Parashá Semanal

José e a mulher do Potifar

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção VAIESHEV extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer

 

Gênesis, Capítulo 39

7 E foi depois destas coisas que a mulher de seu senhor levantou seus olhos para José e disse: Deita comigo. 8 E recusou e disse à mulher de seu senhor: Eis que meu senhor não sabe o que está comigo nesta casa, e tudo que tem, ele entregou em minhas mãos. 9 Não há maior nesta casa do que eu, e não me proibiu nenhuma coisa, salvo a ti, porque és sua mulher. Como poderia eu cometer esta grande maldade e pecar contra Deus? 10 E ela ficava falando com José dia após dia, mas ele não lhe dava ouvidos, para se deitar perto dela e estar com ela.  11 E foi num dia como aquele, ele veio à casa para fazer seu trabalho, e não havia nenhum dos homens da casa ali na casa, 12 e ela agarrou na sua roupa, dizendo: Deita-te comigo! – e ele deixou sua roupa em suas mãos e fugiu e saiu para fora. 13 E foi quando ela viu que deixou sua roupa nas mãos dela e fugiu para fora, 14 chamou os homens da sua casa e falou com eles, dizendo: Vede, trouxe-nos um homem hebreu para zombar de nós! Ele veio a mim para se deitar comigo, e gritei em alta voz; 15 e foi ao escutar que levantei a minha voz e gritei, ele deixou sua roupa perto de mim e fugiu e saiu para fora. 16 E pôs sua roupa perto dela até vir seu senhor à sua casa. 17 E falou a ele as mesmas palavras, dizendo: Veio a mim o servo, o hebreu que nos trouxeste, para zombar de mim. 18 E quando levantei minha voz e gritei, ele deixou sua roupa perto de mim e fugiu para fora. 19 E ao escutar seu senhor as palavras de sua mulher, que lhe falou dizendo: Desta maneira fez teu servo – acendeu-se sua ira. 20 E o senhor de José tomou-o e o pôs na prisão – o lugar onde os presos do rei eram aprisionados –, e esteve ali na prisão.

 

  1. meu senhor não sabe o que está comigo. Em outras palavras, José informou a ela que Potifar confiava tanto em suas capacidades a ponto de sequer saber o escopo de suas incumbências em sua casa. E ao dizer na sequência que “e tudo que tem, ele entregou em minhas mãos”, José demonstrou que o seu amo lhe confiava todos seus bens irrestritamente.
  2. e pecar contra Deus? Como acontece em todos os atos que atentam contra a moral, ao fazer o mal contra o casamento de Potifar, José estaria incorrendo num pecado contra Deus.

Tendo chegado aqui, é importante nos atermos mais profundamente no conceito de “pecado” à luz de sua fonética na língua hebraica, haja vista que isto pode nos oferecer um entendimento sobre qual seria o conceito oposto a ele – como uma vida de acordo com a moral. Em outros idiomas, “pecado” é definido como aquilo que requer perdão; todavia, essa concepção não é muito útil à compreensão do que é “pecado” realmente.

Num novo caminho, proponho a associação do sentido de chêt (pecado) ao significado do termo chitê (remover), um verbo que é empregado para indicar a remoção de algo de seu lugar habitual e utilizado particularmente para indicar a remoção de brasas ardentes de dentro do fogo. Esse também pode ser o sentido do conceito de “pecado”: remover algo de nós da fonte do seu fogo, ou seja, retirar um componente da nossa vida do fogo incandescente e radiante que deveria preencher todo o nosso coração, para nos despertar e refinar toda a nossa existência. Nesse sentido, as brasas ardentes que forem removidas do fogo fatalmente serão apagadas, ao passo que cada uma das forças humanas submetidas ao fogo Divino continuará acesa e alcançará o seu objetivo. Desta forma, “pecado” nada mais é que uma derivação de todas as inclinações humanas que se desviam deste fogo.

A representação do fogo como um elemento destinado a dominar toda a nossa existência se deve ao fato de a Revelação Divina ter sido comparada a um fogo ao qual devemos nos entregar completamente, conforme foi dito (DT 4:24): “Porque o Eterno, teu Deus, é um fogo consumidor.” Enquanto estivermos entregues a Deus, estaremos puros de qualquer resíduo indesejável. O fogo Divino tem de arder no ser humano e por meio dele, como se o ser humano fosse uma matéria de combustão para que a força Divina possa atuar na terra. Em seu turno, a matéria que não se dispõe a ser instrumentalizada pela Divindade deixa de ser “sagrada”, passando a ficar turva como o carvão ao se entregar ao fogo dos desejos, que não refina nem eleva.

Esse entendimento sobre a relação do “pecado” com o fogo pode nos ajudar a compreender um dos motivos da prática dos sacrifícios de expiação, que visavam constituir um retorno simbólico a uma condição primária e livre das avarias do pecado. Uma vez que o pecado consiste na entrega de partes da nossa existência a um fogo estranho ao fogo Divino, é natural que a reparação desse malfeito se dê com a devolução destas mesmas forças ao fogo Divino, o que acontece de modo simbólico com a oferta de animais sobre o fogo do altar.

  1. E foi num dia como aquele. O sentido da expressão “E foi num dia como aquele” não é muito claro, uma vez que não se refere ao tempo de quem está narrando e tampouco ao tempo de quem está lendo o relato, como acontece na maioria dos casos em que ela é empregada. Contudo, podemos relacioná-la ao que foi dito no versículo anterior, de que “dia após dia” a mulher de Potifar falava com José para estar com ele, de modo que “E foi num dia como aquele” no qual ela já havia tentado seduzir José, ele acabou se arriscando ao ir ao seu local de trabalho num momento em que ninguém estava na casa – além dele e da mulher do seu senhor. De acordo com isso, o nosso versículo contém uma admoestação a José por ter incorrido no risco de confiar excessivamente em si mesmo e na força de sua moral para se opor ao desejo e ao pecado. José veio a ser punido severamente por sua atitude, e daqui aprendemos que ninguém pode confiar absolutamente em si mesmo em tais situações.
  2. e fugiu e saiu para fora. José se retirou do quarto da mulher de Potifar e, logo em seguida, saiu também da casa. A retirada de José foi apresentada nesta narrativa por quatro vezes, em duas versões diferentes, conforme notado e explicado pelo comentarista Ovadia Sforno e como resumiremos a seguir até o final do versículo 18.

O primeiro destes relatos foi dado no presente versículo pela voz da Escritura e dá conta de que José “fugiu” do quarto da mulher de Potifar, mas que apenas “saiu para fora” da residência, com toda a calma necessária para não provocar qualquer estardalhaço que despertasse algum questionamento por parte de quem estivesse presenciando a sua saída.

  1. e fugiu para fora. Neste versículo, somos apresentados ao segundo relato da saída de José, dessa vez pelo ponto de vista da mulher de Potifar. Como ela presenciou o momento em que José “fugiu” do seu quarto, o versículo nos informa que ela deduziu que José seguiu o mesmo comportamento ao sair das dependências da casa. De acordo com sua dedução, “ele fugiu para fora”, o que certamente teria despertado a curiosidade das pessoas da casa. Assim, a sua percepção foi frisada pela Escritura uma vez que foi isso que a levou a tomar seus próximos passos, como veremos no próximo versículo.
  2. chamou os homens da sua casa. Dado o temor de que José pudesse ter chamado a atenção de todos ao evadir-se da casa em fuga, a mulher de Potifar “chamou os homens da sua casa” para expor a sua versão dos acontecimentos, buscando se mostrar inocente de qualquer suspeita quanto ao seu relacionamento com José.
  3. e fugiu e saiu para fora. Em meio à apresentação de sua versão às pessoas de sua casa, a mulher de Potifar teve a perspicácia de notar a surpresa demonstrada por seus interlocutores com todo seu relato, e isso a levou ao entendimento de que José havia saído da casa sem despertar a suspeita de ninguém. Desta feita, ela corrigiu a sua percepção e narrou a todos, na terceira vez em que somos apresentados ao relato desta retirada, que José “fugiu” do seu quarto, e que apenas “saiu para fora” de sua casa, como de fato eles haviam testemunhado.
  4. e fugiu para fora. Finalmente, a mulher de Potifar narra os acontecimentos ao seu marido que não estava em casa naquele momento. A fim de impressionar o seu marido e dar mais dramaticidade à sua versão, sabendo que a sua palavra teria mais peso do que a eventual versão de um escravo que possivelmente sequer seria escutado para poder se defender, ela voltou a narrar a retirada de José de acordo com a sua percepção inicial – ou seja, de que José “fugiu para fora” da casa como um ladrão depois de ter cometido algum crime –, e não a que contou aos homens da sua casa, sob pena de ser desmentida por todos.
  5. e o pôs na prisão. A expressão bêt hassôhar (prisão, casa de detenção) mantém semelhança com termos que remetem a círculos, e isso nos sugere que as prisões de antigamente eram redondas. Outro indicativo disso é o fato de que a maioria daquelas prisões eram chamadas de “poços”, que também são redondos.

o lugar onde os presos do rei eram aprisionados. A palavra assirê (presos) é um substantivo e indica uma característica permanente; por sua vez, o termo assurim (aprisionados) é um verbo e indica uma condição provisória. Destarte, o termo assur (aprisionado) indica uma pessoa que está detida enquanto aguarda o seu julgamento, ao passo que assir (prisioneiro) remete ao condenado que cumpre sua pena em regime fechado antes de ser perdoado e reintegrado à sociedade. Portanto, a ambiguidade de “presos” e “aprisionados” no nosso versículo indica que aquela prisão servia tanto para os presos permanentes quanto para os provisórios, e isso seria determinante para os desdobramentos desta história ao possibilitar o encontro de José com os ministros do Faraó que foram presos preventivamente enquanto aguardavam o julgamento dos seus casos.

e esteve ali na prisão. Uma vez que a primeira sentença do versículo já havia informado que “o pôs na prisão”, a menção de que José “esteve ali na prisão” parece desnecessária. Todavia, como o versículo não disse que José foi encarcerado pela instância encarregada disso, mas sim, colocado na prisão pelo Potifar “onde os presos do rei eram aprisionados”, entendemos que o antigo senhor de José acumulava o cargo de chefe da casa de detenção dos presos do rei. Deste modo, Potifar transferiu o escravo que servia em sua casa à prisão que estava sob o seu comando, com a intenção de que José desempenhasse ali uma nova função, como se passasse a estar lotado naquela prisão, e é a isso que o versículo alude ao dizer que ele “esteve ali na prisão”. Encontramos, pois, que na verdade Potifar acreditava na inocência de José, tanto que lhe deu um novo cargo no cárcere, e que foi apenas para manter a própria honra que ele enviou José à prisão.

Torá Interpretada - Editora Sêfer

 

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção VAIESHEV extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.

 

 

 

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