Parashá Semanal

O falecimento da matriarca Sara

Brevíssima coletânea de comentários sobre a porção CHAIÊ SARÁ extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.

 

Gênesis, Capítulo 23

23 1 E foi a vida de Sara 100 anos, 20 anos e 7 anos – os anos de vida de Sara. 2 E Sara morreu em Kiriat-Arbá – que é Hebron [Chevron] –, na Terra de Canaã; e Abrahão veio para lamuriar Sara e pranteá-la. 3 E Abrahão levantou-se  de diante de sua falecida, e falou aos filhos de Chet, dizendo: 4 Peregrino e residente sou entre vós; dai-me uma propriedade para sepultura, entre vós, e enterrarei minha morta que está diante de mim.

 

  1. E foi a vida de Sara. Este é o único lugar em toda a Escritura em que foram contados os anos de vida de uma mulher. Muito provavelmente isso se deve ao fato de que a vida de uma mulher se passa distante do que acontece no espaço público, de modo que a informação acerca de sua idade no momento de seu falecimento tem pouco a revelar sobre a cronologia das gerações e de seus acontecimentos. De toda forma, o nosso versículo também é único no emprego da expressão “E foi a vida” para enunciar a quantidade de anos vividos, motivo pelo qual o próprio versículo revisa esta informação ao concluir que se referia aos “anos de vida de Sara”, repetição esta que também é ímpar na Escritura.

100 anos, 20 anos e 7 anos. É conhecida a explicação dos nossos sábios (Bereshit Rabá 58:1) sobre a forma com a qual o nosso versículo informou que Sara viveu 127 anos, separando seus anos em três fases distintas: a infância até os 7 anos; o período da conquista da maturidade até os 20 anos, e a vida adulta, um período que englobou seus últimos 100 anos de vida. De certa forma, o versículo adotou a melhor maneira de resumir uma vida de perfeição moral e espiritual ao dizer que a pessoa em questão foi velha em sua velhice, adulta quando lhe competia ser adulta em seus melhores anos, e uma criança no período de sua infância.

Nas palavras dos nossos sábios (ibid.), Sara teve o mérito de chegar aos 20 como se tivesse 7 anos, e de chegar aos 100 anos como se tivesse apenas 20. Dito de outra forma, uma pessoa que vive plenamente como Sara consegue extrair de cada um dos períodos de sua vida a principal característica proporcionada por eles, incorporando-a à sua personalidade e levando-a consigo à próxima fase e ao restante de seus dias. Esse também é o sentido do que foi dito adiante sobre Abrahão (24:1), de que estava velho e que “ele veio através dos dias”, cujo sentido não é outro senão dizer que ele não se afundou em seus dias nem foi engolido pelo tempo em que viveu, mas sim, que passou por eles como uma pessoa que retém todos os avanços morais e espirituais obtidos em seu passado e que os leva consigo ao próximo estágio sem permitir que nada do que realizou em nome da sua verdade fosse tolhido por seus dias e por seus anos.

Desta forma, Sara trouxe sua beleza infantil ao início da sua vida adulta, e soube preservar a integridade da moça de 20 anos que foi por todos os anos de sua vida. O ponto de vista dos nossos sábios que realça a beleza de uma menina de 7 anos, e não a da moça de 20, e que, por outro lado, valoriza a integridade e a ingenuidade da moça de 20 anos e não a da criança de 7 é justamente o oposto do que se costuma pensar em nosso tempo. Se pensarmos bem, a tão propalada “ingenuidade infantil” pressupõe que a integridade pessoal não é imune à passagem do tempo, e que basta a criança crescer para encontrar o pecado. No entanto, a verdadeira integridade passa pela luta e superação dos desejos e sentidos, de modo que apenas uma menina que progride e vira mulher e um menino que se torna homem têm as condições necessárias para atingir a integridade em toda sua genuinidade.

os anos de vida de Sara. O conjunto de todos esses anos foram chamados de “vida de Sara” para informar que ela esteve “viva” em cada um deles e que todos seus 127 anos foram repletos de vitalidade e alegria, configurando uma vida boa e plena de sentido na qual não houve sequer um minuto que teria sido melhor que não o tivesse vivido. Ainda assim, o versículo enfatiza que toda essa vida de Sara se tratou apenas dos “anos de vida de Sara”, ou seja, uma fase e uma parte da vida de Sara, haja vista que a vida dos justos não é medida pelos anos dados à pessoa para viver neste mundo. Ou então, nas palavras dos nossos sábios (TB Berachót 18a), “Os justos, mesmo em suas mortes, são chamados de vivos”, uma vez que seguem subindo de nível em nível rumo a um desenvolvimento que jamais se esgota ou se completa. Por isso, como os anos e dias de Sara não contiveram um único dia que carecesse de sentido e significado, os seus anos sobre a terra foram apenas uma parte de sua eterna existência.

  1. e Abrahão veio (vaiavô). A explicação mais corrente deste versículo versa que Abrahão não presenciou o falecimento de sua esposa. Ao chegar em Hebron na volta do monte Moriá onde fora sacrificar Isaac, ele soube que Sara não suportara a notícia do suposto sacrifício de seu filho. De fato, a recompensa prometida aos justos não guarda qualquer relação com aquilo que pode ser visto e mensurado em nosso mundo, sendo possível que lhe sucedesse o infortúnio de não presenciar o falecimento de sua esposa. De acordo com isso, é preciso pontuar que, ao sair de Beer-Shéva rumo ao monte Moriá, Abrahão enviou sua esposa a Hebron, para poupá-la do recebimento abrupto da notícia da morte de seu filho.

Entretanto, se nos atermos ao sentido mais estrito do verbo lavô (vir) – que indica a entrada numa casa e a saída de um lugar público para um recinto privado –, podemos dispensar o entendimento de que Abrahão chegou a Hebron depois do falecimento de Sara. Assim, o presente versículo não vem nos informar que Abrahão veio até Hebron, mas que adentrou a sua casa para se enlutar pelo passamento de sua esposa, evitando demonstrar a sua tristeza em público. Essa ideia foi expressa pela forma com que o termo velivcotá (pranteá-la) foi grafado com uma de suas letras diminuída, para indicar que essa lamúria não se deu com letras garrafais, publicamente, mas resguardada aos limites de sua casa. Todos sabiam o quanto Sara representava para Abrahão e quão profunda era a dor dele, razão pela qual ele se lamentava e pranteava, sofrendo muito em seu coração, mas dentro de seu lar.

lamuriar. O termo hebraico lispód (lamuriar, dizer um discurso fúnebre) é próximo foneticamente a lizbód, que significa “dar a alguém a sua parte”. No nosso caso, o discurso fúnebre devolve à pessoa aquilo que ela obteve em sua vida ao expressar e informar a todos o seu valor.

  1. E Abrahão levantou-se de diante de sua falecida. Abrahão abandonou a sua falecida apenas para tratar do sepultamento dela. A lei judaica aprendeu desta passagem que os parentes de uma pessoa falecida não devem se ocupar com qualquer outra coisa antes do sepultamento e que por todo o tempo em que o corpo não foi enterrado é como se estivesse disposto diante dos parentes encarregados disso. Pois isso, no próximo versículo, Abrahão diz “e enterrarei minha morta que está diante de mim”.
  2. Peregrino e residente. A dizer: “Não tenho quaisquer direitos em sua terra, mas eu habito essa terra há um longo tempo.”

uma propriedade para sepultura. Aquele que interpreta o termo achuzá (propriedade) como sendo um bem que a pessoa pode leechóz (segurar, portar) incorre em erro, uma vez que o termo achuzá sempre remete à propriedade de terras – imóveis que a pessoa não pode portar e segurar consigo. Mais do que isso, quando este verbo se refere à propriedade de bens imóveis, o sujeito ganha sempre a flexão passiva, como se o imóvel portasse o seu proprietário, e não o contrário. De certa forma, o proprietário se encontra preso às amarras do seu imóvel, motivo pelo qual a sua propriedade pode lhe servir de fiadora. Igualmente, a pessoa que faz um juramento empenhando seus bens não pode fazê-lo com seus bens imóveis, bens estes que sobrevivem a seus donos e que não estão à sua mão para serem liquidados no momento em que bem entender.

Porém, a achuzá (propriedade) que Abrahão buscava adquirir implicava também na obtenção do direito de residir permanentemente no local. Mais do que uma permissão para enterrar a sua morta, Abrahão desejava que sua esposa fosse sepultada em seu único e eterno local de descanso. Para tanto, apesar de Abrahão ter morado por muitos anos naquelas terras sem se importar em comprar qualquer bem imóvel, já que estava destinado a ser um nômade pela terra, a necessidade de enterrar a sua esposa fez com que buscasse comprar uma terra que fosse sua para todo o sempre. O túmulo de sua esposa viria a ser o primeiro elo de Abrahão com aquele solo, o pedaço de terra que iria atraí-lo e portá-lo, sendo assim a sua achuzá (propriedade).

 

24 1 E Abrahão era velho; ele veio através dos dias, e o Eterno o abençoara em tudo. 2 E Abrahão disse a seu servo, velho de sua casa, aquele que tinha o governo de tudo que era dele: Põe a tua mão debaixo da minha coxa, 3 e te farei jurar pelo Eterno, o Deus dos céus e o Deus da terra, que não tomarás para meu filho uma mulher das filhas do Cananeu, entre o qual eu moro.

 

  1. E Abrahão era velho; ele veio através dos dias. Esta introdução contém o resumo da vida de Abrahão: ele era “velho”, “veio através dos dias” e “o Eterno o abençoara em tudo”, conforme explicaremos a seguir. O trabalho de sua vida havia sido concluído e ele já não tinha expectativas e anseios para si mesmo. Sua única preocupação estava voltada ao futuro de seu filho e de sua respectiva família.

velho. Velho é alguém que se torna mais sábio em consequência do acúmulo de experiência em sua vida – em oposição ao jovem, que tende a afastar de si as impressões externas, buscando construir o seu mundo a partir de si mesmo, sem extrair lições do que acontece consigo e à sua volta. Assim, deve-se diferenciar entre o velho e o antigo. Iashán (antigo), cuja raiz vem de iashén (dormido), indica um estado de cessação de forças em que a pessoa se encontra fraca e desprovida de seus sentidos. Daqui também vem o termo ishón (escuridão), uma circunstância paralisante e limitadora. Por sua vez, zakén (velho) indica aquilo que foi adquirido durante a labuta da vida e do amadurecimento da personalidade.

Nas palavras dos nossos sábios (TB Kidushin 32b), “Velho é aquele que adquiriu conhecimento”, ou num ditado mais amplo (Bereshit Rabá 59:9), “Velho é aquele que adquiriu os dois mundos”. A sabedoria judaica jamais desconhece que o mundo terreno tem o seu valor ao lado do valor do mundo vindouro, e enuncia (Ética dos Pais 4:22): “É mais bela uma hora de arrependimento e de realização de boas ações neste mundo do que toda uma vida no mundo vindouro”, ao mesmo tempo em que “É melhor uma hora de contemplação no mundo vindouro do que toda uma vida em nosso mundo”. Assim, a sabedoria judaica entende que “velho” é aquele que adquiriu em sua vida na terra os dois mundos; é a pessoa que conquistou o mundo terreno em prol da entrada no mundo vindouro, obtendo a marca do carimbo Divino em aprovação ao período de sua vida terrena. Como o Midrash assevera (Ialcut Shimoni, Bereshit 27), “Os justos hão de fazer a Presença Divina habitar a terra”.

Neste sentido, o Midrash (Bereshit Rabá 59:6) interpreta que as palavras “ele veio através dos dias” significam que Abrahão passou por uma rota direta entre o mundo terreno e o mundo vindouro, onde encontrou os portões abertos à sua espera. Ou seja, a sua vida transcorreu como um corredor que o transportou diretamente ao mundo vindouro, e que os seus dias não o superaram, mas sim, que ele passou através dos seus dias com cada um deles a lhe servir como um marco em sua trajetória rumo à eternidade.

e o Eterno o abençoara em tudo. Os nossos sábios (TB Babá Batrá 16b) dizem que os patriarcas experimentaram uma fração do mundo vindouro durante as suas vidas. Segundo eles, a expressão “em tudo” do nosso versículo corresponde a “comi de tudo” que será dito mais adiante por Isaac (27:33) e a “tenho tudo” que será dito por Jacob (33:11) – sendo essa a síntese da vida dos nossos patriarcas: bacól (em tudo), micól (de tudo) e  cól (tudo).

Todavia, analisando por um prisma mais amplo, as trajetórias dos nossos patriarcas tiveram características distintas e particulares. Abrahão, por exemplo, viveu um caminho de elevação contínua e progressiva, atingindo o ápice quando foi nomeado príncipe do Eterno entre os povos. Jacob, por sua vez, foi condenado a fugir de sua terra natal, tendo apenas um bastão em sua mão, e a trabalhar como um escravo na casa do seu tio Labão. Já Isaac teve uma trajetória mediana, passando a maior parte do tempo em sua casa, mas na intempérie de enxergar como seus melhores dias iam e ficavam cada vez mais num passado distante. Apesar disso, como os nossos sábios disseram, Deus os fez experimentar algo da perfeição e da completude do mundo vindouro, conforme aludido pela menção do termo “tudo” em relação a eles.

De modo mais profundo, se entendemos corretamente esta mensagem, podemos dizer que a felicidade de Abrahão se expressava no fato de ele ter sido abençoado “em tudo”, ou seja, ele realmente enxergava que estava sendo abençoado em todos seus atos, e assim ele florescia e crescia cada vez mais. Em seu turno, sobre Isaac foi dito apenas “de tudo”, como se fosse “apesar de tudo”, e representa a obtenção da felicidade mesmo em meio aos momentos difíceis com os quais ele se deparou em sua trajetória. Finalmente, Jacob parece ter atingido o grau mais alto, expresso nas palavras “tenho tudo”, que é o nível daquele que não carece de nada para si, uma vez que toda sua tendência é dar e prover aos demais, tendo a capacidade de encontrar uma satisfação superior em sua vida em quaisquer que sejam as circunstâncias.

Sobre a expressão bacól (“em tudo”) do nosso versículo, os nossos sábios (ibid.) ofereceram ainda outras três interpretações: “O que é bacól (“em tudo”)? O Rabi Meir diz: Significa que Abrahão não teve filhas; o Rabi Iehudá discorda e diz que Abrahão teve uma filha; outros dizem que Abrahão teve uma filha cujo nome era Bacól.” E o Rabi Elazar Hamudaí acrescentou que “o conhecimento de Abrahão no campo da astrologia era tão grande que todos os reis do Oriente e do Ocidente amanheciam à sua porta”, e segundo o Rabi Shimon Bar Iochai, “Abrahão tinha uma pedra preciosa pendurada em seu pescoço que curava todos os doentes que a olhavam”.

É difícil conceber que havia entre os nossos sábios quem pensasse que uma pessoa é abençoada por não ter filhas, até porque é previsto que cada homem deve ter pelo menos um casal de filhos. No entanto, dado o contexto social em que Abrahão estava inserido, tendo em vista a dificuldade enfrentada por ele para encontrar uma esposa adequada para Isaac, podemos entender o ponto de vista do Rabi Meir, que entendia que a falta de filhas podia ser considerada uma bênção, pois seria dificílimo que Abrahão encontrasse para ela um marido que não fosse adepto da idolatria e dos maus costumes canaanitas. Já de acordo com a opinião do Rabi Iehudá, a bênção de Deus a Abrahão era tão potente a ponto de dar a ele uma filha em condições que pudesse continuar em seu caminho mesmo depois do casamento, que poderia até servir de ponte entre Abrahão e o mundo à sua volta. Por sua vez, os outros sábios que disseram que o nome da filha dele era Bacól quiseram dizer que Abrahão não teve uma filha de carne e osso, mas que teve o mérito de receber uma bênção, que de tão revelada, atraía os olhares de todos a Abrahão e à sua família, como se tivesse uma linda filha ao seu lado. Entre outras expressões desta bênção, Abrahão detinha a capacidade de entender a astrologia como ninguém e possuía aquela pedra que curava os doentes. E como os nossos sábios disseram, a bênção de Abrahão não passava despercebida por seus contemporâneos.

  1. seu servo, velho de sua casa. Este escravo estava subjugado a Abrahão legalmente, e por isso devia cumprir cuidadosamente todas as suas ordens. Ainda assim, do mesmo modo que Abrahão se tornou “velho” e adquiriu uma perfeição espiritual, assim também Eliezer* se tornou sábio e adquiriu ascendência sobre o que se passava na casa de seu amo. O servo se dedicava plenamente e estava inteiramente imbuído do caminho de Abrahão, orientando a todos os demais encarregados acerca de suas tarefas.

 

* Apesar de este escravo figurar como protagonista até o final deste longo capítulo, o seu nome não foi informado pela Escritura, sendo chamado apenas de “servo” ou “homem” (a partir do versículo 21). Entretanto, os nossos sábios (TB Iomá 28b) esclareceram que a menção a este servo como “velho de sua casa, aquele que tinha o governo de tudo que era dele” no nosso versículo se refere ao mesmo servo mencionado acima (15:2), quando Abrahão diz que “o encarregado da minha casa é o damasceno Eliezer”, entendimento este que é adotado pelo Rabino Hirsch no decorrer de todo o presente relato. (N. do T.)

 

Põe a tua mão debaixo da minha coxa. Esta expressão apenas consta numa outra ocasião, quando Jacob ajuramenta o seu filho José antes da sua morte. Seguindo a intuição do que foi dito literalmente, não me parece que o lugar abaixo da coxa se refira ao órgão reprodutor masculino, como muitos entenderam, como forma de validar esse juramento ao tocar um objeto sacro – no caso, o objeto do mandamento da circuncisão. Ao nosso ver, o iérech (coxa) representa a parte mais baixa e distante do corpo, a primeira a tocar o solo quando a pessoa se senta ou se deita – o oposto do “ombro”, que é o primeiro membro a se erguer quando a pessoa se levanta, conforme explicamos acima (9:23). Desse modo, uma pessoa que está prestes a falecer e se recostar eternamente sobre o solo, ao ajuramentar aqueles que continuarão vivos a cumprirem as suas ordens, pede para que estes coloquem a mão abaixo de sua coxa, simbolizando a vinda da morte que se aproxima. Igualmente, é possível interpretar que o significado desta expressão seja “Deixa me sentar sobre tuas mãos”, ou seja, “dá-me de tuas forças para que eu possa me recostar em paz”. Finalmente, a nossa visão acerca disso também se sustenta pelo fato de que a colocação da mão embaixo da coxa é nitidamente apenas um preparativo para o juramento e não parte do mesmo – diferente do entendimento de que isso fosse um gesto que visasse validar o juramento.

  1. pelo Eterno. Aquele em Cujas mãos repousa o futuro.

o Deus dos céus e o Deus da terra. E não “o Deus dos céus e da terra”, para que não seja dada nenhuma margem ao entendimento que renega a Providência Divina na terra, como se o Eterno fosse o Deus da terra apenas à medida que Ele é o Deus dos céus, e apenas no caso de a terra seguir os desígnios dos céus. Daí a expressão “o Deus dos céus e o Deus da terra”, pois Ele domina e rege os céus exatamente do mesmo modo que a terra.

das filhas do Cananeu, entre o qual eu moro. O abismo que separava uma filha do Cananeu do filho de Abrahão era tão grande que essa diferença jamais poderia se desfazer. E por Abrahão morar entre os canaanitas, a influência de uma mulher local certamente iria se sobrepor a Isaac, pela proximidade que ela teria com suas amigas e familiares.

É interessante notar que adiante (versículo 37), quando Eliezer conversa com a família de Rebeca, ele foi astuto o bastante para reproduzir esta ordem de Abrahão com uma pequena diferença: em vez de dizer que estava proibido de pegar uma mulher dos canaanitas “entre o qual eu moro”, num círculo mais restrito, para evitar a influência da família, ele disse que estava proibido de escolher uma mulher “em cuja terra eu habito”, dando a entender que a proibição recaía sobre todas as canaanitas num raio mais amplo. Desta forma, ele evitou que os familiares de Rebeca se sentissem ofendidos com o entendimento, correto ou não, de que o motivo que o levara a escolhê-la era o fato de que seus familiares eram de longe e não viriam morar perto do novo casal.

 

12 E disse: Eterno, Deus de meu senhor Abrahão! Faz algo por acaso perante mim hoje, rogo, e usa de benevolência para com meu senhor Abrahão.

 

  1. Faz algo por acaso (hacrê) perante mim hoje, rogo. O termo hacrê está relacionado a cará (com ), que é próximo de cará (com álef) cujo significado de seu modo infinito licró (chamar, evocar) é provocar que alguém se dirija em nossa direção, física ou espiritualmente. Aquele que nos chama altera a direção do nosso destino e nos direciona a si. Micrê (acaso) é uma casualidade, algo novo que nos acontece e que não podíamos prever, como se esse acontecimento estivesse a nos “chamar” de modo a alterar o nosso direcionamento. Aquilo que denominamos de acaso parece que acontece por acaso somente porque não esperávamos ou não prevíamos que iria acontecer. Embora estivesse oculto de nós, era revelado e conhecido pelo Onisciente desde sempre. Não é o acaso que nos acontece, mas nós é que somos “evocados” por ele.

O judaísmo não vê o acaso como uma fatalidade cega e arbitrária. Quando uma pessoa diz que tal coisa “lhe sucedeu”, ela está falando de um acontecimento não premeditado que ela não previra ou chamara por ele, mas sim que, de certa forma, o evento chamara a pessoa a ele; ela não contava com ele nem o imaginara, e justamente por causa disso ele aconteceu como uma espécie de decreto celestial.

Assim, Eliezer roga naquele momento que Deus assuma o controle dos acontecimentos, uma vez que, por si só, ele nada conseguirá fazer e, pelo sucesso da missão, que isso aconteça “perante mim”, ou seja, antecipadamente e o mais breve possível.

 

25 1 E Abrahão tornou a tomar uma mulher, e seu nome era Keturá.

 

  1. E Abrahão tornou a tomar uma mulher. Não há espanto na decisão de Abrahão de se casar novamente tendo em vista que veio a sobreviver Sara em 38 anos, ou seja, por um período mais longo do que costumam durar muitos dos casamentos em nossos dias. E como os nossos sábios disseram (Bereshit Rabá 17:2) que um homem não é completo enquanto estiver solteiro, já que nenhuma pessoa pode cumprir a sua missão apenas com suas forças, Abrahão precisava de uma esposa que o tornasse uma pessoa completa para seguir adiante.

Keturá. De acordo com a opinião do Rabi Iehudá (ibid. 61:4), Keturá era ninguém menos que Hagar, a antiga serva de Sara que agora foi renomeada pela Escritura. E segundo outra passagem do Midrash (Tanchumá, Chaiê Sara 8), a retomada desta relação foi intermediada por Isaac, que buscou Hagar em sua ida ao poço Lachai Roí, o lugar onde ela havia se refugiado na primeira vez em que foi expulsa da casa de Abrahão e onde se encontrava quando Isaac a procurou para retornar à casa do seu pai.

No momento de sua busca por Hagar, é importante notar, Isaac ainda não havia se consolado pela morte de sua mãe, a quem tanto amava – pois ele ainda não havia conhecido Rebeca –, mas isso não o impediu de trazer Hagar para que se tornasse a sua madrasta! Quão puro e humano era o relacionamento entre o enteado e sua madrasta aos olhos dos nossos sábios, pois, independente do fato se o que o Midrash relata aconteceu realmente ou se foi ensinado apenas devido a seu valor pedagógico, o retrato que fica é o de um convívio harmonioso entre as partes, que predominava na época dos nossos sábios e bem distante do clima de tensão, quando não de hostilidade, que impera nos relacionamentos entre os filhos e os novos cônjuges de seus pais em nossos tempos.

Ainda de acordo com o Rabi Iehudá, a menção do termo vaiossef (tornou, acrescentou) veio indicar que esse casamento de Abrahão com Hagar configurou uma extensão de sua trajetória até então: Abrahão continuou a se pautar pela mesma voz Divina que outrora o aconselhara a escutar a voz de Sara e expulsar a Hagar, e que agora o aconselhava a retomar o seu relacionamento com ela. Desde a sua expulsão, Hagar passou a viver reclusa e afastada do convívio social, e esse comportamento mais fechado lhe valeu o nome de Keturá, que vem da raiz de kéter (nó, amarra). E diga-se que, não fosse esse isolamento, Hagar não poderia se casar novamente com Abrahão, pois se tivesse enlaçado outro relacionamento neste período, estaria vedada pela lei judaica a voltar a se relacionar com seu antigo marido.

Torá Interpretada - Editora Sêfer

 

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção CHAIÊ SARÁ extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.

 

 

 

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