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Parashá Semanal - Leitura da Torá

Os três estágios do exílio de Israel

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção Bechucotai extraída da obra torá interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch recém-publicada pela Editora Sêfer

 

Levítico, Capítulo 26

42 E Me lembrarei da Minha aliança de Jacob, e também da Minha aliança de Isaac, e também da Minha aliança de Abrahão Me recordarei, e da terra Me recordarei.  

 

 

  1. E Me lembrarei da Minha aliança. Não é dito aqui “aliança com”, mas “aliança de Jacob (…) aliança de Isaac (…) aliança de Abrahão”. É claro, portanto, que esta não é uma aliança com Jacob, Isaac e Abrahão, mas sim, que Jacob, Isaac e Abrahão definem a “Minha aliança”, de modo que há uma aliança de Deus chamada “Jacob”, uma aliança chamada “Isaac” e uma aliança chamada “Abrahão”.

Similarmente, “Eis que lhe dou a Minha aliança de paz” (Números 25:12, ver o comentário lá). A aliança de Deus dada a Pinchás é “paz”, pois uma aliança é uma promessa absoluta de Deus (ver comentário sobre Gênesis 6:18), e essa aliança é chamada de “paz”. Deus prometeu que todas as coisas futuramente alcançarão a forma ideal de paz, apesar de todas as perturbações que se opõem a isso. Porém, Deus confiou Sua aliança de paz, não aos que fecham os olhos com medo, mas àqueles que – imbuídos do zelo de Pinchás – lutam pela verdade com honestidade e sem egoísmo.

Portanto, Deus estabeleceu alianças para o desenvolvimento do destino histórico judaico – uma aliança chamada “Jacob”, uma aliança chamada “Isaac” e uma aliança chamada “Abrahão”. Deus era próximo a todos os três – Abrahão, Isaac e Jacob – e o destino de todos os três foi sustentado pela mão de Deus e era necessário para o estabelecimento travado com eles, embora cada um deles tivesse um status único no mundo.

Diz a tradição que Abrahão instituiu a oração da manhã, Isaac instituiu a oração da tarde e Jacob instituiu a oração da noite (TB Berachót 26b). Paralelamente, o destino da vida de cada um dos patriarcas era compatível com um destes três momentos do dia:

O destino de Abrahão foi iluminado com clareza crescente. Embora tenha permanecido sozinho contra toda a humanidade, convocando-a ao altar do Eterno – ainda assim, seus contemporâneos não o invejavam ou odiavam; pelo contrário, eles o honravam como um “um príncipe de Deus” (Gênesis 23:6).

O destino de Isaac foi escurecendo gradativamente com a luz que se punha no horizonte. Por estar isolado em seu caminho com Deus, ele foi invejado pelas bênçãos que recebeu de Deus e forçado a permanecer isolado em sua casa. A noite caiu sobre Jacob. Muitas foram as sombras do seu destino. Toda a sua vida foi uma cadeia de provações e tribulações, e ele raramente conseguia viver em paz.

Apesar disso, todos os três são os patriarcas do nosso povo e os portadores da aliança de Deus, e as adversidades de Jacob revelam a proximidade de Deus com o destino humano, não menos do que a imagem iluminada da vida de Abrahão. Portanto, cada um dos patriarcas é chamado aqui de “aliança”, e assim foi prometido aos seus filhos, o povo de Israel: o destino deles também estará sujeito a mudanças de sorte, assim como o destino dos seus ancestrais. Porém, em todas as mudanças do destino deles, eles estarão sob a Supervisão particular e liderança de Deus. Assim como Abrahão, Isaac e Jacob, o povo de Israel caminhará entre as nações e sempre permanecerá fiel à aliança de Deus – seja o destino deles como o de Abrahão, Isaac ou Jacob.

No entanto, as três promessas da aliança estão escritas na ordem inversa. A aliança “de Jacob” é escrita primeiro. Além disso, ela é enfatizada por meio de uma grafia completa* e apresentada – por meio dos sinais melódicos massoréticos e da estrutura do versículo – como a promessa principal, que merece atenção especial, enquanto a aliança “de Isaac” e a aliança “de Abrahão” são apenas anexadas a ela por meio da palavra “também”, como uma extensão e continuação. Isso pode ser explicado à luz dos versículos anteriores nesse trecho.

 

* O nome de Jacob é escrito aqui com a letra “vav”, que indica a vogal “o” presente no nome, mas que geralmente é omitida e indicada apenas pela pontuação da palavra. (N. do T.)

 

Com o início do exílio, os membros da aliança “de Abrahão” foram introduzidos no destino “de Jacob”. Porém, a segunda parte do versículo 41 pressupõe que ocorrerá a segunda possibilidade em relação ao futuro: eles perceberão o exílio – com toda a sua amargura – em sua verdadeira luz, como expiação por suas iniquidades. Eles encontrarão consolo e satisfação no fato de que a sua dívida passada está sendo expiada e apagada, e cumprirão o seu dever no exílio com consciência e intenção, e por lealdade ao dever. Desta forma, eles se elevarão ao completo oposto dos seus erros passados.

Então, “E Me lembrarei da Minha aliança de Jacob” – Eu estarei com eles durante todas as extremamente longas noites do seu exílio. Transformarei mesmo a escuridão da noite do seu exílio numa revelação iluminadora da conduta Divina, pois eles também iluminam a noite escura das nações por meio da sua devoção total ao propósito da humanidade. Eles brilham como as estrelas com alegria devota – na vida e na morte.

E quando a sua cota de sofrimento tiver chegado ao fim e eles tiverem assinado a sua fidelidade à Torá com o sangue dos seus corações sobre as páginas da História mundial, então “e também da Minha aliança de Isaac” – eles não foram atormentados e tiveram o seu sangue derramado entre as nações em vão. O exemplo que deram iluminou o espírito das nações e as tornou mais refinadas, e com o despontar da alvorada nos céus das nações, a escuridão da meia-noite do exílio de Israel também passa. Os exilados começam a dar um suspiro de alívio novamente e passam a prosperar e florescer em terras que até então eram estranhas para eles.

Durante o tempo de Jacob, eles tiveram de suportar o ódio das nações. E agora, assim como Isaac, a inveja das nações será imposta a eles (ver Gênesis 26:14 e 16, e o comentário sobre o versículo 15 ali). Agora, eles devem aprender a segunda lição do exílio que, devido à sua natureza, certamente não será fácil para eles. Com sucesso crescente, habitando entre as nações que vivem indecisas em sua relação oscilante entre a compaixão e o ciúme, eles terão de manter seu caráter único, como fez Isaac. Eles terão de usar seus poderes e habilidades, mais numerosos e menos limitados do que antes, para um cumprimento mais completo e multifacetado do seu papel singular no exílio e ignorar completamente a inveja das nações, que ainda os isola do resto do mundo.

E quando eles tiverem passado pela segunda provação do exílio e cumprido a Torá, mesmo numa situação de abundância material, então “e também da Minha aliança de Abrahão Me recordarei” – e o sol que brilhou sobre Abrahão brilhará também sobre eles no exílio. Assim como Abrahão, eles construirão altares a Deus e à Sua Torá entre as nações. Assim como Abrahão, eles cumprirão a Torá confiada a eles para a salvação da humanidade e manifestarão da plena bondade e verdade da Torá entre as diversas nações.

Por fim, as nações tolerarão e honrarão Israel – não apesar de ele ser o povo do Deus de Abrahão, mas porque ele é o povo do Deus de Abrahão e porque ele conhece e cumpre a Torá de Deus, que traz salvação à humanidade. E assim como Jacob, que combateu o anjo de Esaú e recebeu a sua bênção no final da luta noturna, o mesmo ocorrerá com os filhos de Jacob e Isaac – odiados e depois tolerados e sujeitos à inveja –, e no final, eles serão acolhidos pelas nações como o povo do Deus de Abrahão, pois “tu és um príncipe de Deus entre nós”! (Gênesis 23:6).

Assim eles superarão os obstáculos colocados pela inveja das nações, por meio de sua simpatia e por meio do exemplo que dão, e não se portarão com orgulho – mesmo em tempos de boa sorte. Eles superarão todos os obstáculos em que falharam quando moravam na sua terra, e só então, “e da terra Me recordarei” – quando eles se tornarem “Abrahão”, Eu cumprirei a promessa que fiz a Abrahão em relação à terra e os trarei de volta a ela para cumprir o seu propósito como o povo da Torá na terra da Torá.

Aprendemos, portanto, que a aliança de Jacob, a aliança de Isaac e a aliança de Abrahão são os três estágios pelos quais eles devem cumprir o seu propósito no exílio. Quando passarem por esses três estágios, os seus pecados serão expiados e, naquele momento, eles estarão prontos para retornar para sempre à terra da sua independência.

Torá Interpretada - Editora Sêfer

 

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção Bechucotai extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.

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