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Parashá Semanal - Leitura da Torá

O significado da Tríplice Bênção Sacerdotal

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção Nassó extraída da obra torá interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch recém-publicada pela Editora Sêfer

 

Números, Capítulo 6

22 E o Eterno falou a Moisés, dizendo: 23 “Fala a Aarão e a seus filhos, dizendo: Assim abençoareis aos filhos de Israel; lhes direis:

24 O Eterno te abençoe e te guarde.

25 Faça o Eterno resplandecer o Seu rosto sobre ti e te agracie.

26 Erga o Eterno o Seu rosto para ti e ponha em ti a paz.

27 E porão o Meu nome sobre os filhos de Israel e Eu os abençoarei.”

 

 

  1. O Eterno te abençoe. Visto que após a bênção “te abençoe” vem a bênção “e te guarde”, para complementá-la, está provado que a bênção “te abençoe” se refere principalmente aos bens que requerem proteção, mesmo depois de terem sido concedidos. Eles requerem proteção para que permaneçam em nossas mãos e, assim, se tornem uma verdadeira bênção. Os nossos sábios dizem o mesmo no Sifrí: “‘O Eterno te abençoe’ – com a bênção expressa, como foi dito (DT 28:3 em diante): ‘Serás bendito na cidade e serás bendito no campo. Será bendito o fruto do teu ventre, o fruto da tua terra e o fruto dos teus animais, a cria de teu gado e os rebanhos de tuas ovelhas. Serão benditos teu cesto e a tua amassadeira etc.’; ‘O Eterno te abençoe’ nos bens ‘e te guarde’ nos bens. O Rabi Natan diz: ‘te abençoe’ nos bens ‘e te guarde’ no corpo; o Rabi Its’chac diz: ‘te guarde’ da má inclinação etc. Outra interpretação: ‘te guarde’, para que outras pessoas não te dominem etc. Outra interpretação: ‘te guarde’ dos maus espíritos.” Verifica-se que a primeira bênção dos sacerdotes abençoa Israel com sucesso em todas as suas propriedades físicas e materiais e com proteção contra qualquer coisa que possa prejudicá-los.
  2. Faça o Eterno resplandecer (iaêr). Compare com “com uma coluna de fogo para os iluminar (lehaír lahem)” (Êxodo 13:21); “para lhes iluminar (lehaír) o caminho pelo qual seguiriam” (Neemias 9:12); “relâmpagos iluminaram (heíru) o mundo” (Salmo 77:19) e “Seus relâmpagos iluminam (heíru) o mundo” (ibid. 97:4). Em todos esses versículos, haêr significa lançar luz sobre algo para que possa ser visto. Assim, “Resplandecente (naór) e glorioso Te ergueste” (ibid. 76:5), ou seja, Deus Se revelou através dos heroicos atos de Seu governo. Os eventos mundiais originados Nele refletem quem os criou e O revelam com o poder onipotente de Seu governo.

o Seu rosto. “O rosto de Deus” representa os propósitos de Deus, aos quais Deus “direciona o Seu rosto”. Esses propósitos serão alcançados pelo governo de Deus e por meio de pessoas que cumprem a vontade de Deus com liberdade, como é dito no Salmo 89:15: “Retidão e justiça são os alicerces de Teu trono, e verdade e bondade emanam de Tua face” – ou seja, que o trono do Eterno é baseado em retidão e justiça, e o foco de Seu rosto são bondade e verdade.

e te agracie (vichunêca). O significado de chanan, que é próximo de anan (nuvem) e hanan (aquiescência), é conceder a uma pessoa os seus desejos. Em nosso versículo, a bênção “e te agracie” complementa a bênção “faça resplandecer” que a precedeu. De acordo com isso, a graça aqui consiste no fato de Deus conceder as capacidades espirituais necessárias para que possamos ver o “rosto do Eterno” que resplandece diante de nossos olhos, ou seja, para que possamos conhecer e entender o “rosto do Eterno” que se revela para nós. De acordo com isso, “faça o Eterno resplandecer o Seu rosto” deve ser interpretado assim: Deus lhe revelará os objetivos de Seu governo e os objetivos que devem ser alcançados por ti. Os objetivos de Seu governo são iluminados por Seus profetas, e os objetivos que tu deves alcançar são iluminados por Sua Torá.

“E te agracie”: Deus te cingirá com habilidades espirituais para que tu possas entender Seus ensinamentos contidos na Torá e na profecia, aprender a partir delas o Seu feito na História e quais são as tuas tarefas a serem desempenhadas durante a vida. Seguindo esse caminho, os nossos sábios interpretam no Sifrí: “‘Faça resplandecer’ – trata-se da resplandecência da Torá, como foi dito: ‘Porque um mandamento é uma lâmpada, a Torá é a luz’ (Provérbios 6:23); ‘e te agracie’ – com conhecimento, compreensão, inteligência, moralidade e sabedoria. Outra interpretação: ‘e te agracie’ – te agracie com o estudo da Torá.” Encontramos uma interpretação semelhante em Bamidbar Rabá 11:6 que traz uma prova da formulação do texto da oração de que “graça” indica a concessão de dons espirituais. O Midrash interpreta: “‘E te agracie’ – ora, eles já foram abençoados, guardados e a Presença Divina está no meio deles!* E como sabemos que, além disso, também foram agraciados com conhecimento e compreensão? Por isso foi dito: ‘e te agracie’ – conforme nós pedimos em oração: ‘Tu agracias o homem com conhecimento e ensinas ao homem a compreensão’.”

 

* Essa parte do Midrash se refere ao versículo anterior: “O Eterno te abençoe e te guarde”. Nele, os sacerdotes pedem que Deus conceda ao povo bênção e proteção, além de mencionarem o nome do Eterno, sinalizando a manifestação da Presença Divina. (N. do T.)

 

No Salmo 67, o poeta se refere a essa graça traduzida em bênçãos espirituais. Ele diz que a iluminação intelectual de Israel, que lhe permite conhecer o “caminho de Deus” na terra – tanto o caminho do governo de Deus quanto o caminho do dever que Deus nos ordenou a seguir – é um meio para iluminar o intelecto de toda a humanidade. Nas palavras do salmista: “Que o Eterno nos conceda Sua graça e nos abençoe, e que faça sobre nós resplandecer Seu rosto, para que na terra seja conhecido Seu caminho, e entre todas as nações, Sua salvação. Ergam-Te graças todos os povos. Que todos eles cantem em Teu louvor. Alegrem-se e rejubilem todas as nações, porque com equidade as julgarás, e pelo caminho reto as conduzirás etc.”. Todo esse salmo é uma explicação desse versículo.

  1. Erga o Eterno o Seu rosto para ti (issá Ado-nai panav elêcha). Não encontramos o termo nassó panim el- se referindo a Deus em nenhum outro lugar. Os nossos sábios (Bamidbar Rabá 11,7) interpretam: “Virará Seu rosto na tua direção, como foi dito: ‘e Me voltarei para vós’ (Levítico 26:9).” Consequentemente, essa linguagem é outra maneira de dizer “o Eterno Se dirigirá a ti”. De fato, ali também, “e Me voltarei para vós” serve como introdução para as bênçãos dos céus mais sublimes. O Onkelos também traduz assim: “Vire o Eterno o Seu rosto na tua direção”.

No Levítico 26, uma abundância de bênçãos já fora prometida: multiplicação dos frutos da terra, paz e vitória na guerra, e então é dito: “e Me voltarei para vós”, uma expressão que não poderia ser interpretada senão como um relacionamento pessoal mais próximo entre Deus e Israel, um relacionamento que mais tarde culminaria na bênção de “E porei o Meu Santuário no meio de vós (…) e andarei entre vós”. Também aqui, as bênçãos materiais e espirituais já foram ditas, e a generalidade da linguagem (nos versículos 24-25) indica que se trata de bênçãos as mais abrangentes. A isso foi adicionada agora a bênção de “erga o Eterno”, que é o diamante da coroa que adorna as bênçãos de “te abençoe” e “faça esplandecer” que a precederam. O significado dessa bênção (“erga etc.”) é a proximidade do Eterno. Nós seremos meritórios dessa bênção se usarmos corretamente todos os bens materiais e espirituais concedidos a nós por Deus – se os usarmos no espírito da “resplandecência do rosto do Eterno”. Depois de nossos olhos terem sido iluminados com o conhecimento da vontade de Deus, devemos direcionar os nossos bens materiais e espirituais apenas para o cumprimento dos propósitos Divinos que nos foram revelados por Deus.

Não desejamos a proximidade de Deus para obter uma bênção material e espiritual, mas sim, estamos pedindo uma bênção material e espiritual para fazer a vontade de Deus – para que sejamos dignos da proximidade de Deus. “Quanto a mim, na proximidade do Eterno está o bem a que aspiro” (Salmo 73:28), que é o bem em si mesmo – o bem absoluto.

É possível interpretar a palavra “rosto”, da benção “erga o Eterno o Seu rosto etc.”, no mesmo sentido de “rosto” da bênção “faça resplandecer etc.”, que expressa ainda mais claramente o relacionamento pessoal e próximo de Deus com Israel. Verifica-se que o significado da bênção é este: O Eterno te fez resplandecer o Seu rosto e revelou a ti os Seus propósitos, e já te foram concedidos os meios espirituais e materiais pelos quais tu és capaz de conhecer esses propósitos e levá-los a cabo. Se tu fizeres bom uso de todos esses dons, “o Eterno erguerá o Seu rosto a ti”, ou seja, Ele direcionará a ti todos os propósitos de Seu governo na natureza e na História. Pois Deus deseja a criação, existência e desenvolvimento de um círculo de pessoas que O sirvam, e como esse círculo é expresso por teu intermédio, o objetivo de todo o governo de Deus na terra se concentrará em ti. “O Eterno erguerá o Seu rosto a ti”, ou seja, o foco da face de Deus estará sobre ti, e tu serás colocado sob a Sua supervisão direta.

e ponha em ti a paz. Pelo fato de todos os teus esforços estarem direcionados somente ao Eterno, e a Providência de Deus parecer estar direcionada somente a ti, não penses que tu estarás solitário e em inimizade com o resto do mundo. Não. Deus “porá a paz” precisamente em ti – isto é, estabelecerá para ti paz e harmonia suprema, e se tu fores um verdadeiro servo de Deus, com todos os teus poderes físicos e espirituais, de modo que Deus veja em ti a realização de todos os Seus propósitos, então todas as pessoas dotadas de emoções e pensamento que estiverem em teu entorno te verão como seu complemento perfeito, como aquele que as incentiva a praticar boas ações e que mantém sua existência. Cada suspiro da pessoa que serve a Deus verdadeiramente será atendido com cânticos de louvor pelo mundo ao seu redor.

Torá Interpretada - Editora Sêfer

 

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção Nassó extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.

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