Pensamento Judaico

Prefácio de A Dignidade da Diferença

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Escrevi “A Dignidade da Diferença” como resposta aos eventos de 11 de Setembro de 2001. O argumento que firmei na época, acredito, ainda é relevante.

Os problemas do século 21 continuam os mesmos. As desigualdades de renda entre as nações e no interior delas se mantêm. As metas estabelecidas pelas Nações Unidas para o Desenvolvimento do Milênio não estão sendo cumpridas. Todos os anos, dois milhões de crianças ainda morrem em razão da pobreza, da desnutrição ou de doenças que poderiam ser prevenidas.

A distribuição desigual da riqueza fez as pessoas sair em buscar do lucro em curto prazo, à custa da sustentabilidade em longo prazo, provocando a crise financeira nos Estados Unidos e na Europa. A confiança nos líderes e instituições em todo o Ocidente declinou. Desestabilizada pelos ataques às Torres Gêmeas e ao Pentágono, a política internacional ainda não se  reequilibrou.

No entanto, as possibilidades são imensas. As novas tecnologias de comunicação possibilitam o acesso universal à informação e à educação por meios e modos até então inimagináveis. As redes sociais têm força suficiente para mobilizar multidões, derrubar tiranias, expor a injustiça, ampliar a capacidade de protestar e contribuir para levar a democracia para áreas do mundo que ainda não a conheceram. Os avanços no conhecimento médico e na tecnologia, da decodificação do genoma humano às novas descobertas da neurociência, abrem perspectivas de cura para males antes incuráveis ??e hereditários. As novas fontes de energia podem causar um impacto positivo no meio ambiente do nosso planeta. Graças ao comércio global, certas partes do mundo, antes presas fáceis da pobreza generalizada, estão crescendo.

Ou seja, vivemos um dos grandes momentos de mudança na história, e ainda mais dramática do que aquelas causadas pela invenção da imprensa ou pela revolução industrial. Há razões para temores e também para esperança. Mas o que prevalecerá?

Este livro sustenta o raciocínio de que tudo vai depender dos valores que atribuirmos aos problemas que enfrentamos. Precisamos de uma estrutura ética para a era global. A economia de mercado é uma forma poderosa de criação de riqueza, mas menos eficaz na distribuição igualitária e, por isso, uma de nossas tarefas é aumentar e lutar a favor da justiça social nas nações e entre elas. A dignidade humana depende tanto de direitos iguais no acesso à educação quanto da igualdade de riqueza e poder. Somos responsáveis não somente por nossa geração, mas por aquelas que nos sucederão. E isso explica a necessidade de uma ética ambiental. E assim por diante.

A visão ética que proponho aqui é tão antiga quanto bastante contemporânea. Ela tem origem na Bíblia Hebraica, e, portanto, minha esperança é de que judeus, cristãos e muçulmanos se identifiquem com ela. Mas descobri que os princípios que defendo encontram eco entre pessoas de outras religiões e tradições, e são receptivos por humanistas seculares. É o argumento mais forte possível na defesa da responsabilidade global para o bem comum de nossa humanidade compartilhada.

O raciocínio  mais importante que defendo – e que deu título ao livro – se baseia na ideia segundo a qual as diferenças culturais e religiosas não precisam provocar um choque de civilizações, mas, ao contrário, criar o princípio do respeito à diferença. Isto é, a verdade do âmago do monoteísmo abraâmico é que a unidade no Céu dá origem à diversidade na Terra. O desafio de uma ética religiosa para o século 21 é perceber que apesar de uma pessoa não ter sido criada à minha imagem – e cuja cor, credo ou cultura são diferentes dos meus – ela não se pareça menos com a imagem de Deus.

Há mais de dez anos, quando fui ao Ground Zero (de Nova York, onde havia as Torres Gêmeas), conscientizando-me do poder da fé religiosa em gerar  tanto o ódio quanto o amor, senti a imensa necessidade de buscar uma nova forma de pensar a respeito de um problema que tem apavorado a humanidade ao longo da história: como se relacionar com o próximo, o estranho, o diferente, aquele que não é como eu. Este livro é o resultado disso e nos anos seguintes ao seu lançamento fiquei impressionado pela receptividade positiva dele por pessoas de diversas religiões, ou de nenhuma religião, e em vários países.

Em parte, A Dignidade da Diferença é um argumento religioso contra o extremismo religioso. Mas, também, é a explorar a ideia da compactuação e seu poder de inspirar diferentes civilizações, seculares ou religiosas, a trabalhar juntas, assumindo responsabilidades coletivas pelo futuro humano e valendo
-se das nossas diferenças como fonte de esperança, e não de medo.

Por esta razão me sinto profundamente gratificado por esta nova tradução, de modo a tornar os conceitos aqui emitidos disponíveis para uma nova comunidade de leitores. Para mim, o poder das ideias é maior do que a ideia de poder. Se formos capazes de pensar em uma trilha em direção a um futuro mais justo e compassivo, então podemos começar a tomar as medidas práticas que nos conduzirão até lá.

Minha esperança, portanto, é de que as páginas seguintes, que vos ofereço com amor e humildade, inspirem a ver as diferenças entre os grupos como nossa maior força, em vez de nossa mais profunda fraqueza. A diversidade não nos ameaça; ao contrário, nos faz crescer. Esta é uma verdade espiritual capaz de transformar tanto crentes quanto descrentes e nos ajuda reciprocamente a construir um mundo mais afetuoso e menos conflituoso.

Jonathan Sacks
Fevereiro de 2013


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