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Parashá Semanal - Leitura da Torá

O Ômer da movimentação

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Oferta do Ômer extraída da obra torá interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch recém-publicada pela Editora Sêfer

 

Levítico, Capítulo 23

15 E contareis para vós desde o dia seguinte ao primeiro dia festivo, desde o dia em que tiverdes trazido o ômer da movimentação – sete semanas completas serão. 16 Até o dia seguinte da sétima semana contareis 50 dias; e então  oferecereis oblação nova (de trigo) ao Eterno.

  1. E contareis para vós. Diferentemente da contagem dos anos do jubileu em que é dito (25:8) “E contarás para ti sete períodos de anos” – ou seja, no singular (“para ti”), dado que a contagem deve ser feita pelo tribunal –, aqui foi dito “E contareis para vós”, no plural, o que indica que “deve haver uma contagem para cada indivíduo” (TB Menachót 65b), e portanto, este mandamento incide sobre todas as pessoas, e não apenas sobre o tribunal.

desde o dia seguinte ao primeiro dia festivo. No dia do início da contagem, vocês já passaram a comemoração de sua liberdade no primeiro dia de Pêssach, bem como já recordaram diante de Deus do valor da independência e do direito de possuir uma terra que lhes oferece o seu pão. Assim, mesmo que vocês já tenham chegado à liberdade e ao estado de bem-estar social, tendo atingido o que costumam ser os maiores objetivos e anseios de uma nação, vocês devem enxergar a si mesmos como se estivessem apenas no início de suas trajetórias. Nesse momento vocês devem iniciar uma nova contagem rumo a outro objetivo. No momento em que outros cessariam de contar, vocês devem iniciar a vossa nova contagem.

sete semanas (shabatot) completas serão. Literalmente, o versículo diz que deveriam ser contados “sete sábados”. No entanto, devido ao complemento “completos”, entende-se que não se trata de “dias de sábado”, mas de um período que abrange alguns dias. Conforme demonstrado pelos nossos sábios (TB Nedarim 60a), o sentido mais amplo do termo Shabat pode incluir o sábado e os seis dias de sua semana, tanto se forem os dias anteriores quanto os posteriores. Conclui-se, assim, que o dia do Shabat é entendido como o início, o ápice ou o centro dos dias que o acompanham ou que se somam a ele. É nesse sentido que foi dita aqui a expressão “sábados completos”: para englobar toda os 6 dias que o acompanham.

De fato, o significado do Shabat se estende sobre os dias da semana que o antecedem e que o sucedem. Os dias que levam ao Shabat encontram nele o seu propósito, e os trabalhos realizados nestes dias profanos nos pedem para vivermos uma vida adequada que os justifiquem e sejam aprovados aos olhos de Deus. Do mesmo modo, os dias subsequentes materializam o espírito que se renovou no Shabat, que testemunham que o ser humano reafirmou o seu pacto com Deus e se santificou novamente para o serviço Divino. Considera-se, em geral, que o domingo, a segunda e a terça-feira acompanham o Shabat anterior, enquanto a quarta, a quinta e a sexta-feira servem de prenúncio ao próximo Shabat.

Ao que parece, o sentido de “sete sábados completos” deve ser entendido à luz da influência do Shabat sobre os dias da semana – ou seja, que devem se passar sete ciclos completos, com todo o efeito educativo do Shabat sobre os demais dias de trabalho. Portanto, a contagem de “semanas completas” não precisa ser iniciada necessariamente no domingo, mas sim, que cada um dos dias da semana deve passar sete vezes pela influência do Shabat, esteja ele antes ou depois daqueles dias.

Isso nos ajuda a entender o motivo de versículo aqui não enunciar “Sete semanas contarás para ti” – como no DT 16:9 –, mas sim, “sete sábados”. Aqui foi dito inicialmente “E contareis para vós”, para ordenar que houvesse uma contagem, e apenas depois foi acrescentado, numa sentença independente, que aquela contagem seria de “sete semanas completas”, e a razão é que uma “semana” não é igual a um Shabat, pois enquanto “semana” indica qualquer conjunto de sete dias, Shabat indica um período de sete dias alicerçado no dia do Shabat que se encontra nele. A palavra “semana” que constasse como o predicado de uma frase cujo sujeito fosse “E contareis para vós” indicaria apenas um período de sete dias criado pela própria contagem. Já o conceito de Shabat que consta no nosso versículo – mencionado numa sentença independente da própria ordenação da contagem – aponta um período objetivo de sete dias já posto em razão do dia do Shabat. Desta forma, antes de criar um período, essa contagem vem para que as pessoas interiorizem e se deem conta da passagem deste período que já existe, apesar de sua contagem.

Em resumo, fomos ordenados a “contar” desde o dia da nossa liberdade e do conforto da soberania nacional. Isso nos leva ao entendimento de que tais realizações não consumam o propósito final do povo, pois se tratam apenas dos primeiros passos rumo aos verdadeiros anseios nacionais. Depois disso veio a orientação sobre como devemos alcançar o objetivo dessa contagem: por sete vezes o Shabat deve empregar sua força educadora sobre a vida do trabalho e da ação, e por sete vezes receberemos sobre nós o jugo da realeza Divina e aprenderemos que o mundo, que domina e é dominado pelos seres humanos, está completamente sob o domínio do seu Criador. Deste modo, a liberdade e a base da nossa independência e soberania, e notadamente a nossa possessão sobre a terra, terá passado assim por sete ciclos de refinamento por meio da ideia do Shabat. Apenas então estaremos aptos para atingir a verdadeira conquista visada por meio desta contagem que se inicia da liberdade e da soberania sobre a terra e vai em direção ao último propósito dessa mesma liberdade adquirida com a conquista da nossa terra.

Essa conquista, conforme aprendemos dos nossos sábios, não é nada além do que a interiorização da Torá Divina. Entende-se assim por que a Torá precisa ser precedida pelo Shabat, pois é o Shabat que educa a pessoa a se subjugar a Deus e a receber com alegria o jugo de Seu serviço. Eis que o Shabat é anterior ao povo de Israel, que antes conheceu o Shabat e aprendeu a se submeter a Deus por meio da cessação do trabalho, e apenas depois recebeu a Torá. O Shabat teve um papel fundamental para redimir o povo de uma preocupação excessiva quanto às necessidades do sustento e o preparou para merecer a liberdade de quem é o povo de Deus.

  1. Até o dia seguinte da sétima semana contareis 50 dias. A contagem é dupla: conta-se sete semanas, conforme foi dito (DT 16:9): “Sete semanas contarás para ti”, e conta-se até o 50º dia, que é o dia seguinte ao término da contagem de sete semanas, conforme foi dito pelos nossos sábios (TB Chaguigá 17b): “Há um mandamento de se contar os dias e há um mandamento de se contar as semanas.” O 50º dia é o objetivo da contagem, e ele mesmo não é contado. É possível que a menção aos 50 dias de contagem seja um sinônimo de “até o dia seguinte da sétima semana”, de modo que o versículo poderia ser lido assim: “Até o dia seguinte da sétima semana, que é o 50º dia, contarão.”

É possível, ainda, que a menção à contagem de 50 dias no nosso versículo não se refira a uma contagem a ser realizada oralmente em paralelo à outra contagem referida no versículo anterior com as palavras “E contareis para vós”. Nesse caso, além das semanas, os dias também deveriam ser contabilizados dado que o versículo os contabiliza ao lado das semanas contadas. Disso se conclui que a contagem não se reporta apenas aos sete dias de Shabat que influenciam os dias de sua semana, havendo também um significado relativo ao efeito cumulativo gerado pelos 49 dias que se passaram até chegar ao 50º dia.

Conforme aprendemos sobre a contagem de sete dias de quem sai de um estado de impureza, os dias contados concluem um ciclo que antecede à entrada no âmbito da pureza no oitavo dia. À luz disso podemos explicar a contagem relatada aqui: contamos 49 dias, sete ciclos de sete dias, para chegar ao 50º num novo estado, abandonando qualquer resquício de dependência impura dos nossos sentidos para adentrar ao campo da pureza e da liberdade moral. Por esse aspecto, há uma similaridade entre a contagem de 50 anos até a chegada do jubileu e a contagem de 50 dias desde o ômer: enquanto o 50º ano refundava o Estado Judeu sobre os alicerces da liberdade social interna, o 50º dia acrescentava o elemento de liberdade moral interior à liberdade hegemônica nacional e externa.

Apenas depois de alcançar liberdade moral é que podemos receber a Torá Divina e combinar  liberdade com soberania. Enquanto liberdade nacional pode ser recebida de modo passivo como um presente Divino, liberdade moral é fruto de um árduo trabalho no qual nos esforçamos sete vezes mais.

De acordo com o que foi dito acima, o 50º dia também se aproxima em seu significado à ideia do oitavo dia da circuncisão. Se resumirmos agora a ideia das duas contagens – das 7 semanas e dos 50 dias –, ficará claro que cada uma delas se origina de dois mandamentos: o do Shabat e o da circuncisão, respectivamente, que são a base do povo da Torá. Enquanto o Shabat nos ordena submissão a Deus nas esferas da natureza e da história por meio do recebimento do jugo Divino, a circuncisão nos orienta a seguir em busca da pureza moral por meio da submissão do corpo à Torá da moral Divina. Como ambos os fundamentos foram implantados em Israel muito antes da outorga da Torá, a cada ano somos ordenados a nos lembrar – por meio da contagem dos dias e semanas que separam a oferta do ômer do dia da outorga da Torá – dos dois fundamentos que constituem as premissas do maior propósito da nossa existência.

e então oferecereis oblação nova (de trigo) ao Eterno. Trata-se da oferta dos “dois pães” que será mencionada no próximo versículo, chamada aqui de “oblação nova” pelo fato de ser a primeira oferta permitida com os grãos da nova safra. Embora o sacrifício do ômer já permitisse que a nova safra fosse ingerida de modo profano, a nova safra permanecia proibida no Templo, inclusive para as primícias e ofertas de vinho e azeite, até a oferta dos “dois pães”, conforme disseram os nossos sábios (TB Menachót 68b e 84b): “O ômer permitia a safra no país, e os dois pães a permitiam no Templo”.

Torá Interpretada - Editora Sêfer

 

Brevíssima coletânea de comentários sobre a Oferta do Ômer extraída da obra Torá Interpretada à luz dos comentários do Rabino Samson Raphael Hirsch, recém-publicada pela Editora Sêfer.

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