História Judaica

A fé após o Holocausto

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“Rabino,como o senhor entende o sentido do Holocausto?”

Esta é uma questão da qual tenho medo, mas que não posso evitar. Não são apenas as plateias que ouvem as minhas conferências que perguntam isto; eu duvido que se passou um dia em que eu também não me perguntei o mesmo.

Perdi boa parte da minha família durante aquela época terrível, quando Deus parecia estar ausente. Meus pais felizmente fugiram para a segurança da América, junto com meu irmão, minha irmã e eu. Mas 6 milhões não tiveram a mesma sorte. Eles eram velhos e jovens, homens e mulheres, crianças de colo. Eu conheço pessoalmente o sentido de sentir-se “culpado por sobreviver”. Por que eu – e não eles? Por que eu estava entre os afortunados sobreviventes, e por que eles pereceram? Não posso acreditar que sou mais merecedor do que eles. Eu li as suas histórias; sei que entre as vítimas havia piedosos, devotos, religiosos e sábios. Lamentei quando li sobre os seus destinos. E gostaria de saber:​Por que Deus também não lamentou?E se Ele o fez, como Ele pôde ter deixado de interromper a carnificina e de vingar o sangue dos Seus filhos?

Algumas pessoas acreditam que o Holocausto não é um desafio religioso maior do que quaisquer das situações pessoais de sofrimento sofridas por qualquer pessoa. Eliezer Berkovits,por exemplo, argumenta, de uma perspectiva teológica, que o genocídio de 6 milhões de pessoas não difere da situação de uma criança que sofre sem necessidade ou de uma pessoa que passa pela angústia de uma perda pessoal. O problema teológico, ele diz, é o mesmo – a injustiça; a quantidade não faria diferença alguma. A questão é: como um Deus bom e justo permite que ocorra na Terra algo injusto? O dilema de Jó e o dilema do Holocausto é o mesmo.

No entanto, muitos outros discordam. E eu sou um deles. O Holocausto, como um crime, permanece como algo sui generis – em uma categoria só para si mesmo. Sua crueldade, sua extensão, seus números e seu objetivo de aniquilação total do povo judeu – nada disso tem paralelos. O silêncio de Deus enquanto Hitler e seus comparsas davam seguimento à “Solução Final” é único como conduta Divina além da compreensão.

A extensão do mal perpetrado, o seu impacto sobre as vítimas, bem como sobre o mundo como um todo, não podem ser subestimados.

Anne Frank comoveu os corações do mundo; mas ela era somente uma. Multiplique isso por 6 milhões, e sua mente terá vertigens. Nós provavelmente somos incapazes de compreender. Some ao número de 6 milhões aqueles aos quais chamamos de “sobreviventes”, mas que jamais sobreviverão aos seus pesadelos diários e às suas lembranças constantes do inferno. Mais do que terem sobrevivido, eles seguiram vivendo para sempre assustados pelo mal que vai muito além da imaginação humana.

Por isso eu sustento que tratar o genocídio em paralelo com a dor de um simples indivíduo é minimizar e desvalorizar o Holocausto. Não há termo de comparação entre ambos; fazer isso é simplesmente ofensivo.

Eu sofro sempre que vejo a terminologia do Holocausto reduzida à linguagem do cotidiano. Lemos frequentemente a respeito de povos oprimidos sofrendo diversos graus de dificuldade, e a palavra “Holocausto” é utilizada como se o termo implicasse em nada mais do que privação econômica ou sofrimento físico. A coisa chegou a tal ponto que temos ambientalistas descrevendo o desaparecimento das florestas tropicais como um Holocausto Ecológico e grupos de “Salve as Baleias” advertindo para a possível extinção desses animais aquáticos como um Holocausto Oceânico.

Sem dúvida, outros grupos de pessoas têm sofrido terrivelmente e eu de modo algum pretendo minimizar a sua dor. Os croatas foram vítimas de campanhas de limpeza étnica pelos sérvios. Os armênios sofreram um massacre genocida perpetrado pelos turcos. Pol Pot foi amplamente bem-sucedido em exterminar a intelligentsia do Camboja. Mas nenhum desses eventos pode se aproximar do mal perpetrado durante o Holocausto.

Atualmente, nós lemos inclusive sobre o Holocausto Palestino, uma ideia popularizada por grupos palestinos para tentar acusar o Estado de Israel de tratá-los do mesmo modo como os nazistas trataram os judeus. Ainda que levemos em conta os piores crimes cometidos por judeus contra palestinos – tais como o massacre de 29 muçulmanos por Baruch Goldstein na Gruta dos Patriarcas –, não há nada que chegue nem perto dos crimes da Alemanha nazista, que tinha um regime governamental nacional (e mais tarde internacional) para exterminar um povo inteiro da face da Terra. Esse regime incluía a tortura, a fome e, finalmente, o massacre de crianças e adultos.

Eu não quero me estender sobre o tema, mas penso que a visão que prevalece entre os historiadores no mundo inteiro é que, dentro do amplo espectro de experiências do mal ao longo de toda a história, o Holocausto permanece algo separado, à parte, distinto e único. Não há nada como isso em termos de outros genocídios ou massacres do passado, nem mesmo em comparação com sofrimentos judaicos tais como a Inquisição na Espanha ou os pogroms na Rússia. O Holocausto foi a contribuição singular do homem “civilizado” do século 20.

É com respeito ao Holocausto que a nossa questão se torna, entre todas, a mais urgente, a mais enigmática e a mais relevante: onde estava Deus?

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Em seguida, o autor desenvolve várias ideias e possíveis respostas a essa pergunta.
Ficou curioso?


Extraído do livro:
Se Deus é bom, por que o mundo é tão ruim?
Por Benjamin Blech

 

 

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