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Calendário Judaico

Purim e o povo de Amalêc

Escrito por Sêfer

No mês de Adar comemoramos o feriado judaico de Purim, cuja história é narrada no livro bíblico de Ester. O Rei do extenso império persa era Achashverosh, e um de seus mais importantes ministros era Haman, descendente direto do rei de Amalêc, o povo que atacou o povo de Israel no deserto, após o êxodo do Egito e lhes causou repetidos problemas nos séculos seguintes.

No Talmud está escrito que jamais houve um caluniador igual a Haman. [Pois Haman disse a Achashverosh]: “Existe um povo, espalhado e disperso entre os povos, em todas as províncias de seu reino, cujas leis são diferentes das de todos os povos, e que não cumpre as do rei; pelo que não convém ao rei tolerá-los” (Ester 3:8).

Ele disse a Achashverosh: “Aniquilemos os judeus!”

Achashverosh respondeu: “Eu tenho medo do Deus deles, pois Ele poderá fazer a mim aquilo que fez ao meu antecessor.”

Haman retrucou: “Eles descuidaram do cumprimento das mitsvót, portanto carecem de méritos para serem salvos pelo Deus deles.”

Achashverosh replicou: “Mas no meio deles há sábios e justos, tsadikím que não pecaram, [e eles são fontes de méritos]!”

Haman respondeu: “Eles todos são um só povo, e os justos são tão culpados quanto os malvados.” Haman prosseguiu: “Não tema que aniquilando os judeus eu despovoe alguma de suas províncias, pois os judeus estão espalhados e dispersos; a eliminação deles nem será notada. Se achar que eles vivem juntos numa pequena cidade e que seria uma pena despovoá-la, saiba que os judeus podem ser encontrados em todas as províncias do seu reino.”

“Suas leis são diferentes das de todos os povos” – Haman continuou: “Eles não comem do que cozinhamos; eles não tomam as nossas filhas para os seus filhos, nem dão as suas filhas para os nossos filhos.”

“Eles não cumprem as leis do rei” – Haman continuou: “Ao longo do ano, eles evitam trabalhar para o rei, pois ficam dizendo: Hoje é Shabat, hoje é Pêssach, e somos proibidos de trabalhar.”

“Não convém ao rei tolerá-los” – Haman continuou: “Mesmo quando comem e bebem, eles zombam do rei. Se uma mosca cair em um de seus copos, eles jogarão fora a mosca e terminarão de beber o vinho. Mas se o rei tocar em um copo pertencente a qualquer um deles, todo o vinho do copo será despejado no chão pois dele ninguém beberá” (Meguilá 13 a-b).

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Após convencer o Rei Achashverosh, Haman envio uma carta para todos os povos que estavam sob o reinado persa, fabricando ainda mais calúnias:

“Vejam só o que essas pessoas fizeram ao pobre Faraó! Quando elas desceram para o Egito, o Faraó as acolheu muito bem e as assentou na melhor parte de sua terra. Ele as alimentou durante os anos de fome, dando-lhes o melhor da produção que extraíam de seu solo. Almejando um palácio que fosse seu, ele ordenou a essa gente que o construísse. E apesar de tudo o que fez por essas pessoas, ele não conseguiu dominá-las. Elas usaram de algum subterfúgio para se aproximarem dele e lhe disseram (Êxodo 3:18): Agora iremos, por favor, à distância de três dias no deserto, e ofereceremos sacrifícios ao Eterno, nosso Deus, [e logo regressaremos – empreste-nos vasilhas de ouro e prata, e vestimentas]. Os egípcios lhes emprestaram objetos de ouro e prata e suas roupas mais finas. Os israelitas carregaram as suas mulas ao máximo, até esvaziarem a terra do Egito inteira – e então fugiram.

“Ao saber da fuga, o Faraó perseguiu-os, a fim de recuperar os seus bens. E o que eles fizeram? Havia um homem no meio deles chamado Moisés, filho de Anrão, um grande mago. Moisés tomou o seu cajado mágico e sussurrou um encantamento; em seguida, ele golpeou o mar até que as águas secaram. Toda aquela gente avançou e atravessou o leito completamente seco do mar. Eu não sei como eles passaram nem como o mar ficou seco.

“Vendo o que acontecia, o Faraó foi atrás deles para recuperar os seus pertences. Eu não sei como eles o empurraram para o mar, mas tanto ele quanto o seu exército acabaram afogados! Os israelitas não demonstraram nenhum sinal de gratidão por todo o bem que ele lhes proporcionara – é óbvio que esse é um povo de ingratos!

“… Agora, todos chegamos a um momento de definição. Recorremos a um sorteio para determinar o dia ideal para exterminá-los. A sorte apontou para o dia 13 do mês de Adar. Quando esta carta chegar às mãos de vocês, preparem-se para assassinar e aniquilar nessa data todos os judeus que residirem em seu meio – jovens e anciãos, crianças e mulheres – e não deixem que nenhum deles sobreviva.”

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Ao saberem do decreto, os judeus de todo o império persa ficaram apavorados. Mordechai, um dos líderes do povo, estava desesperado, precisava de uma orientação de Deus sobre como prosseguir. Foi aí que ele avistou três crianças judias saindo da escola onde estudavam Torá. Ele perguntou: “Que versículo vocês aprenderam hoje?”. Uma delas respondeu: “Não temerás algo que te aterrorize de súbito ou que te encubra a sombra da iniquidade” (Provérbios 3:25). A segunda respondeu: “Planejai uma conspiração e ela fracassará; pronunciais vossas afirmações e elas não prevalecerão, pois Deus está conosco!” (Isaías 8:10). A terceira respondeu: “Mesmo na velhice serei o mesmo, e até quando estiverdes encanecidos, Eu vos carregarei. Eu vos fiz e Eu vos suportarei, vos conduzirei e vos redimirei” (ibid. 46:4).

Os três versículos aludem justamente às três guerras que Amalêc travou contra Israel. Foi dessa forma que as Escrituras informaram aos israelitas que a conspiração de Haman contra eles seria frustrada, assim como os planos de Amalêc tinham fracassado nas gerações anteriores.

Na primeira guerra de Amalêc contra Israel, os amalequitas atacaram os judeus de surpresa, conforme o versículo declara: “Que te encontrou no caminho” (Deuteronômio 25:18). O primeiro dos três versículos recitados pelas crianças se refere a essa guerra, já que declara: “Não temerás algo que te aterrorize de súbito.”

Na segunda vez que os amalequitas atacaram os israelitas, eles apareceram disfarçados de cananeus a fim de confundir o povo, achando que se não fossem reconhecidos como povo de Amalêc eles não seriam afetados pelas preces dos judeus: “E o cananeu [ou seja, o amalequita que se fez passar por cananeu]… ouviu… e lutou com Israel” (Números 21:1). O segundo dos três versículos recitados pelas crianças se refere a essa guerra, já que declara: “Planejai uma conspiração e ela fracassará.”

A terceira vez que Amalêc lançou-se contra os judeus foi essa, quando [o seu descendente] Haman acreditou que triunfaria, achando que Deus, tendo envelhecido, não seria mais capaz de salvar a Sua casa e o Seu povo da destruição por Nabucodonosor. O terceiro dos três versículos recitados pelas crianças se refere a essa guerra, já que declara: “Mesmo na velhice serei o mesmo” (Gaón de Vilna).

Assim, Mordechai ficou alegre e decidiu que era hora de instruir o povo a fazer sua parte para garantir que teriam méritos para esta salvação.

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Excertos do capítulo de Purim da obra:

O Livro do Conhecimento Judaico: 
O Ano Hebreu e Seus Dias Significativos
de Eliahu Kitov

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