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Mística Judaica

A morte de Deus

Sinceramente, a palavra “Deus” não significa nada para mim, apenas interfere na minha verdadeira fé. Não acredito em “Deus”. É uma palavra de origem latina não encontrada na Bíblia original, em hebraico. Essa palavra tem sido tão usada, abusada e mal-entendida que chega a atrapalhar nossa busca pela verdade fundamental.

Pensando nisto, começo a entender o que Nietszche quis dizer quando declarou que Deus está morto. O conceito de “Deus” – o significado que atribuímos à palavra “Deus” – é um conceito morto. Não é real. O vingador parecido com Zeus que flutua no céu não representa nem um pouco da realidade.

Percebi o quanto esse conceito é infantil e contraprodutivo quando, um dia, entrou em meu seminário um sujeito vestindo uma camiseta com uma tirinha do Calvin e Haroldo. Haroldo, o tigre de brinquedo, pergunta a Calvin, o menininho: “Calvin, você acredita em Deus?” A resposta de Calvin é: “Bem, alguém está aí para me pegar.”

Infelizmente, muita gente alimenta a imagem de que Deus é um valentão celeste e todo-poderoso, que existe para “nos pegar”. Não é de espantar que essas pessoas não queiram acreditar em Deus, que não façam a menor ideia de como ter uma conexão com esse Deus. Certa vez uma mulher me disse: “Só quero que Ele me deixe em paz. Eu não O incomodo; Ele não deveria me incomodar.” Mas, no fundo, essas pessoas sofrem de um intenso medo de Deus e de Seus castigos. É a teofobia. Muitas vezes, as pessoas que sofrem de teofobia se dizem ateias e tentam escapar de seus tormentos mentais negando a existência daquele Deus a quem elas, na verdade, continuam a temer todos os dias.

Entendo o medo dessas pessoas. Lembro-me da primeira vez em que senti esse tipo de medo. Estava assistindo ao filme Os Dez Mandamentos, estrelado por Charlton Heston no papel de Moisés. Só percebi a influência negativa daquela experiência algum tempo depois. Uma coisa é certa: a voz de Deus ficou marcada em minha mente por muito tempo. Imagine só os testes para o papel. Atores de voz doce e gentil não precisam nem se inscrever! Só alguém de voz estrondosa, alta e opressiva poderia ser a voz de Deus.

Esses são os tipos de recordação que passeiam pelas mentes de muitas pessoas. A soma de todas essas memórias resulta numa péssima imagem de Deus. Por isso, acredito que, antes de qualquer crescimento espiritual, devemos nos livrar de Deus.

Como Abrahão, devemos destruir nossas próprias estátuas e nos desvencilhar da idolatria conceitual que bloqueia os olhos da alma. Chegou a hora de ver Aquele que procuramos.

Texto extraído da obra Enxergando Deus, do Rabino David Aaron

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