Calendário Judaico Introdução ao Judaísmo Leis Judaicas / Talmud

O cálculo do novilúnio

O Sol e a Lua, as duas grandes luminárias colocadas por Deus no céu no quarto dia da Criação, constituem a base para o cálculo de dias, meses e anos. O versículo (Gênesis 1:14) declara: “E sejam sinais para os prazos, os dias e os anos.”

O Sol é a base para o cálculo dos dias. O período compreendido entre um pôr do sol até o pôr do sol seguinte é o que se considera um dia; a quantidade de vezes em que o Sol se põe [ou que ele nasce] em um ano equivale ao número de dias de 24 horas. O Sol também é a base para o cálculo dos anos, pois o nosso planeta não  executa uma rotação em torno de si mesmo uma vez a cada 24 horas; ele se desloca ao redor do Sol numa translação completa a cada 365¼ dias aproximadamente.

A Lua é a base para o cálculo dos meses – o tempo transcorrido entre a aparição de uma lua nova e a sua posterior reaparição. Os meses não podem ser calculados com base no Sol, uma vez que ele não apresenta alterações nas suas aparições. Similarmente, a Lua não pode ser utilizada para computar os anos, pois a sua reaparição mensal é sempre a mesma e o intervalo compreendido entre a aparição de cada novilúnio não varia.

Os povos do mundo determinam os seus calendários segundo critérios de consenso geral.

O mundo cristão calcula o ano baseando-se no Sol e divide os 365¼ dias em 12 unidades arbitrárias denominadas meses. Esses meses não dependem da aparição da lua nova e consistem em 28, 29, 30 ou 31 dias. Assim, os meses do calendário cristão se baseiam em um consenso geral.

O calendário muçulmano é baseado exclusivamente na lua; cada período de 12 meses lunares forma um ano. O ano dos muçulmanos pode começar tanto na primavera quanto no verão, no outono ou no inverno, já que não são feitos ajustes para sincronizar os meses lunares com o ano solar.

Se o intervalo entre um novilúnio e o próximo fosse de exatos um 12 avos de um ano solar, os anos solar e lunar seriam exatamente iguais. Mas não é isso o que acontece. O ano solar é composto de 365 dias, 5 horas, 55 minutos e 25 segundos. O mês lunar [que é o intervalo entre um novilúnio e o próximo] é composto de 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 3⅓ segundos; multiplicando por 12 resulta em 354 dias, 8 horas, 48 minutos e 40 segundos – uma discrepância anual de 10 dias, 21 horas, 6 minutos e 45 segundos entre os anos solar e lunar.

Se o ano solar for usado como base para um calendário, o cálculo dos meses não coincidirá com a aparição da lua nova. Mas se a aparição da lua nova for usada como base, os 12 novilúnios não coincidirão com as translações da terra ao redor do Sol. Se só for usado um calendário lunar, as quatro estações – primavera, verão, outono e inverno, às quais as Escrituras se referem como “épocas de plantio e colheita, de frio e calor” – não cairão todos os anos nas mesmas épocas e nos mesmos meses..

A Torá ordenou ao povo de Israel que consagrasse os meses e comemorasse “o mês da primavera [Nissán] e celebrasse o Pêssach ao Eterno, teu Deus” (Deuteronômio 16:1). Assim, temos o dever de assegurar que, ao estabelecer os meses do ano de acordo com o novilúnio, o mês de Nissán sempre caia na primavera. Como é possível conciliar esses dois requisitos, se o ano solar e os 12 meses lunares são inconciliáveis? Se o nosso calendário se baseasse apenas na passagem de 12 meses lunares, a cada ano solar estaríamos atrasados cerca de 11 dias. Se o nosso ano se baseasse em 13 meses, a cada ano solar estaríamos adiantados cerca de 22 dias. Em ambos os casos, no espaço de poucos anos, o mês de Nissán não cairia mais na primavera.

Para corrigir essa discrepância foram instituídos os anos embolísmicos dentro do ciclo de nosso calendário, nos quais foi intercalado um mês. É uma halachá lemoshé missinai (“lei recebida por Moisés no Sinai” – uma lei que Moisés transmitiu mas que não está registrada na Torá). 

Assim, há dois tipos de anos dentro do ciclo do calendário judaico: os regulares, de 12 meses, e os embolísmicos, de 13. Após a passagem de um determinado número de anos regulares, quando a diferença entre o ano solar e o lunar alcança aproximadamente um mês, intercalamos um mês [outro Adar] antes de Nissán, de modo que o mês de Nissán sempre coincida com a primavera e não se distancie mais de 20 dias do ano solar. 

O ciclo de dezenove anos

O calendário judaico segue um ciclo de 19 anos solares e consiste em 12 anos regulares [de 12 meses lunares] e sete anos embolísmicos [de 13 meses lunares]. Os anos embolísmicos são fixados no 3º, 6º, 8º, 11º, 14º, 17º e 19º anos do ciclo. Esses sete anos embolísmicos a cada ciclo de 19 anos conciliam os anos lunares com os solares.

Dois dias de Rosh Chodesh

A Torá prescreve apenas um dia de Rosh Chódesh. No entanto, desde os tempos antigos dos primeiros profetas, costuma-se celebrar ocasionalmente dois dias de Rosh Chódesh. Sobre as palavras do versículo (1 Samuel 20:27): “No dia seguinte, o segundo dia da lua nova,” o Targum Ionatán depreende estar se tratando do segundo dia de Rosh Chódesh.

Quando o Rosh Chódesh tinha apenas um dia e quando tinha dois?

Quando o 29º dia de um mês terminava e a noite do 30º começava, esse dia era considerado Rosh Chódesh e era celebrado como tal, com alegria e festa. O tribunal de Jerusalém passava a noite inteira e todo o dia seguinte na expectativa da chegada de testemunhas que tivessem avistado o aparecimento da lua nova.

A lua nova não pode ser avistada de qualquer lugar e só fica visível durante um período muito breve. Assim, um indivíduo que via a aparição da lua nova se apressava a testemunhar perante o Sinédrio, pois havia a possibilidade de que só ele e mais alguém tivessem visto a lua nova e a consagração do novo mês dependeria, portanto, do seu testemunho.

Quando chegavam testemunhas no 30º dia declarando ter avistado a lua nova, o sacrifício adicional de Rosh Chódesh era oferecido naquele mesmo dia; o dia seguinte era um dia normal. Mas se no 30º dia a contar da lua nova anterior nenhuma testemunha aparecesse, o tribunal declarava o dia seguinte também Rosh Chódesh. Nesse caso, então, o Rosh Chódesh tinha dois dias: no 30º dia contado a partir da lua nova anterior, e no dia seguinte, que era o primeiro dia do novo mês.

Sempre se celebrou o Rosh Chódesh por dois dias em locais muito afastados de Jerusalém, pois os mensageiros do tribunal não tinham como chegar no mesmo dia para anunciar a consagração do novo mês.

Atualmente, a consagração de cada Rosh Chódesh se baseia exclusivamente em cálculos, e mesmo sabendo de antemão exatamente quando cairá o 1º dia do novo mês, nós mantemos as tradições de nossos antepassados. Fora de Jerusalém, todo Rosh Chódesh tinha dois dias. Em Jerusalém, algumas vezes eram celebrados dois dias, e outras vezes, apenas um; essa é a tradição que todos seguimos hoje em dia.

Também ficaram definidos, para todos os tempos, os meses que têm dois dias de Rosh Chódesh e os que têm apenas um. O cálculo fixo foi adotado por diversas razões; a de maior aplicação é a seguinte: Se um novilúnio ocorre no 30º dia do mês anterior, nós o celebramos como o primeiro dia de um Rosh Chódesh de dois dias – mesmo que esse dia não seja designado como o primeiro dia do mês seguinte –, uma vez que nos tempos do Sinédrio, se aparecessem testemunhas declarando terem visto a lua nova, esse dia teria sido consagrado como Rosh Chódesh.

Os dois dias de Rosh Chódesh diferem, portanto, dos dois dias das festas celebrados fora da Terra de Israel. Neste último caso, o 1º dia é a parte essencial da festa e o 2º só é observado devido a dúvidas. Mas no que diz respeito ao Rosh Chódesh, o 2º dia é o essencial, enquanto o 1º só é observado devido ao costume que prevalecia nos tempos antigos, quando os meses eram santificados com base nos testemunhos. Por essa razão, quando o Rosh Chódesh tem dois dias, o 1º dia é contado como o 30º do mês anterior e o 2º é contado como o 1º do novo mês. No que diz respeito a todos os aspectos da observância haláchica, os dois dias são iguais, conforme mencionado acima.

Meses completos e meses incompletos

Na maioria dos anos, os meses completos [de 30 dias] se alternam com meses incompletos [de 29 dias]. O Rosh Chódeshposterior a um mês completo tem dois dias, [o dia 30 do mês anterior e o dia 1º do novo mês], e o posterior a um mês incompleto tem apenas um dia.

Os meses completos têm como característica a ocorrência de uma festa. Tishrei é repleto de festas; Kislêv tem ChanucáSheváttem o Ano-Novo das árvores; Nissán tem PêssachSiván tem ShavuótAv tem Tishá Beav (um dia de jejum que está destinado a transformar-se em dia de festa); embora Purim caia em Adar, ele é um mês incompleto, uma vez que está situado entre os dois Anos-Novos de Shevát e Nissán, que são completos – e três meses consecutivos nunca podem ser completos, a não ser por uma razão impreterível. Além disso, o milagre de Purim ocorreu fora da Terra de Israel e, nessa questão, dá-se prioridade às festas que tenham acontecido na Terra de Israel.

Por que os meses completos e incompletos são alternados? Conforme mencionado, o intervalo entre um novilúnio e o seguinte é de 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 3⅓ segundos. Com base na aparição da lua nova, o Rosh Chódesh ocorreria 12 horas mais tarde no 30º dia, contando do início do mês anterior. Uma vez que o Rosh Chódesh deve consistir de um dia inteiro e não de parte de um dia, a única maneira de assegurar que o início do dia seja Rosh Chódesh é através da alternância entre 29 e 30 dias.

Por exemplo, tomemos o mês de Nissán, que tem sempre 30 dias. O novilúnio do mês de Iyar ocorrerá no 30º dia de Nissán após as 12 horas. Ao fazer com que Iyar seja incompleto – isto é, tenha 29 dias – o novilúnio do mês de Siván ocorrerá no início do dia 1º do mês. [29 dias e 12 horas do novilúnio de Nissán até o de Iyar, mais 29 dias e 12 horas do novilúnio de Iyar até o de Siván totalizam 59 dias, que equivalem a 30 dias do mês de Nissán e 29 do mês de Iyar. Assim, o novilúnio de Siván ocorrerá no dia 1º do mês.] Ao fazer com que Siván seja completo, o novilúnio de Tamuz ocorrerá às 12 horas do 30º dia do mês. Como Tamuz é incompleto, o novilúnio de Av ocorrerá no início do 1º dia do mês.

Se todos os meses fossem incompletos, o novilúnio de Iyar ocorreria às 12 horas do 1º dia do mês e, o de Siván, no 2º dia do mês. E se todos os meses fossem completos, o novilúnio de Iyar ocorreria no dia 30 de Nissán e o de Siván no dia 29 de Iyar. Alternando entre meses completos e incompletos, fazemos a compensação das 12 horas suplementares.

No entanto, conforme mencionado, o intervalo entre um novilúnio e o outro não é precisamente 29 dias e 12 horas. Para compensar os 44 minutos e 3⅓ segundos, às vezes os meses de Cheshván e Kislêv são ambos completos. Há razões adicionais para justificar as mudanças nesses dois meses.

Em um ano embolísmico, quando um mês de Adar é intercalado ao calendário, o primeiro Adar é sempre completo e o segundo é sempre incompleto, e o Rosh Chódesh Adar 2 terá sempre dois dias e o Rosh Chódesh Nissán sempre um só dia.

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Texto extraído da obra

Livro do Conhecimento Judaico: 
O Ano Hebreu e Seus Dias Significativos [Sêfer Hatodaá], 
do Rabino Eliahu Kitov.

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