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Parashá Semanal - Leitura da Torá

A igualdade absoluta de todos os seres humanos

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção Kedoshim extraída da obra torá interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch recém-publicada pela Editora Sêfer

 

Levítico, Capítulo 19

18 Não te vingarás e nem guardarás rancor contra os filhos de teu povo, e amarás o bem-estar de teu próximo como se fosse o teu próprio – Eu sou o Eterno!

 

 

  1. Não te vingarás (ticom) e nem guardarás rancor (titor). Da raiz nater deriva a palavra matará (alvo). Verifica-se que o significado de nater é dirigir a mente para um determinado ponto por um longo período de tempo a fim de golpeá-lo com hostilidade. Isso está de acordo com o significado de nater aqui: guardar rancor, manter ressentimento no coração.

O versículo anterior ensina que se uma pessoa sente que a outra a magoou, é seu dever repreendê-la verbalmente. Agora, o nosso versículo exige da pessoa magoada algo muito difícil: mesmo que sua repreensão não tenha surtido efeito algum, ela não deve se vingar, e ainda, ela deve apagar do seu coração a memória da injustiça que lhe foi feita, mesmo que o outro não tenha feito nada para apaziguá-la.

A fim de fortalecer esse mandamento, a Escritura lembra à pessoa ofendida quem de fato é o ofensor:  ele é um dos filhos de seu povo, e portanto, “Não te vingarás e nem guardarás rancor contra os filhos de teu povo”. Já foi dito acima que não há lugar para o ódio entre irmãos, pois todos somos filhos de Deus. Da mesma forma, é dito aqui que o fato de o ofensor ser dos “filhos de teu povo” deve remover do seu coração todo e qualquer sentimento de vingança. Afinal, o “teu povo” é o povo de Deus, e Ele Se referiu a este público nacional quando disse “E vos tomarei por Meu povo” (Êxodo 6:7), e naquele momento fez de Israel o “Seu” povo. Desde então, Seu governo se revela nesse público por meio das relações entre seus membros. Eles são aqueles que devem aumentar a glória de Deus e estabelecer Seu trono na terra. Deus detém o controle sobre nossa terra, nossas propriedades e nossas reivindicações financeiras. É por isso que Ele nos ordenou em relação ao ano sabático, ao jubileu, ao perdão das dívidas e à proibição de cobrar juro. Ao cumprir esses mandamentos, nós nos submetemos a Ele, ajudando uns aos outros. Deus também deseja ter controle sobre os nossos sentimentos, e portanto, Ele nos proibiu a vingança e o rancor. Verifica-se que somos obrigados a nos submeter da maneira mais difícil, pois devemos submeter os nossos sentimentos à vontade de Deus e remover dos nossos corações todo sentimento de vingança e rancor.

De acordo com o TB Iomá 23a, mesmo que você retribua o bem em troca do mal e ajude aqueles que o ofenderam, mas os lembrar da injustiça que fizeram a você, estará transgredindo “não guardarás rancor”. “O que é chamado de vingança e o que é chamado de guardar rancor?” – “‘Não emprestarei a você, assim como você me emprestou’ – isto é vingança”; “‘Não serei como você, que não me emprestou’ – isto é guardar rancor.”

Se uma pessoa lhe prejudicou financeiramente, você deve remover o assunto do seu coração, mesmo que ela não tenha feito nada para apaziguá-lo. No entanto, existem ofensas contra a dignidade que não podem ser ignoradas, e mesmo assim é preciso estar disposto a reconciliar: “O outro tenta reconciliar com ele e ele aceita a reconciliação” (TB Iomá 23a). Os nossos sábios dizem (ibid.): “Todo aquele que abre mão de seu direito de reagir, abrem mão de todos os seus pecados” e “Aqueles que são ofendidos e não ofendem de volta, ouvem xingamentos e não respondem, agem com amor e se alegram no sofrimento, sobre eles a Escritura diz (Juízes 5:31): ‘Porém, os que amam o Eterno serão como quando o sol se levanta e a sua força vai aumentando!’”.

e amarás o bem-estar de teu próximo como se fosse o teu próprio – Eu sou o Eterno. Esta é a regra que deve orientar todo o nosso comportamento social, em pensamento, fala e ação. O mais nobre dos nossos sentimentos em relação a Deus e a outros seres humanos é o “amor” (ahavá). Ahavá é hav (dar, trazer) com o acréscimo da letra álef individualizante, e significa tanto “dar-se aos outros” como “atrair os outros para perto de si”. Os dois juntos constituem o “amor”, que é o contrário de “ódio”.

No entanto, não é dito aqui “e amarás o teu próximo (et reachá)”, como é a linguagem da Escritura em todos os outros lugares (exceto no versículo 34, que corresponde ao nosso versículo). Isso implicaria na obrigação de amar a personalidade dos outros tanto quanto amamos a nós mesmos – e essa é uma exigência que jamais poderá ser cumprida, pois o dever de amar aqui discutido é imposto a nós em relação a todos os nossos semelhantes. Porém, o amor associado à personalidade de outra pessoa depende de condições que se apresentam apenas muito raramente, e se baseia na compatibilidade mútua e na proximidade entre as almas – características encontradas apenas em algumas poucas pessoas. David encontrou em Jônatas um companheiro de alma, e sobre o amor entre eles foi dito: “a alma de Jônatas se ligou à alma de David, e Jônatas o amou como à sua própria alma” (1 Samuel 18:1).

O que é dito aqui é “amarás lereachá como a ti mesmo”. O termo lereachá (literalmente, “aquilo que está para o teu próximo”) refere-se não à personalidade do outro, mas a tudo que diz respeito à sua personalidade e todas as condições que determinam sua posição na vida, para melhor ou para pior. É para essas condições que devemos direcionar o nosso amor. Devemos buscar o seu bem, assim como buscamos o nosso próprio bem. Devemos nos alegrar com a sua alegria como se fosse a nossa alegria e lamentar a sua tristeza como se fosse a nossa tristeza. Ajudaremos com grande ânimo a promover o seu bem-estar, como se fosse o nosso próprio, e a afastar dele qualquer sofrimento, como se o sofrimento estivesse vindo sobre nós (compare com Gênesis 50:17).

Esta é uma demanda que podemos cumprir até mesmo em relação a uma pessoa por quem não temos qualquer sentimento de proximidade, pois essa exigência de amor nada tem a ver com a personalidade do outro e não se baseia em nenhuma de suas qualidades, mas fundamenta-se na declaração “Eu sou o Eterno”. Em nome de Deus, essa obrigação nos foi imposta em relação a todos os nossos semelhantes, pois Deus é Aquele que deu a todos os seres humanos o dever de serem próximos uns aos outros. Cada pessoa deve encontrar em seu próximo um mirê: seu amigo deve promover o seu bem-estar, e o bem-estar do seu amigo deve ser como o seu próprio (compare com o comentário acima, versículo 16). Ninguém deve temer o sucesso do seu amigo ou esperar lucrar com o seu fracasso; ninguém deve se alegrar com o seu próprio sucesso enquanto o seu amigo estiver fracassando ao seu lado.

“E amarás o bem-estar de teu próximo como se fosse o teu próprio.” O homem que é espiritual e moralmente íntegro não distingue entre o bem-estar do seu amigo e o seu próprio, pois o que o leva a buscar o bem-estar de si mesmo é a mesma coisa que o leva a buscar também o bem-estar do seu amigo. O amor-próprio também nada mais é do que um reconhecimento do dever. A pessoa vê a si mesma apenas como uma obra de Deus. Deus confiou a ela a Sua imagem, e ela deve trazê-la à perfeição física, espiritual e moral que Deus lhe determinou conforme a Sua vontade. Em prol dessa perfeição, Deus a trouxe à sua existência terrena e a guiou por meio da Sua Torá, e é por meio desse mesmo reconhecimento do dever que a pessoa dirige seu amor ao bem-estar de seu semelhante. Ela o ama como uma obra de Deus, que, como ele, foi criada à imagem de Deus. Por meio do seu amor pelas criaturas de Deus, ela expressa o seu amor por Deus: “Ama o Criador e as Suas criaturas” (Ética dos Pais 6:1).

Os nossos sábios trazem este versículo, não apenas como um princípio de amor geral pelos outros (TB Nedarim 65b), mas aprendem dele a obrigação de tratar as pessoas com humanidade, mesmo uma pessoa perversa condenada à morte (TB San’hedrin 52a, entre outros): “E amarás o bem-estar de teu próximo como se fosse o teu próprio – conceda-lhe uma morte digna.” Eles também aprendem deste versículo uma regra referente a casais: eles devem evitar impressões sensuais que possam prejudicar sua afeição mútua (TB Kidushin 41a, entre outros).

É conhecida a declaração do sábio Hilel: “O que é odiado para ti não faças ao teu próximo”. Esta foi sua resposta ao idólatra que lhe pediu para lhe ensinar toda a Torá sobre um pé só. E o sábio acrescentou à sua resposta a observação: “Esta é toda a Torá; o resto são explicações – vá estudar!” (TB Shabat 31a). A declaração de Hilel apenas expressa de forma negativa o que é dito na Torá (“e amarás…”) como um mandamento positivo.

“O que é odiado para ti não faças ao teu próximo” declara a igualdade absoluta de todos como o princípio que orienta todas as nossas ações. Essa declaração nos convida a buscar a paz de nossos semelhantes como se fosse a nossa própria; que transformemos o egoísmo e o amor-próprio em amor e respeito pelos nossos semelhantes, e que aprendamos a amar e respeitar todo próximo como alguém totalmente equivalente a nós.

O termo “teu próximo”, no sentido mais amplo, inclui não apenas todos os nossos amigos seres humanos, mas também todos os nossos amigos presentes na criação – as outras criaturas –, e neste sentido amplo, a declaração de Hilel é verdadeiramente a essência de toda a Torá. Pois esta é toda a intenção da Torá: ela nos protege de tudo que é “odiado”, que se opõe com inimizade à nossa paz e à paz de todas as outras criaturas com as quais compartilhamos este mundo. Ao mesmo tempo, ela também define para nós o que é “odiado” e inimigo à nossa paz e à paz do mundo. Não devemos confiar no nosso julgamento subjetivo, nos nossos sentimentos obscuros e na nossa inteligência limitada para determinar o que é um inimigo, mas sim, receber da Torá o parâmetro revelado pela sabedoria e compreensão de Deus. Isso é o que Hilel chamou de “explicações”; é a explicação do que “é odiado para ti e para teu próximo” que deve ser aprendida com a Torá, como o Rashi explica (ibid.): “‘o resto’ – o restante das palavras da Torá, ‘são explicações’ – pois é difícil saber o que é odiado; ‘vá estudar’ – e você saberá.”

Porém, quem quer que interprete a declaração de Hilel como se estivesse dizendo “Não faça aos outros o que você não quer que façam a você”, estará transformando as palavras de Hilel num provérbio de sabedoria de vida: “Se você não quer que os outros lhe façam mal, não faça mal a eles, pois a violência promove violência e a injustiça gera injustiça, e portanto, quem não quer ser injustiçado não deve cometer injustiça.” Aquele que diz tais palavras, não está apenas transmitindo mensagens desprovidas do conteúdo da Torá, mas também não está dizendo nada que tenha valor moral. Todas as suas palavras não passam de uma questão puramente utilitária, e considerações de bem-estar próprio se tornam para ele um princípio que orienta todo o seu comportamento humano.

A estrutura dos versículos neste capítulo mostra claramente que a declaração de Hilel – “Esta é toda a Torá; o resto são explicações – vá estudar” – não é uma mera retórica, mas expressa a verdade sobre a essência da Torá do Eterno. Reflitamos a respeito disso:

Sem começar uma nova porção, como se o mesmo assunto continuasse numa única sequência narrativa, a Escritura passa diretamente de “E amarás o bem-estar de teu próximo como se fosse o teu próprio” para “O teu animal não farás juntar com outra espécie, e teu campo não semearás com diferentes sementes; e roupa misturada de linho e lã não a porás sobre ti” (versículos 18-19), assim como ela passou diretamente de “não porás obstáculo diante do cego” para “Não fareis injustiça no juízo” (versículos 14-15), e de “Não andarás com mexericos entre o teu povo” para “Não odiarás a teu irmão em teu coração” (versículos 16-17). Além disso, o grupo de mandamentos contidos no versículo 19 e a subsequente lei da escrava desposada concluem a porção que fala da santidade social. Isso indica uma conexão entre esses tipos de mandamentos, que parecem tão distantes, mas que na verdade se complementam e reforçam uns aos outros. Essa conexão é facilmente perceptível por dois aspectos:

Aprendemos os ensinamentos de honestidade e sinceridade, verdade e lealdade, estrita observância do dever, cautela e justiça. Aprendemos a preservar e proteger a paz dos nossos semelhantes, em palavras e ações. Aprendemos a superar todos os sentimentos de ódio e vingança. E aprendemos sobre o atributo Divino presente no homem – a disposição para esquecer completamente qualquer injustiça que possa ter sido feita a ele. No final, a obrigação total de santificar os laços sociais se resume ao mandamento de amar o bem-estar do próximo. Todas essas exigências de santidade social foram confirmadas pelo selo Divino de “Eu sou o Eterno”. Essa declaração deixa claro que todos esses ensinamentos não têm nada a ver com considerações egoístas ou utilitarismo, e foram ordenados unicamente como resultado do verdadeiro reconhecimento do Eterno: há o Eterno – portanto, honre tudo que existe e vive, porque o mundo e a sua plenitude pertencem ao Eterno e são consagrados para Ele! Há o Eterno – portanto, nós também podemos e devemos ser santos, isto é, ser pessoas a quem foi concedida a liberdade moral, e ser pessoas que se assemelham ao seu Criador com verdade, justiça e amor.

Estas duas consciências são as duas ideias fundamentais da santidade do propósito humano: a Divindade de todos os seres e o propósito superior do ser humano – ambas originadas do Eterno. Essas duas ideias nos levam para fora do estreito âmbito do ser humano, e devemos nos apegar à ordem Divina, mesmo no mundo exterior ao homem, pois o selo Divino de “Eu sou o Eterno” está impresso e selado em todos os lugares deste mundo, e devemos também reconhecer o nosso próprio status superior neste amplo mundo. Essas são as verdades apresentadas pelo grupo de mandamentos que vem em seguida.

Torá Interpretada - Editora Sêfer

 

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Porção Kedoshim extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.

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