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Pensamento Judaico

O judaísmo não é só para os judeus. Se fosse, não teria sentido.

O judaísmo não é só para os judeus. Então, o que Deus quis dizer ao mundo por meio do povo judeu, suas leis, modo de vida e história?

O judaísmo não é só para os judeus. Se fosse, não teria sentido. O Deus de Abrahão não é um Deus tribal. É o Criador do céu e da terra. O Deus de Israel não é de Israel somente. Fez todos os seres humanos à Sua imagem. O Deus da Bíblia Hebraica não limitou Suas bênçãos a uma nação. Após o Dilúvio, fez uma aliança com toda a humanidade. Abrahão e seus descendentes não são as únicas pessoas na Bíblia que encontram Deus. Tampouco são os únicos heróis morais. A filha do Faraó também é. Jó também é. Os israelitas não são o único povo ao qual Deus envia profetas. Ele enviou Jonas ao povo de Nínive. “Por meio de ti”, disse Deus a Abrahão, “todas as famílias da terra serão abençoadas.” A Bíblia não deixa claro como isso acontecerá, porém os profetas foram unânimes em afirmar que isso viria a ocorrer um dia. O judaísmo não é só para os judeus.

Então, o que Deus quis dizer ao mundo por meio do povo judeu, suas leis, modo de vida e história? A resposta, creio eu, encontra-se em quatro aspectos estranhos, altamente distintivos do judaísmo como religião.

O primeiro ocorre no momento formativo da vida de Moisés, quando o profeta encontra Deus na sarça ardente. Deus o incumbe de tirar os israelitas do Egito, mas Moisés reluta. “Quem sou eu”, ele pergunta, “para ser digno de tal missão?” Deus o tranquiliza, e então Moisés indaga: “Quem és Tu? Quando os israelitas perguntarem ‘Quem te enviou?’, o que direi?” Deus responde com uma frase enigmática de três palavras: Ehiê asher ehiê (Êxodo 3:14).

É fascinante observar como as Bíblias cristãs traduzem essa oração. Na Versão do rei Jaime consta: “Eu sou Aquele que sou.” Traduções recentes são variantes da mesma ideia. Eis alguns exemplos:

Eu sou quem sou.

Eu sou O que sou.

Eu sou – é isso que sou.

Todas essas traduções são equivocadas, e o erro é antigo. Em grego, Ehiê asher ehiê transformou-se em ego eimi ho on e, em latim, ego sum qui sum: “Eu sou Aquele que é.” Agostinho, nas Confissões, escreve: “Porque Ele é É, ou seja, Deus é o próprio ser, ipsum esse, em seu sentido mais absoluto e pleno.” Séculos depois, Aquino explica que isso significa que Deus é “o verdadeiro ser, isto é, o ser que é eterno, imutável, simples, autossuficiente, causa e princípio de toda criatura”. Isso continuou na filosofia alemã. Deus tornou-se o “universal concreto” de Hegel, o “ego transcendental” de Schelling, o “Deus-é-Ser” de Gilson e a “ontoteologia” de Heidegger.

O erro de todas essas traduções é óbvio até para um principiante em hebraico. A frase significa: “Serei O que serei.” O verbo não está no tempo presente. Em outros lugares da Bíblia, ele está. No primeiro versículo dos Dez Mandamentos, por exemplo: “Eu sou o Eterno, teu Deus, que te tirei do Egito, da terra da escravidão.” Aí o tempo presente (“Eu sou”) é empregado. No entanto, esse versículo não fala do nome de Deus. Fala de Seus atos. Aqui, porém, Moisés indaga a Deus qual é o Seu nome. Deus poderia ter respondido, como fez o anjo que lutou com Jacob, com uma pergunta retórica: “Por que perguntas o Meu nome?”, sugerindo que a própria questão é incabível. Há coisas que os seres humanos não podem saber, mistérios que não podem compreender, assuntos que transcendem o alcance do entendimento humano.

Contudo, não é isso o que Deus fala. Ele responde à pergunta de Moisés, mas de forma enigmática, com uma frase que precisa ser decifrada. Deus manda Moisés dizer aos israelitas: “‘Serei’ enviou-me a vós.” É como se Deus houvesse dito: “Meu nome é o tempo futuro. Se quiseres compreender-Me, antes terás de compreender a natureza e significado do tempo futuro.”

“Eu sou Aquele que sou” é uma tradução inteiramente baseada na tradição filosófica da Grécia antiga, não no pensamento do Israel antigo. O Deus do puro ser, causa primordial, primeiro movente, existência necessária, é o deus dos filósofos, não o Deus dos profetas.

Qual é então o sentido de “Serei O que serei”? O nome em si não reaparece na Bíblia Hebraica, mas ecoa posteriormente na cena grandiosa em que Deus Se manifesta a Moisés no monte, após o pecado do Bezerro de Ouro, quando Ele diz: “Terei misericórdia de quem Eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem Eu me compadecer” (Êxodo 33:19).

Isso significa que não é possível prever nem controlar Deus. Ele não pode ser confinado em categorias nem conhecido de antemão. Deus está dizendo a Moisés: “Não podes saber como Eu aparecerei até que Eu apareça; como agirei, até que Eu aja. Minha misericórdia, piedade, minhas intervenções estratégicas na história não podem ser controladas nem preditas. Serei o quê, quando e como Eu decidir ser. Sou o Deus do futuro radicalmente incognoscível, o Deus das surpresas. Tu me conhecerás quando me vires, mas não antes.”

Sem dúvida, num aspecto, o futuro está ligado ao passado. Deus cumpre as Suas promessas. Esse é um elemento essencial da fé judaica. Mas esse mesmo fato revela a diferença entre previsibilidade e lealdade. Os objetos caem, os gases expandem-se, as partículas combinam-se: essas coisas são previsíveis. Por outro lado, as pessoas honram voluntariamente as obrigações que assumiram porque são leais. Essa é a distinção que Deus nunca deixa de ensinar a Moisés e aos profetas.

O nome de Deus nos diz que Ele não é uma entidade conhecível pela filosofia ou pela ciência, deduzível do passado. Deus nos espera no futuro desconhecido e incognoscível. Esta é a primeira parte do argumento: o Deus de Israel é o Deus do tempo futuro.


Trecho extraído do livro Tempo Futuro – Judeus, judaísmo e o século 21
Autor: Jonathan Sacks
Editora Sêfer
Páginas: 272

O Rabino Lord Jonathan Sacks, um dos mais admirados pensadores religiosos de nossa época, faz um chamado aos judeus para que rejeitem a imagem de povo sozinho no mundo, cercado de inimigos que funciona como uma profecia que se autorrealiza e recuperem o sentido de propósito original do judaísmo, atuando como parceiros de Deus e de pessoas de outras crenças na luta infindável por liberdade e justiça social para todos.

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