Parashá Semanal

Os sonhos do Faraó

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção MIKÊTS extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer

 

Gênesis, Capítulo 41

15 E o Faraó disse a José: Tive um sonho e não há quem o interprete; e eu escutei sobre ti, dizendo que ouves sonhos para interpretá-lo. 16 E José respondeu ao Faraó, dizendo: Longe de mim! Deus é que há de dar uma resposta de paz ao Faraó!17 – e o Faraó falou a José: No meu sonho, eu estava em pé ao lado do rio (Nilo).18 E eis que do rio subiam sete vacas, saudáveis de carne e formosas à vista, que pastavam no prado; 19 e outras sete vacas subiam atrás delas, magras e muito feias de forma e vazias de carne; nunca vi tão ruins como estas em toda a Terra do Egito! 20 E as vacas vazias e feias comiam as sete vacas primeiras, as gordas; 21 e entravam nas suas entranhas, e não se notava que houvessem entrado nas suas entranhas, e sua aparência era feia como no princípio. Então despertei. 22 E vi no meu sonho, e eis que sete espigas subiam numa haste, cheias e boas; 23 e eis que sete espigas secas, miúdas e batidas pelo vento do oriente, brotavam atrás delas; 24 e as espigas miúdas engoliam as sete espigas boas. E contei aos hierógrafos e não houve quem me explicasse. 25 Então José disse ao Faraó: O sonho do Faraó é um só. O que Deus fará, anunciou ao Faraó. 26 As sete vacas boas são sete anos, e as sete espigas boas são sete anos. O sonho é um só! 27 E as sete vacas vazias e más que subiam atrás delas são sete anos, e as sete espigas vazias e batidas pelo vento do oriente serão sete anos de fome. 28 É isto que falei ao Faraó: o que Deus fará, mostrou ao Faraó. 29 Eis que vêm sete anos; haverá grande fartura em toda a Terra do Egito. 30 E levantar-se-ão sete anos de fome atrás deles; e será esquecida toda a fartura na Terra do Egito, e a fome acabará com a terra. 31 E não será conhecida a fartura na terra ante aquela fome que virá depois, porque será muito pesada. 32 E ao se repetir o sonho ao Faraó duas vezes, quer dizer que a coisa é certa por parte de Deus e que Deus se apressa em fazê-la. 33 E agora, veja o Faraó um homem entendido e sábio, e ponha-o sobre a Terra do Egito.

 

  1. dizendo que ouves sonho para interpretá-lo. O Faraó deixou claro que ele tinha ciência de que o segredo de José para interpretar corretamente um sonho era a capacidade dele de ouvir. Em outras palavras, o Faraó disse a José: “Ouvi dizer que tu escutas um sonho de modo a decifrá-lo através de seus próprios termos.” E como esse tipo de interpretação depende da atenção e da sensibilidade do intérprete, é possível que dez pessoas escutem o mesmo sonho, cada uma a seu modo, mas que apenas uma consiga captar o cerne da sua mensagem.
  2. Longe de mim! José contestou: “Isso não depende de mim! Não estou nesse nível de escutar um sonho para interpretá-lo”.
  3. e o Faraó falou a José. É interessante notar que o Faraó relatou o seu sonho a José com algumas diferenças em relação ao relato oferecido anteriormente pela Escritura. Daqui em diante, leremos o relato do sonho conforme ele o apreendeu pelo seu ponto de vista e de acordo com o que ficou retido em sua memória. Por essa comparação, poderemos ter alguns indícios sobre os sinais trocados que podem ter confundido os hierógrafos. Todas as histórias, com exceção das histórias relatadas pela Torá, contêm um componente relacionado ao seu narrador, sendo possível perceber pelo próprio relato qual foi a impressão que a história deixou nele. No entanto, quando Deus revela algo por meio de um sonho, Ele não engana o receptor da mensagem e não o coloca diante de um enigma, prezando sempre pela objetividade da mensagem, inclusive quando o uso do expediente da parábola se faz necessário. Eventualmente, a dificuldade do Faraó em descobrir o significado do seu sonho estava relacionada a uma falha na transmissão desse sonho tanto aos hierógrafos como a si mesmo, conforme veremos a seguir.

eu estava em pé ao lado do rio. No próprio sonho, como fomos informados acima (versículo 1), o Faraó estava “ao lado do rio” absorto em seus pensamentos sobre as benesses que o Nilo oferecia anualmente à sua terra. Assim, a chave para o entendimento de todo o sonho residia no entendimento da importância e centralidade que o rio tinha em seu sonho. Entretanto, no relato que o próprio Faraó fez do seu sonho, o rio aparece de forma lateral, apenas ajudando a descrever a paisagem na qual ele se encontrava naquele momento.

  1. sete vacas, saudáveis de carne e formosas à vista. Há uma pequena diferença entre o que foi dito aqui pelo Faraó com o que foi relatado acima (versículo 2), de que elas eram “bonitas de serem olhadas e saudáveis de carne”. Aqui o Faraó descreve as vacas como objetos a serem apreciados, ao realçar que eram “formosas” (iefot tôar), ao passo que, na primeira versão, o sonho assinalava o efeito visual daquelas vacas no sujeito que as enxergava (iefot mar’ê). Foi tomando nota desta sutil diferença que José pôde entender que o sonho se tratava de algo diretamente ligado ao Faraó, enquanto os hierógrafos o remetiam a assuntos externos ao rei.
  2. magras e muito feias de forma e vazias de carne. No relato anterior (versículo 3), essas vacas foram descritas como “feias à vista e magras de carne”, no que era suficiente para expressar a pouca serventia de tais vacas para o ser humano. Contudo, no presente relato, o Faraó carregou nos adjetivos que caracterizavam a pobreza e a miséria daquelas vacas por si só, e não necessariamente em relação ao ser humano, que era o verdadeiro sujeito daquele sonho.
  3. E as vacas vazias e feias comiam. Em seu relato, o Faraó omitiu a informação dita anteriormente (versículo 3) de que inicialmente as vacas magras ficavam paradas “perto das (outras) vacas sobre a orla do rio”. Essa menção poderia ajudar os hierógrafos a entender que as vacas magras apenas comeram as vacas gordas por estarem com fome, uma vez que não lhes restara nenhum pasto no prado, conforme explicamos.
  4. brotavam atrás delas (acharehem). Cumpre notar que o termo acharehem está no masculino, de modo que sua tradução deveria ser “atrás deles” e não “atrás delas”, que seria a concordância nominal correta de shibolim (espigas), que é um substantivo feminino. Essa mudança veio informar que o Faraó enxergava um enorme contraste entre as sete “espigas boas” e as “sete espigas miúdas”, ao ponto de ele verter as primeiras para o gênero masculino, como se o segundo grupo de espigas não pertencesse à mesma espécie e ao mesmo gênero do primeiro. De modo geral, é perceptível que o Faraó se impressionou muito mais com as vacas magras e as espigas miúdas do que com as vacas gordas e as espigas boas, e isso também poderia ser um indicativo sobre o real significado do seu sonho.
  5. um homem entendido e sábio. Em geral, a “sabedoria” é mencionada antes do “entendimento”. Em seu turno, José foi claro no nosso versículo ao dizer que o Egito precisava de um homem “entendido e sábio”. Para entender esta diferença, vale a pena nos aprofundarmos um pouco sobre os conceitos da chochmá (sabedoria) e biná (entendimento).

O termo chachám (sábio) é próximo de agám (lago), e essa semelhança indica a capacidade de um sábio de reter a sabedoria tal qual um lago retém a água. Ou seja, o sábio é aquele que conhece os objetos como eles são e como deveriam ser. Dito de outra forma, o conhecimento do sábio sobre a natureza e o propósito das coisas se atém a fatos concretos, que o ser humano não precisa criá-los, mas sim, coletá-los e processá-los corretamente.

Por sua vez, biná (entendimento) está relacionado com o termo bên (entre) e visa entender o que há “entre” uma coisa e outra; trata-se da capacidade de aprofundar o entendimento sobre um objeto e acessar a essência da sua natureza, uma capacidade que certamente não foi dada a todas as pessoas. Contudo, o discernimento, a capacidade de chegar a conclusões lógicas por meio de dois ou mais fundamentos postos e inferir algo de outro algo – tudo isso faz parte do funcionamento básico do intelecto humano.

Tendo chegado até aqui, vale constatar que o idioma hebraico conjuga as funções intelectuais relacionadas à chochmá (sabedoria) de forma ativa, ao passo que as funções de biná (entendimento) são conjugadas de forma passiva. Embora fosse esperado que a coleta da sabedoria e do conhecimento fosse caracterizada por sua passividade, o idioma nos ensina que a busca do conhecimento não pode ser negligenciada pelo estudante, cabendo a ele empreender grandes esforços intelectuais para garantir a correção dos dados que esteja levantando. Por outro lado, o idioma também nos ensina que o estudante que se ocupa do “entendimento” não deve se apressar em tirar conclusões de forma ativa, competindo a ele pesar cuidadosamente as diferentes possibilidades de encaminhamento de uma questão até que uma das opções se imponha naturalmente diante das demais. Assim, o estudante deve ficar atento aos componentes de passividade e paciência, os quais devem sempre permear suas pesquisas para que as suas mais brilhantes conclusões não sejam construídas sobre falsas premissas e fundamentos equivocados.

De toda forma, retornando ao nosso caso, José considerava que as condições e os dados já eram plenamente conhecidos, restando que o encarregado do Faraó se ativesse a desenvolver o melhor meio para prevenir o estado de calamidade que acometeria o Egito. Portanto, mais do que um sábio capaz de levantar os dados da realidade, o Egito precisava de um entendedor que tivesse a criatividade de pensar em soluções inovadoras para o cenário de crise que se avizinhava. Depois de traçar o seu plano, este homem precisaria que a sua sabedoria viesse à tona, deixando de lado o seu lado inventivo e brilhante que poderia dispersá-lo no momento em que precisasse concentrar todo o seu foco na implementação desse projeto.

e ponha-o sobre a Terra do Egito. O termo empregado por José sobre a nomeação de um interventor previa que lhe fosse dado um poder maior do que o usualmente concedido a encarregados e burocratas cuja independência e raio de atuação possuem limites estreitos; este homem precisava ter carta-branca para atuar de forma livre e independente para implementar as suas ideias. Afinal, o Egito estava diante de tempos difíceis, e caso a terra fosse relegada a si mesma, o potencial dos anos de bonança não seria aproveitado. Por esse motivo, era necessário que o Faraó nomeasse um interventor sobre a terra, uma espécie de “ditador da agricultura” que fosse capaz de limitar o consumo dos alimentos e a circulação dos recursos naqueles primeiros sete anos.

Torá Interpretada - Editora Sêfer

 

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção MIKÊTS extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.

 

 

 

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