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Parashá Semanal - Leitura da Torá

Espionagem na Terra Prometida

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção Shelach-Lechá extraída da obra torá interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch recém-publicada pela Editora Sêfer

 

Números, Capítulo 13

1 E o Eterno falou a Moisés, dizendo: 2 “Envia para ti homens, para que espiem a Terra de Canaã, que Eu hei de dar aos filhos de Israel; e enviarás um homem por cada tribo de seus pais, sendo cada qual príncipe entre eles.”

 

1-2. Envia para ti. Compare com “Faze para ti duas trombetas” (acima 10:2), “toma para ti especiarias principais” (Êxodo 30:23) e outros lugares semelhantes, nos quais a adição das palavras “para ti” não diminuem em nada o significado imperativo do comando. Aqui também, “envia para ti” parece constituir um comando pleno, e é por isso que no próximo versículo é dito que as pessoas foram enviadas “segundo o mandado do Eterno”.

Numa época posterior, Moisés revisou esses eventos e falou sobre eles a partir de sua memória (DT 1:19 em diante). A partir dessa revisão, sabemos que eles já haviam passado pelo deserto de Parán, descrito lá como o “grande e temível deserto”, e já haviam chegado a Cadesh Barnêa, que fica na fronteira da terra que seria conquistada. O monte do Emoreu está diante deles, e eles já foram ordenados a subir sobre ele e assim iniciar a conquista da terra (ibid. 1:7-8). Naquele momento, o povo pediu a Moisés que enviasse um grupo de pessoas “que nos espiem a terra”, supostamente para elevar a terra dos abismos escuros da ocultação e da ignorância e trazê-la ao reino da luz elucidativa do conhecimento e da consciência. A missão explícita era encontrar a melhor maneira de entrar na terra e conhecer as cidades que conquistariam primeiro.

Não havia nada de errado com essa solicitação em si. O próprio Moisés diz: “E esta coisa agradou aos meus olhos”, pois assim que o povo entrasse na Terra Prometida, terminaria a conduta milagrosa do domínio de Deus e, a partir de então, ele teria que participar ativamente na determinação de seu destino. Além disso, mesmo durante a jornada no deserto, Moisés procurou se basear no conhecimento de seu sogro sobre a natureza das estradas e dos lugares, apesar de essa jornada ter ocorrido sob a liderança direta de Deus.

Segundo o sábio Sforno (Itália, ~1475-1550), a ordem “envia para ti”, em nosso versículo, é diferente do pedido feito pelo povo em apenas um detalhe: eles disseram “Enviemos homens adiante de nós”, isto é, solicitaram permissão para enviar pessoas de sua escolha e, no entanto, Deus ordenou que o próprio Moisés enviasse as pessoas e escolhesse de cada tribo as mais qualificadas para esta missão.

No entanto, é provável que também o conteúdo da missão tenha sido alterado em alguns detalhes. O objetivo da missão, conforme formulado pelo povo, era “que nos espiem a terra etc.”. O principal significado de “espiar (chafor) a terra” é, aparentemente, espionar os pontos fracos da terra, a fim de conquistá-la mais tarde. Assim é em Josué (2:2-3), bem como em Jó (39:29), referente à águia que procura sua presa: “De lá ela divisa (chafar) sua presa.” Esse também é o significado de chafar como substantivo: indica a vergonha (ver Isaías 24:23) que uma pessoa sente quando são reveladas todas as suas falhas aos olhos de todos. O conceito subjacente a todos esses significados é chafirá no sentido de escavar o solo para trazer à tona aquilo que deve permanecer encoberto.

Em contraste, o comando de Deus foi “para que espiem (iatúru) a terra”. Tur (com tav) é próximo de tur (com tet – “fileira”), tafar (“costurar”), davar (“coisa”). Tur (com tet) é uma fileira de coisas diferentes dispostas lado a lado. Tafar é juntar pedaços de tecido ou coisas similares, ou anexá-los numa fileira, por assim dizer. Davar são diferentes símbolos dispostos lado a lado que, unidos, compõem um mesmo conceito ou uma palavra expressa verbalmente. Tur (com tav) pode indicar uma investigação completamente objetiva, quando o pesquisador observa as características especiais de uma coisa e as combina como expressões de um mesmo conceito. Este é o significado de tur no Eclesiastes (1:13; 2:3 e 7:25). Porém, tur também pode indicar uma investigação para um objetivo subjetivo, e nesse caso indica principalmente a busca por pontos positivos que correspondem a um propósito intencional, como em “para lhes descobrir (latur) lugar de descanso” (acima 10:33) e “para aprontar (latur) para vós um lugar para acampardes” (DT 1:33), e assim é especialmente em relação à escolha da Terra Prometida, escolhida porque é a melhor e mais adequada para a vocação de Israel, como em “uma terra que escolhi (tarti) para eles, que emana leite e mel, e é a glória de todas as terras” (Ezequiel 20:6).

Consequentemente, o comando de Deus para que “espiem (iatúru) a terra etc.” alterou e ampliou sua missão. Eles não foram apenas incumbidos de procurar a melhor maneira de conquistar a terra, uma vez que esse objetivo agora se tornou secundário. Mas sua missão era reconhecer a própria terra como a base para o desenvolvimento da nação, e lhes foi sinalizado que sua missão era analisar a terra de um ponto de vista duplo: “a terra de Canaã, que Eu hei de dar aos filhos de Israel”. Atualmente, ela é “a terra de Canaã”, uma terra cujos habitantes corromperam seu caminho, e Deus é “aquele que a dá” agora “aos filhos de Israel”, para que desenvolvam nela uma vida nacional de acordo com a Sua vontade.

sendo cada qual príncipe entre eles. Os símbolos melódicos bíblicos indicam que a palavra “príncipe” é o objeto das palavras “cada qual”, ou seja, cada um deles deve ser um “príncipe” dentro de sua tribo. Esses não eram os “príncipes das tribos de seus pais” chamados (acima 1:4 e 16) de “cabeças da tribo de seus pais” e “cabeças dos milhares de Israel”, pessoas que chefiavam cada tribo e, portanto, eram chamadas de “cabeças da casa de seus pais” (acima 7:2). Mas cada um deles era “príncipe entre eles”; eles estavam “entre eles”, não na liderança das tribos, mas entre o povo, e eram pessoas que, embora não ocupassem uma posição de liderança, se destacavam do resto por suas virtudes e talentos. Eles não eram “cabeças das tribos” ou “cabeças dos milhares de Israel”; eles não ocupavam cargos elevados. Eles eram, como diz o versículo seguinte, “cabeças dos filhos de Israel”, ou seja, eram líderes de influência entre o povo.

Torá Interpretada - Editora Sêfer

 

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção Shelach-Lechá extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.

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