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Parashá Semanal - Leitura da Torá

O censo demográfico da Congregação de Israel

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção BAMIDBAR extraída da obra torá interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch recém-publicada pela Editora Sêfer

 

Números, Capítulo 1

1 E o Eterno falou a Moisés no deserto do Sinai, na tenda da reunião, no primeiro dia do segundo mês do segundo ano da sua saída da Terra do Egito, dizendo: 2 “Levanta o censo de toda a congregação do filhos de Israel de acordo com suas tribos, segundo os seus pais e o número dos nomes, todo homem, cabeça por cabeça.

 

  1. O final do segundo livro da Torá descreve a construção do Tabernáculo. O terceiro livro é dedicado ao que foi exigido do povo de Israel por conta desse santuário – seja de modo simbólico, por meio das oferendas, seja de modo prático, pelos preceitos que santificam cada aspecto da vida cotidiana –, e assim é apresentada uma visão geral que será concretizada por cada indivíduo em particular e pela nação como um todo. O capítulo que finaliza o terceiro livro trata dos votos de santificação, o que abre espaço para que uma pessoa expresse a sua relação com o Templo por meio da doação e santificação do valor de si mesma ou de algum objeto particular. Esse quarto livro retorna à realidade nacional e mostra o povo de Israel como ele é de verdade: uma nação regida pela visão geral descrita no livro anterior.

O livro começa com o mandamento de realizar um censo demográfico da “congregação” – ou seja, daquele grupo populacional unido por meio de um objetivo em comum. Todas as pessoas independentes da nação serão contadas, uma a uma. Um censo dessa natureza serve para esclarecer aos líderes da nação, que “público” não é meramente uma ideia, e sim, a soma da realidade individual de cada um de seus filhos. Simultaneamente, cada indivíduo em particular se reconhece como um membro importante do grupo e que a função destinada à nação como um todo exige a fidelidade e o esforço de cada um em particular para atingir o objetivo comum.

O terceiro livro da Torá termina com a santificação dos rebanhos – esses contados em grupo. O quarto livro inicia com o censo da nação como o “rebanho de Deus” para efeito de seu Pastor. Ela também é contada de acordo com as famílias e tribos, que pertencem a Deus, e cada pessoa será contada individualmente como um ser independente de Seu rebanho.

no deserto do Sinai. O censo ocorreu no deserto. Isso prova que o objetivo deste censo não era econômico ou político – já que a economia e a política não têm qualquer relevância prática para a vida no deserto. Mas a adição das palavras “Sinai” e “tenda da reunião” mostra que a contagem foi feita em prol da Torá dada no Sinai, cujo jugo de seus mandamentos é recebido na tenda da reunião. Primeiro, a Torá foi dada no Sinai. Então, no primeiro dia do mês de Nissan, o testemunho da Torá, devolvido a Israel como um sinal de sua purificação do pecado do Bezerro de Ouro, encontrou seu lugar ideal. Agora, no primeiro dia do mês de Iyar, todas as tribos, famílias e pessoas serão contadas em prol desta Torá. A partir de então, eles se reunirão e acamparão ao redor da Torá como seus guardiões e seguidores.

  1. Levanta o censo. Ver comentário sobre Êxodo 30:12 em diante. Lá, nos versículos 12 e 16, é dito que todo aquele que passar pela contagem deve dar metade de um siclo, e que a quantia total arrecadada será destinada ao bédec habait, ou seja, para a manutenção do Templo – “para o serviço da tenda da reunião”. Verifica-se que cada membro do povo de Israel é contado e considerado apenas mediante o seu compromisso com a Torá, e todo o censo é feito apenas em prol do Templo e seus propósitos.

Esse sistema de contagem conecta o início do quarto livro ao final do terceiro, já que ali também são discutidos os valores e votos de doação para o santuário.

de toda a congregação (adat) dos filhos de Israel. A palavra edá – que tem a mesma construção das palavras shená, ledá, deá e similares* – é derivada da raiz iáad (objetivo), que é próxima de iáchad (união): unir-se em prol de um propósito comum. Edá indica, portanto, um grupo de pessoas que se junta para um propósito comum; pessoas unidas por compartilharem o mesmo propósito – uma congregação. Indivíduos se tornam uma congregação, não através de uma ordem que vem a eles de fora, mas por um interesse comum que os chama de dentro de seus próprios corações. Já “Filhos de Israel” se refere a todo o povo judeu; dentro desse povo, edá indica todos os portadores e guardiões independentes do objetivo conjunto, que é a observância da Torá.

O conceito aqui expresso pela palavra edá (congregação) foi expresso acima (Êxodo 30: 12) pela palavra lifcudehem (conforme seu número). Os recenseados entre os filhos de Israel são aqueles a quem a missão do público nacional israelense “considera”, “conta” e “comanda”;** estes são os “homens” de Israel. De acordo com isso, não se trata aqui de um censo populacional. Nós não queremos saber o número de pessoas, mas o número de “homens” sobre os quais a Torá pode se apoiar.

de acordo com suas tribos, segundo os seus pais. No entanto, os homens individuais não formam diretamente a congregação de Israel; mas o público nacional amplo e abrangente inclui dois círculos internos, já que a população é formada por tribos, e cada tribo é composta de famílias. Assim, os homens devem ser contados segundo suas famílias, e as famílias segundo suas tribos, e as tribos se juntam para formar a soma total da “congregação de Israel”.

A palavra mishpachá (família) deriva da raiz shapach, que é próxima de sapach (juntar), bem como de shéfa (abundância). Shéfa – como em “a tropa (shifat) de Iehú” (2 Reis 9:17), “Uma multidão (shifat) de camelos” (Isaías 60:6), “de sua multidão (shifat) de cavalos” (Ezequiel 26:10) – indica a reunião de uma multidão num só lugar. Com a adição da letra mem, a palavra mishpachá passa a indicar o elemento que reúne indivíduos em grupos naturais. O que cria a família é a origem comum de seus integrantes, assim como o casamento, que transfere a mulher para a casa do marido.

segundo os seus pais (lebêt avotam). Fica claro a partir de vários lugares na Escritura (como adiante 2:2, 33 e 34; 7:2; 17:17-18 e outros) que bêt av indica a unidade da tribo. Os indivíduos se juntam para formar famílias; as famílias, que vêm de uma casa em comum, juntam-se para formar tribos; e as tribos, que também se relacionam a uma casa patriarcal comum, juntam-se para formar a “Casa de Israel”. Essas tribos são chamadas de matot (“ramos” – comparar com Ezequiel 19:11-14), devido ao único tronco genético compartilhado por elas, e são chamadas de batê avot (casas patriarcais) por causa das muitas famílias que são originadas em cada tribo. A “Casa de Israel”, portanto, consiste em doze casas patriarcais; cada casa patriarcal é composta de famílias diferentes; e as famílias são a primeira unidade a reunir indivíduos em grupos.

Este método de agrupamento também é encontrado na tribo de Levi, distinguida do resto da nação para ser tratada como uma unidade independente. Levi é como um povo de Israel em miniatura. Os filhos de Levi – Guershon, Kehat e Merarí – formam casas patriarcais, e seus filhos – Livní e Shimí; Amram, Its’har, Chevron e Uziel; Machlí e Mushí – formam as famílias Levi segundo suas casas patriarcais (adiante 3:18-20).

Esta é a singularidade do nacionalismo judaico: a nação inteira é sempre considerada uma única casa – a Casa de Israel; e os membros da nação são sempre chamados “filho de um único homem” – os filhos de Israel. No entanto, simultaneamente, existem também unidades separadas, que estão submetidas à coletividade maior e que são abrangidas por ela – casas patriarcais e famílias.

A percepção da nação como “Casa de Israel” e de todos os seus integrantes como “filhos de Israel” assegura que o conceito da nação judaica não se torne uma mera ideia abstrata, desprovida de união real; ou que exista apenas como uma ilusão, como uma união imaginária de representantes do alto escalão. A nação judaica é sempre percebida na coletividade unificada e real de seus membros. Eles são unidos por um elemento íntimo em comum, e cada um é parte concreta e inseparável dessa unidade. Nosso pai Israel era um único homem; porém, mesmo depois de seus descendentes terem se multiplicado e se transformado em seiscentos mil homens, todos eles ainda eram integrantes de “uma casa”, filhos de “um homem”, e carregavam o legado de seu único propósito e destino ao longo de todas as gerações.

No entanto, dentro dessa unidade fundamental, e sob sua influência, eles mantêm e cultivam uma infinidade de diferentes características, exclusivas a cada uma das tribos e famílias. Deste modo, poderá ser alcançado o propósito de que a tarefa única compartilhada por todos será realizada e completada por cada indivíduo – apesar de suas singularidades, e ela será alcançada por meio da multiplicidade de diferentes atributos e características especiais. E essa conquista será um exemplo para toda a raça humana.

Cada tribo com sua exclusividade e cada família com seus traços especiais atuarão em prol do objetivo comum da Casa de Israel, e elas darão forma a esse objetivo, educarão seus filhos para buscá-lo e o passarão para a próxima geração. Portanto, as centenas de milhares de pessoas da Casa de Israel são vistas pela nação como uma multidão de pessoas misturadas, mas “de acordo com suas tribos, segundo os seus pais” – isto é, como grupos familiares que se agrupam de acordo com as tribos às quais pertencem. Os homens de cada tribo são contados e as famílias de cada tribo vêm separadamente. E cada família é contada com “o número dos nomes”, ou seja, cada indivíduo é nomeado. Verifica-se que cada um se junta à coletividade enquanto reconhece a importância de sua personalidade.

todo homem, cabeça por cabeça. Cada pessoa tinha de entregar sua metade de siclo pessoalmente e anunciar que era fulano, filho de beltrano, da família sicrana, da tribo tal e tal. A atribuição – tanto familiar quanto tribal – já havia sido expressa pela divisão anterior em grupos. De qualquer forma, todo aquele que passava pela contagem se tornava consciente de seu status pessoal, familiar e tribal, e “como tal” ele era contado dentro da coletividade.

Além disso, a expressão “de acordo com suas tribos, segundo os seus pais” sugere que a atribuição tribal de alguém (Ruben, Cohen, Levi, Judá, Simão etc.), bem como sua atribuição familiar em relação às leis de herança, são determinadas pelo pai, e não pela mãe, pois “a família do pai é considerada família, mas a família da mãe não é considerada família” (TB Babá Batrá 109b-110b).

cabeça. Em um censo, a cabeça representa a pessoa real que está em pé, com seu corpo, diante de nós. Quando um grande número de pessoas está reunido, as cabeças nos fornecem o melhor meio de contá-las. No judaísmo, no entanto, não contamos as cabeças, mas “uma béca por cabeça” (Êxodo 38:26), metade de um siclo para cada cabeça.

Torá Interpretada - Editora Sêfer

 

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção BAMIDBAR extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.

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