou a Jerusalém e começou a reconstruí-la, embora a maior parte da população judaica na Terra de Israel se concentrasse agora na Galileia.

Com a queda do Império Romano, Jerusalém foi tomada pela Igreja Bizantina e muitos locais cristãos de orações foram construídos na cidade. Poucos judeus tinham permissão de viver em Jerusalém durante o período bizantino e, de fato, o centro principal da vida judaica passou a se localizar na Babilônia, e não mais na Terra de Israel. No século 7, os muçulmanos derrotaram os bizantinos, e Jerusalém, uma cidade que não é citada nem uma vez no Corão, foi entregue ao islã. Os muçulmanos construíram grandes mesquitas na cidade, inclusive a Mesquita de Omar com sua cúpula dourada no Monte do Templo. No século 11, os cruzados conquistaram Jerusalém, assassinaram a pequena população judaica e converteram as mesquitas em igrejas. No século 13, sob o comando de Saladino, os cruzados foram expulsos de Jerusalém e os judeus foram autorizados a voltar à cidade, porém como uma comunidade dehimi, de segunda classe. Em 1267, o Rabino Moshe ben Nachman (o Ramban ou Nachmânides) chegou a Jerusalém, mas tinha dificuldade de conseguir um minian (quórum) de judeus para rezar. No século 16, muitos exilados da Espanha vieram viver em Jerusalém. Mas foi no século 18 que um número substancial de judeus, tanto ashkenazim como sefaradim se estabeleceram em Jerusalém.

Em 1846, os judeus formavam a maioria populacional de Jerusalém. Nos últimos 160 anos, Jerusalém da História Moderna teve vários governantes – turcos otomanos, altos comissários britânicos e jordanianos –, e finalmente a soberania judaica foi restaurada. Esperamos que este seja realmente o final da história, embora o Monte do Templo esteja à espera de ser restaurado para o propósito estabelecido pelo Eterno. O fato de podermos viver numa Jerusalém judaica sob nossa soberania é certamente uma fonte de alegria e esperança para todos nós.

 

 

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Trechos extraídos da obra:

Ecos do Sinai, Comentários e análises sobre as porções semanais da Torá
Autor: Berel Wein, Editora Sêfer.

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