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Parashá Semanal - Leitura da Torá

Ressurreição política e social

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção Behar extraída da obra torá interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch recém-publicada pela Editora Sêfer

 

Levítico, Capítulo 25

10 E santificareis o 50º ano e proclamareis liberdade (para os escravos) em toda a terra, para todos os seus moradores; ano de jubileu [iovêl] será para vós, e tornareis cada um à sua possessão, e cada um à sua família voltareis.

 

 

  1. liberdade (deror). Em Isaías (61:1), a palavra deror indica a volta de quem estava preso, ao passo que em Ezequiel (46:17) indica o retorno dos bens a seus primeiros donos. O impacto do jubileu é sentido nesses dois pontos mencionados aqui: “e tornareis cada um à sua possessão, e cada um à sua família voltareis.” Assim, embora o sentido geral desta palavra esteja claro, é muito difícil entender suas derivações em seus diversos empregos.

Encontramos a palavra deror (Êxodo 30:23) no sentido de pureza (“mirra pura”) e também como sinônimo de pássaro (“ave livre” – Salmo 84:4), e já explicamos acima (14:4) que se trata de um pássaro “que mora tanto em casa quanto no campo” – ou seja, que mantém sua liberdade em casa como no campo e não aceita o jugo da prisão ou da autoridade humana. Há na terminologia legal dos nossos sábios (TB Babá Metsiá 2b) um conceito chamado derará demamoná (perda de dinheiro) que, segundo as Tossáfot, refere-se a uma situação em que o Tribunal tem dúvida a respeito de um julgamento antes mesmo de ouvir as alegações dos litigantes, como se a dúvida suscitasse por si só. Assim, se resumirmos todos esses significados, chegaremos à conclusão de que a palavra deror tem o significado fundamental de “seguir a sua inclinação natural”, e daí entenderemos a expressão mór deror (“mirra pura”) como uma matéria que se junta apenas a elementos homogêneos, não havendo nada de incomum que dificulte a atração natural e a união entre iguais. A “ave livre” citada nos Salmos é um pássaro que segue a sua inclinação natural, sem mudar o seu comportamento por estar próxima dos seres humanos. E o caso de derará demamoná se refere a uma situação em que a dúvida é suscitada de forma objetiva, mesmo antes dos argumentos dos litigantes. De acordo com isso, podemos explicar a palavra deror (“liberdade”) mencionada aqui da seguinte forma: que a pessoa e os bens seguem o seu caminho natural – o ser humano segue rumo à sua família e os bens seguem o direito original de propriedade.

Os nossos sábios (TB Rosh Hashaná 9b) entenderam que, no nosso versículo, a palavra deror se refere sobretudo à liberdade dada aos escravos: “O que significa a linguagem deror? Ela se refere a quem tem o direito de viver onde quiser e levar mercadorias de um lugar a outro.” E segundo o Aruch, os nossos sábios entenderam que essa palavra se deriva do termo dár (carregar), e ao que parece, esta é a concepção que fundamenta essa explicação: com a declaração do jubileu, cada pessoa retoma o direito de “carregar” os seus pertences, e a partir de agora todos passam a ter as suas posses à medida que os escravos deixam de ser eles mesmos uma posse que pertence a outrem. O jubileu devolve ao ser humano o direito legal de ser uma personalidade, e isso é uma descrição precisa de quem consegue reaver a própria liberdade. Contudo, ao que parece, a linguagem do nosso versículo não condiz com a libertação de um escravo hebreu. Afinal, o escravo hebreu tem o direito de possuir seus próprios bens, e a lei segundo a qual “tudo que é adquirido pelo escravo é adquirido por seu dono” incide apenas em relação a escravos gentios.

para todos os seus moradores. Os nossos sábios disseram (TB Arachin 32b) que o jubileu é decretado apenas quando todos os judeus habitam a terra, e não quando uma parte do povo migrou à diáspora. Desta forma, a lei do jubileu foi revogada quando duas tribos e meio foram exiladas de Israel (1 Crônicas 5:26). Além disso, o jubileu incidia apenas quando as tribos habitavam regularmente as terras recebidas no tempo de Josué, e não quando as tribos tinham se misturado umas com as outras.

ano de jubileu (iovêl) será para vós. O verbo iaval na forma verbal hif’hil significa “trazer”, e hovalá designa o ato de trazer algo de modo adequado, como trazer uma pessoa a seu devido lugar ou um objeto a seu devido dono. Portanto, o iovêl (jubileu) traz cada pessoa e cada posse à sua respectiva casa, restabelecendo a ordem correta e a posição adequada de cada pessoa.

Daqui também se extrai o sentido de kéren (“chifre”) dado ao termo iovêl: quem toca o berrante chama o rebanho de volta para casa. De acordo com isso, encontramos em Josué (6:4-5) que a palavra iovêl foi dita no sentido de um shofar que precisava ser tocado. Naquela ocasião, a cidade de Jericó foi a primeira cidade a ser conquistada pelos judeus na Terra de Israel, e quando o povo se encontrava diante das suas muralhas, os shofares foram tocados e as vozes do iovêl foram escutadas. Aquelas vozes conclamaram em nome de Deus para que a cidade se rendesse – ou, podemos dizer, que retornasse a seus donos –, e as muralhas de Jericó que vieram ao solo escutaram e obedeceram àquelas vozes. Nestes e em outros lugares, a palavra iovêl não serve apenas como sinônimo de chifre de carneiro, mas também indica a voz que conclama o retorno à casa. Os nossos sábios disseram (TB Rosh Hashaná 26a) que o termo iovêl também significa “carneiro masculino”, aquele que passa a frente e lidera o rebanho, e que eventualmente o encaminha para casa, conforme explicamos.

Deve-se notar que, literalmente, o versículo diz iovêl hi tihie lachem (“jubileu será para vós”), expressão que se repete mais duas vezes adiante (versículos 11 e 12). Isso evidencia que o próprio ano foi chamado de iovêl, independentemente dos mandamentos que incidem nele. Este é um ano de renovação e restabelecimento que tem em si a vocação de devolver e fazer retornar. Ousamos dizer que isso confere ao próprio ano do jubileu um sentido de renovação e restabelecimento que transcende o retorno de pessoas e de terras que nós mesmos devemos realizar.

Por esse aspecto, o Iom Kipúr do ano do jubileu se assemelha ao Iom Kipúr de todos os anos. Mais que receber o perdão no Dia das Expiações, o indivíduo ganha a sua ressurreição moral, e este é um grande mérito à vida interior e exterior à sua vida, um presente de bondade por parte de um Deus onipotente que pratica maravilhas. É justamente o regalo dado neste dia que ocasiona os demais mandamentos do dia que nos proíbem o trabalho e nos obriga a afligir a alma. Por esse motivo, a entrega do regalo está condicionada ao cumprimento destes mandamentos. O processo ocorrido no Iom Kipúr do ano de jubileu é parecido: com o advento do jubileu, o povo ganhará a ressurreição política e social, e isso significará muito às relações do povo, tanto interna quanto externamente. Este é, sem dúvidas, um presente de bondade da parte de um Deus onipotente que pratica maravilhas.

A sorte de cada um e a desigualdade econômica resultaram em destinos diversos e opostos, riqueza e pobreza, dependência e independência, e geraram uma deformação na vida interna da sociedade. Igualmente, as relações externas passaram por mudanças e intercorrências que arruinaram o âmbito internacional cronicamente. Tudo isso será perdoado e apagado pelo jubileu. A bondade de Deus devolverá ao povo a sua saúde social e liberdade nacional, e o povo renovará os seus dias como dantes, como no dia da outorga da Torá, quando foi fundado. Assim, Deus renova a liberdade e a independência do povo, tanto por dentro quanto por fora, para que o povo siga de jubileu em jubileu, até atingir o objetivo que motivou a sua fundação, quando este povo aparecerá diante dos povos e sua luz resplandecerá longinquamente, e conclamará todos os povos para virem aprender os caminhos Divinos, os únicos que podem garantir justiça, liberdade e paz permanente na terra, conforme prenunciado pelo profeta (Isaías 2:1 em diante).

Embora a ressurreição moral do povo advenha de Deus, o povo deverá cumprir em paralelo dois grandes atos que dependem de si: desapropriar as terras para renovar e restabelecer a antiga ordem, e libertar todos os escravos. Isso não será realizado como se fosse uma mera reforma agrária, política e social, mas o povo anunciará tais medidas com o toque do shofar, deixando evidente que as mudanças percebidas por todos se deram por iniciativa de Deus, o primeiro Proprietário de todos os bens e Aquele que detém o direito de propor tais medidas.

Desta forma, por mais que se trate de um jubileu Divino, foi dito pela Escritura que “ano de jubileu será para vós”, uma vez que ele ocorria apenas com a participação direta do povo, ao declarar o 50º ano como o ano do jubileu e ao cumprir os mandamentos que incidiam naquele ano. Segundo foi dito pelos nossos sábios (TB Rosh Hashaná 9b), cada um dos três mandamentos do jubileu só era validado caso os outros dois também tivessem sido cumpridos devidamente, num sinal de que havia uma clara interdependência entre os três mandamentos e seus diferentes aspectos.

Encontramos em Jeremias uma expressão de como se dava a relação de reciprocidade entre o jubileu realizado pelos seres humanos e o jubileu Divino. Na ocasião, o profeta (Jeremias 34:17) descreveu o resultado adverso de um jubileu cujos mandamentos foram descumpridos pelas pessoas: “Portanto, assim disse o Eterno: Vós não Me obedecestes, para proclamar a liberdade, cada um a seu irmão e a seu próximo; por isso, eis que agora proclamo sobre vós – diz o Eterno – liberdade para a ação da espada, da peste e da fome! E farei com que sejais repelidos com horror por todos os reinos da terra.” Ou seja, se os escravos não fossem libertados, Deus abandonaria seus donos e os relegaria à própria sorte, e deixaria de ser o Senhor que os representa externamente. Daqui vem uma conclusão evidente: se cumprirmos as leis do jubileu, permaneceremos servos de Deus, e como tais, Ele nos protegerá da fome, da peste e da espada, e nos dará independência, proteção e bênção diante das forças humanas e naturais.

Conforme dissemos, os efeitos de renovação do ano do jubileu não se resumem aos mandamentos impostos a nós, que não contém nada além da libertação dos escravos e da devolução das terras. O jubileu traz consigo o perdão e a ressurreição concedidos por Deus, o que também explica o significado da contagem: os sete períodos de sete anos contados por nós equivalem a um grande período de 49 anos que visa atingir o 50º ano, que não faz parte da própria contagem, conforme observamos acima (versículo 8).

Essa concepção mais ampla do jubileu se relaciona com a lei citada anteriormente de que o jubileu apenas incide quando todo o povo se encontra em Israel, e cada tribo assentada em sua terra. A reunião do povo na Terra de Israel com a instalação de cada tribo em sua terra foi chamada em vários lugares de “implantação”, o que denota uma ação deliberada, que não seu deu por acaso. Conforme já observamos (Gênesis 35:11), o propósito universal do povo de Israel está intimamente relacionado à diversidade e heterogeneidade das 12 tribos de Israel, conforme destacadas nas bênçãos que Jacob deu aos seus filhos antes de falecer (ibid. capítulo 49). Entendemos assim que a “implantação” original de cada tribo em sua terra foi concebida de acordo com a intenção Divina, de modo que o povo apenas consegue alcançar o seu último propósito, com o auxílio do mandamento do jubileu, quando o povo se encontra devidamente assentado em sua terra e cada tribo no lugar mais adequado para o desenvolvimento e florescimento das suas características.

Quando algumas tribos foram exiladas, ou quando as tribos se misturaram dentro da terra, o mandamento do jubileu foi revogado. Porém, se o jubileu estivesse vigorando, ele incidiria em todos os lugares, e o seu efeito libertador também alcançaria os indivíduos que se encontrassem fora da Terra de Israel. Nas palavras dos nossos sábios (TB Rosh Hashaná 9b): “No tempo em que deror (liberdade) ocorre na terra, ele também ocorre no estrangeiro.”

e cada um à sua família voltareis. O jubileu também incide sobre aquele que teve de vender a si mesmo ou que foi vendido pelo tribunal, mesmo que os seis anos regulamentares de escravidão não foram completados. Igualmente, o jubileu também liberta o escravo que decidiu permanecer na casa do seu amo e teve a sua orelha perfurada com a sovela (TB Kidushin 14b).

Torá Interpretada - Editora Sêfer

 

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção Behar extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.

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