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Calendário Judaico

Uma terra sem povo para um povo sem terra

Por que uma Terra?

No cerne do judaísmo há um mistério ou, mais precisamente, uma proposição que as sucessivas gerações tiveram dificuldade para compreender. Por que Israel? Por que a Bíblia Hebraica se concentra, de maneira tão resoluta e consistente, nesse lugar que Spinoza chamou de uma mera “faixa territorial”? O Deus de Abrahão é o Deus do mundo inteiro, um Deus ilimitado pelo espaço. Por que então Ele escolhe um local específico, que ainda por cima é tão pequeno e aparentemente pouco atrativo?

A pergunta “Por que Israel?” está relacionada a outra, feita com mais frequência: “Por que os judeus?” A resposta se encontra na dualidade que define a religião judaica e constitui uma de suas contribuições mais importantes para a civilização. O judaísmo, como expliquei nos capítulos 4 e 6, personifica e exemplifica a tensão necessária entre o universal e o único, a generalidade de todo lugar e a particularidade de um só lugar.

Se só existissem universais, o mundo seria formado por impérios, cada um alegando ter posse exclusiva da verdade e tentando conquistar ou converter todos os demais para comprovar essa verdade. Em 1532, à frente das tropas espanholas, Pizarro massacrou os incas e apoderou-se de suas terras e vastas reservas de ouro. Ele disse a Ataualpa, chefe dos incas:

Viemos conquistar esta terra (…) para que todos possam ter conhecimento de Deus e de Sua Sagrada Fé Católica; e, em razão de nossa boa missão, Deus, o criador do céu e da terra e de todas as coisas que há neles, o permite, de modo que vocês venham a conhecê-Lo e abandonem a vida bestial e diabólica que levam (…) Quando virem o erro em que vivem, vocês compreenderão o bem que lhes fizemos vindo a sua terra (…) Nosso Senhor permitiu que seu orgulho seja rebaixado e nenhum índio possa ofender um cristão.

Se só existe uma verdade, e alguém a detém, os outros não a possuem. Eles vivem no erro, e o objetivo de salvá-los desse erro pode ser apresentado como justificativa religiosa para conquistá-los, convertê-los e até matá-los. Essa foi a origem de muitos crimes e atos imperialistas do passado e do presente, e é por isso que o judaísmo é um protesto contra os impérios.

Se, por outro lado, só existem particularidades – uma multiplicidade de culturas e etnias sem nenhum princípio moral universal que as ligue –, então o estado natural da humanidade é a proliferação incessante de tribos em guerra. Esta é a nossa situação hoje, num mundo moralmente relativista, com conflitos étnicos, violência e terrorismo deixando cicatrizes em muitas partes do globo.

A aliança abraâmica, conforme entendida pelo judaísmo, é um meio justo de evitar esses dois cenários. Os judeus habitavam num lugar específico, não em todo lugar. Porém, o Deus que adoravam era o Deus de todo lugar, não de um só lugar. Assim, foi ordenado aos judeus que não fossem império nem tribo, não nutrissem aspirações universais nem beligerância tribal. Sua terra seria pequena, porém importante, pois ali, e somente ali, deveriam viver o seu destino.

Esse destino era criar uma sociedade que honrasse a proposição de que somos todos criados à imagem e semelhança de Deus. Um lugar em que a liberdade de uns não levasse à escravização de outros. Que fosse o oposto do Egito, de cujo pão da aflição e ervas amargas da escravidão eles comeriam todo ano, na festa de Pêssach, para se lembrarem do que tinham de evitar.

Essa seria a única nação do mundo cujo soberano é o próprio Deus e cuja constituição – a Torá – é a Sua palavra. Philo, na Alexandria do século 1, esforçando-se para explicar essa ideia a um público greco-romano, precisou inventar uma palavra: teocracia, literalmente, “governo de Deus”. Contudo, desde que teocracia passou a significar governo de clérigos, a melhor palavra é nomocracia, “governo das leis de origem Divina”.

O judaísmo é o código de uma sociedade que se autogoverna. Tendemos a nos esquecer disso, pois os judeus viveram dispersos por dois mil anos, destituídos de poder soberano para autogovernar-se, e porque o Israel moderno é um Estado secular. O judaísmo é uma religião de redenção, não de salvação. Concentra-se nos espaços compartilhados da vida coletiva, não no drama interior da alma, ainda que, como mostram os livros de Salmos e de Jó, entenda disso também.

O Deus judaico é o Deus do amor: amarás ao Eterno, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força; amarás ao próximo como a ti mesmo; e amarás ao estrangeiro. Porém, por ser também o código de uma sociedade, o judaísmo caracteriza-se igualmente pelas virtudes sociais: retidão (tsédek/tsedacá), justiça (mishpat), bondade (chéssed) e compaixão (rachamim). Elas configuram a estrutura da lei bíblica, que abrange todos os aspectos da vida social: economia, redes assistenciais, sistemas educacionais, convívio familiar, relações entre patrão e empregado, proteção ambiental e assim por diante.

Os princípios amplos que regem essa estrutura complexa, tradicionalmente enumerados como 613 mandamentos, são claros. Ninguém deve ser abandonado à extrema pobreza. Todos devem ter acesso à justiça e aos tribunais. Toda família deve possuir sua porção da terra. Um dia na semana, todos serão livres. A cada sete anos, as dívidas serão canceladas. A cada cinquenta anos, as terras vendidas reverterão ao proprietário original. O mundo antigo nunca vira nada mais parecido com uma sociedade igualitária.

Nada disso seria possível sem uma terra. Os sábios dizem: “Quem vive fora de Israel é como se não tivesse Deus.” Nachmânides, no século 13, afirmou que “o propósito principal de todos os mandamentos é serem cumpridos pelos que habitam na terra do Eterno.”4 São conceitos místicos, mas podemos traduzi-los para a linguagem secular. O judaísmo é a constituição de uma nação que se autogoverna, a arquitetura de uma sociedade dedicada ao serviço Divino com liberdade e dignidade. Sem terra e Estado, o judaísmo é uma sombra de si mesmo. No exílio, Deus pode ainda viver no coração dos judeus, mas não na praça pública, na justiça dos tribunais, na ética da economia e no humanitarismo da vida cotidiana.

Os judeus já viveram em quase todos os países do mundo. Em quatro mil anos, só em Israel eles foram um povo livre e soberano. Só em Israel eles podem, se assim quiserem, desenvolver a agricultura, um sistema de saúde e infraestrutura econômica segundo o espírito da Torá e sua preocupação com a liberdade, a justiça e a santidade da vida. Apenas em Israel os judeus podem hoje usar o hebraico da Bíblia como língua do dia a dia. Só ali podem vivenciar o tempo seguindo um calendário estruturado de acordo com os ritmos do ano judaico. Somente em Israel os judeus podem viver o judaísmo em versão não editada. Em Israel, e só lá, eles podem andar onde os profetas andaram, subir os montes que Abrahão subiu, erguer os olhos para as colinas vistas por David e continuar a história iniciada por seus ancestrais.

Por isso, não pelo antissemitismo, meu bisavô viajou para lá a fim de participar da grande reconstrução. Por esse motivo também, George Eliot via o retorno dos judeus a Tsion como o renascimento desse povo antigo que tanto ensinara à humanidade.

Por que essa Terra?

Por que lá? A Bíblia não diz. Pode-se apenas especular. Mas há uma resposta implícita na narrativa bíblica: Israel é um lugar a partir do qual é impossível erigir um império. A geografia não é adequada. Os montes da Judeia numa direção e o deserto do Sinai em outra impedem o acesso fácil às terras circunvizinhas. A planície costeira é estreita e, nos tempos antigos, estava muito sujeita a ataques do mar.

A civilização não nasceu ali, mas nas planícies aluviais do vale do Tigre e do Eufrates e nas terras ricas e bem irrigadas do baixo Nilo. Na Mesopotâmia foram edificadas as primeiras cidades-Estados, e no Egito estava sediado o maior e mais duradouro dos impérios antigos. Assim, Israel seria quase sempre um país pequeno, na intersecção de impérios poderosos, de localização ao mesmo tempo estratégica e vulnerável em importantes rotas de comércio.

A movimentação populacional usual é dos países pobres para os ricos, das civilizações rudimentares para as mais avançadas. As duas grandes viagens judaicas, a de Abrahão, saindo de Ur dos caldeus, e a de Moisés e dos israelitas, saindo do Egito, seguiram a direção oposta. Isso se explica, como eu disse anteriormente, pelo fato de que a Bíblia é uma crítica aos impérios. A crítica está presente em seu breve relato da Torre de Babel, cujos construtores, insolentemente, julgaram-se capazes de alcançar o céu sem ajuda, e aparece de forma mais explícita na descrição do Egito faraônico, onde os hebreus inicialmente foram bem recebidos e depois escravizados.

Israel é uma terra de pequenas cidades e minifúndios, que tem por ideal a utopia modesta antevista pelo profeta Miqueias:

Todo homem se sentará sob a sua videira
e sob a sua figueira,
e ninguém os amedrontará,
pois assim falou o Eterno Todo-Poderoso.

Miqueias 4:4

Os israelitas jamais aspiraram ser um Egito, um colosso, uma superpotência. Ao contrário, num dos trechos mais gloriosos da Bíblia, Isaías imagina o dia em que Deus amará os inimigos de Israel como ama Seu próprio povo:

Então haverá uma larga estrada do Egito à Assíria. Os assírios irão ao Egito, e os egípcios, à Assíria, e juntos adorarão ao Eterno. Nesse dia, Israel será o terceiro na aliança com Egito e Assíria, uma bênção para a terra. O Eterno Todo-Poderoso os abençoará, dizendo: “Abençoado seja o Egito, Meu povo, a Assíria, obra de Minhas mãos, e Israel, Minha herança.”

Isaías 19:23-25

Por isso é tão irônico que Israel seja chamado de potência imperialista. De todas as nações que governaram aquela terra nos últimos quatro mil anos, Israel é a única que nunca foi nem tentou ser um império. Foram muitos os impérios que dominaram esse pedaço de terra: Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, ptolemaicos, selêucidas e romanos, bizantinos, omíadas, abássidas, fatímidas, cruzados, mamelucos e otomanos. Seu único governo não imperial foi e continua sendo o de Israel.

Isso explica uma frase muito mal compreendida. Às vezes se diz que os primeiros sionistas argumentavam que Israel era “uma terra sem povo para um povo sem terra”, ignorando assim a população não judaica ali residente. Não foi essa a afirmação original, feita por um cristão, Lorde Ashley Cooper, Conde de Shaftesbury, em 1843. Ele disse: “Há um país sem nação; e agora Deus, em Sua sabedoria e misericórdia, nos dirige a uma nação sem país, Seu próprio povo outrora amado, não, ainda amado, os filhos de Abrahão, de Isaac e de Jacob.”6 O significado não é que Israel estivesse despovoado, e sim que os judeus eram a única nação que fazia jus à terra do ponto de vista nacional, não individual. Em todas as outras épocas, ela fora, na melhor das hipóteses, um distrito administrativo dentro de um império cuja sede estava em outro lugar.

 


Extraído da obra

TEMPO FUTURO – Judeus, Judaísmo e Israel no século XXI
do Rabino Lord Jonathan Sacks

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