Calendário Judaico

Visão geral da Hagadá

A Hagadá é o instrumento pelo qual cumprimos a mitsvá de narrar a história do Êxodo do Egito e que serve como esquema para a realização do Sêder. Ao analizar a sua estrutura, é impossível deixar de admirar a beleza de sua forma e conteúdo. A Hagadá oferece tanto instruções simples quanto lições profundas, e permite que mergulhemos aos poucos na história da nossa redenção através de uma combinação magistral de explicações básicas, observações complexas e interpretações místicas.

PRIMEIRA PARTE: A Hagadá começa com o kidush que, diferentemente do usual, não é seguido pela refeição. As mãos são lavadas – mas não para a refeição – e um vegetal é mergulhado na água salgada ou no vinagre, e é comido muito antes da refeição ter início. Uma das matsót é partida e metade dela é guardada – mas ainda não se começa a refeição. As matsót são erguidas echamadas de “pão da pobreza” – mas ainda não se começa a refeição; elas voltam a ser cobertas. A mesa está posta; a bandeja do sêder está pronta; um segundo copo de vinho é servido – mas ainda não se começa a refeição. Todos esses procedimentos atiçam a curiosidade das crianças.

SEGUNDA PARTE: Nessa altura, o filho pergunta ao pai: “Má nishtaná? – Por que essa noite é diferente de todas as demais noites?”. Não importa se o filho sabe formular as perguntas ou não. O texto das perguntas foi preparado para ele.

TERCEIRA PARTE: A resposta do pai sugere que o filho é sábio. Que pai não assumiria que o seu filho é sábio? Com essa resposta, o pai cumpre aquilo que a Torá (Deuteronômio 6:20) preceitua: “Quando teu filho te perguntar amanhãtu dirás a ele: Fomos escravos do Faraó no Egito.

Mas a mitsvá da Hagadá não incide apenas sobre o filho que quer se informar. Ao contrário, a própria Hagadá diz: “Mesmo que todos sejamos sábios, cultos, anciãos e conhecedores profundos da Torá, é nosso dever narrar o Êxodo do Egito.” Aprendemos isso do episódio ocorrido em Benê Brac, onde cinco sábios que conheciam todos os aspectos da Torá se reuniram para contar a história do Êxodo do Egito – e a noite não foi suficiente para eles terminarem. Por mais que cada um deles tivesse passado 60 ou 70 anos contanto essa história, eles ainda descobriram novas ideias e interpretações. Não fossem os seus discípulos, eles não teriam percebido que já era dia! Além disso, de acordo com a opinião dos sábios, a mitsvá de contar a história do Êxodo vigorará até mesmo depois da vinda do Mashíach [Messias], pois tudo que houver na derradeira redenção terá existido graças à primeira redenção. Por conseguinte, quem se estende na narração é digno de louvor.

QUARTA PARTE: E mesmo se nem todos os nossos filhos forem sábios, mesmo se houver entre eles algum simplório, malvado ou que nem acompanhe a narrativa para saber o que perguntar, não podemos deixar de agradecer a Deus por eles, com uma bênção quádrupla: Baruch Hamacóm (Bendito seja Deus) – pois ninguém, nem mesmo o filho malvado, foi expulso de Seu mundo. Baruch Hu (Bendito seja Ele) – agradecemos a Deus até pelo filho que é semelhante ao malvado, aquele que está tão afastado que nem sabe o que perguntar. Baruch shenatán Torá leamó Yisrael (Bendito seja Deus, que deu a Torá para Israel, Seu povo) – certamente deve-se abençoar a Deus pelo filho sábio que se ocupa da Torá. Baruch Hu (Bendito seja Ele) – agradecemos a Deus também pelo filho simplório, pois embora não seja sábio, ele segue com pureza o caminho das mitsvót.

Agradecemos a Deus por todos os filhos, pois, ao mencioná-los especificamente, a Torá indicou a todos que saíam do Egito que a descendência deles estava assegurada, pois teriam filhos quando entrassem na Terra de Israel.

Na Torá consta primeiro o filho malvado. Por mais malvado que seja, ele não deixa de ser nosso filho. Quando a Torá se refere à obrigação de educar os nossos filhos – a mitsvá da Hagadá – todos os filhos estão incluídos. Quando sentamos juntos no sêder e contamos a história do Êxodo, em nosso lar reina paz e harmonia. O poder dessa narrativa é tão grande que todos os filhos – o malvado e o sábio, o simplório e o que nem sabe o que perguntar – se transformam e acompanham juntos o pai, nos cânticos de louvor a Deus.

Assim, mencionamos os quatro filhos dos quais a Torá fala e repetimos brevemente as respostas que ela lhes oferece. Para o filho sábio, a quem a Torá se refere no versículo (Deuteronômio 6:20): “Quando teu filho te perguntar amanhãtu dirás a ele: Fomos escravos do Faraó no Egito,” respondemos que todas as leis da Torá foram ordenadas por Deus, inclusive a proibição de comer qualquer coisa após a ingestão do aficomán. Ao responder para o filho malvado, primeiramente demonstramos raiva mas logo adotamos uma postura mais calma e relatamos a história do Êxodo em profundidade. Para o filho simplório respondemos de forma simples, para que ele consiga compreender. Para o que nem sabe o que perguntar, primeiramente demonstramos a raiva que temos do filho malvado para evitar que siga o mesmo caminho. O que é dito a ele é aplicável também ao filho malvado, mas o objetivo de nossas palavras é aproximá-lo.

QUINTA PARTE: A seguir, a Hagadá cita o versículo que representa o filho que é incapaz de perguntar (ibid. 13:8): “E contarás a teu filho naquele dia, dizendo: Por isto o Eterno me fez sair do Egito”. Nós explicamos pormenorizadamente como se depreende desse versículo que a mitsvá de contar a história do Êxodo só pode ser cumprida nessa noite, diante de matsá e marór. Esse é o momento de narrar a história de nossa libertação. Quem quer que esteja presente à mesa estará atento e ansioso para escutar. Esse é o momento de contar ao filho, pois ele escutará e compreenderá.

SEXTA PARTE: Chega a hora de lidar com o filho mais difícil, aquele que a Torá menciona primeiro. Dizemos a ele, ao filho malvado, que o seu distanciamento de Deus e a sua zombaria não são originais; afinal, até os nossos próprios antepassados já foram idólatras! Mas assim como todos nos aproximamos de Deus, também esse filho está destinado a aproximar-se Dele. O filho malvado pergunta: “Para que vocês fazem essas coisas?” (Êxodo 12:26). Retrucamos a ele que a sua pergunta será respondida, mas que antes ele deverá escutar todos os detalhes do serviço do Sêder:

Os nossos antepassados que buscaram Deus e se aproximaram Dele foram os indivíduos mais refinados de suas gerações e das gerações que os antecederam. Mas até eles tiveram de se refinar continuamente, de modo que apenas o mais puro permanecesse. De todos os filhos de Abrahão, só Isaac seguiu a sua tradição. Os filhos de Isaac passaram por um novo processo de refino e Esaú foi descartado; Jacob permaneceu – e você, meu filho, é seu descendente!

Até os filhos de Jacob, que estavam livres de qualquer impureza, precisaram de um período preparatório difícil e prolongado de refinamento, para ficarem aptos a realizar o serviço cujo objetivo você questiona.

Jacob e seus filhos desceram ao Egito (Gênesis 46:8) sem ter a menor ideia de quando voltariam. Eles sabiam que havia uma dívida a ser saldada e que uma recompensa magnífica os aguardava. Quando os israelitas foram salvos, eles declararam em uníssono: “Bendito seja Deus, que cumpre Sua promessa a Israel.” Mas mesmo antes de serem salvos eles declararam: “Bendito seja Ele.” Eles reconheceram que Deus é o cumpridor fiel de cada promessa feita. Assim como Ele cumpriu a promessa que fez a Abrahão (ibid. 15:13), de que “Tua descendência será peregrina…e será escravizada… e será afligida,” assim também Ele cumpriu a Sua outra promessa (ibid. vers. 14): ”E também à nação que há de servir, Eu julgarei; e depois sairá com grande riqueza.”

Foi graças à fé pura depositada nessa promessa que os nossos pais conseguiram suportar gerações inteiras de trabalho duro e subjugação – dos dias de Labão até a época do Faraó, e até o final do último de nossos opressores.

Como foi impressionante o processo de refinamento pelo qual os nossos antepassados passaram! Eles nunca se desesperaram; pelo contrário, sempre se destacaram por sobreviverem aos inúmeros testes e tribulações. O filho mau também estava lá; ele também passou pelo processo de refinamento. Você não estava entre aqueles que caíram no esquecimento e não mereceram a redenção. Não! Você foi um dos que emergiram refinados e puros!

Deus nos mostrou como a Sua promessa de ”E também à nação que há de servir, Eu julgarei; e depois sairá com grande riqueza” foi concretizada. Você testemunhou como Deus nos tirou do Egito, como Ele atacou os egípcios com 250 pragas no Mar Vermelho. Você estava no meio dos que foram salvos, reconheceu a grandeza de Deus, presenciou a cadeia progressiva de “favores que Deus fez para nós” (Hagadá), culminando com a construção do Templo Sagrado, onde se consegue expiação pelos pecados, onde também você pode encontrar expiação!

Você pergunta: “Para que vocês fazem essas coisas?”. Você acha que deixaremos a sua pergunda sem resposta? O Raban Gamliêl ensinou que se a pessoa não mencionar no sêder três coisas – o sacrifício de Pêssach, matsá e marór – ela não terá cumprido a obrigação. São esses os elementos que você questiona; agora poderemos explicá-los.

Oferecemos a oferenda pascal para recordar que Deus pulou as casas de nossos pais no Egito, como está dito (Êxodo 12:27): “Direis [ao filho malvado]: É o sacrifício de Pêssach para o Eterno, que saltou sobre as casas dos filhos de Israel no Egito, quando atacou os egípcios, mas livrou as nossas casas.” Seria concebível Deus ter nos feito descer ao Egito com a intenção de destruir-nos ali, só para mudar de ideia, por assim dizer, e salvar-nos? Seria a essa bondade que damos graças a Ele?

Não! É preciso entender que muitos lares judaicos não se diferenciavam dos lares egípcios, assim como você tem tentado não se diferenciar dos não judeus. Foi justamente essa a bondade de Deus: Ele pulou também por cima das casas desses judeus, razão pela qual “O povo se curvou e prostrou-se” (ibid.). Saiba que Ele pulou por cima – o que é comemorado através do sacrifício de Pêssach – por você e por outros como você. Venha sentar-se então junto de nós e acompanhe-nos na celebração de Pêssach.

Você questiona a finalidade da matsá. Nós a usamos para comemorar o fato de que a massa dos nossos antepassados não teve tempo de levedar quando Deus surgiu para redimi-los. O versículo (ibid. 39) nos conta: “E com a massa que tiraram do Egito cozeram bolachas de matsá pois ela não fermentara, porque foram expulsos do Egito e não puderam esperar.” Por que eles não puderam esperar? Deus, que já havia realizado tantos milagres em prol deles, não poderia ter-lhes concedido um pouco mais de tempo até que a massa crescesse?

Acontece que, se eles tivessem esperado por mais um momento sequer, então você e aqueles que falam e se comportam como você, teriam se tornado tão assimilados, teriam afundado tão profundamente na lama do Egito, que não haveria como diferenciá-los dos egípcios. Foi por sua causa, meu filho, que fomos expulsos do Egito, que saímos com tanta pressa – para que você pudesse hoje estar vivo! A matsá e todos os elementos do sêder se destinam especificamente para você. É o sinal do milagre que foi realizado pelo seu bem. Venha então e recite uma bênção por essa matsá, e a você nos uniremos.

Quanto ao marór, nós o comemos porque os egípcios amargaram a vida de nossos antepassados no Egito, conforme o versículo (Êxodo 1:14) declara: “E amargaram as suas vidas com trabalho duro.” Considere por um momento o seguinte: Um rei [Deus] envia o filho [Israel] para um de seus escravos [Egito], para que este o puna. Se a fonte do sustento do escravo é o filho do rei, como ele se atreveria a castigá-lo, mesmo tendo permissão para fazê-lo? Pois foi exatamente isso o que ocorreu no Egito! José, o filho do patriarca Jacob, havia garantido o sustento de todo o Egito. Se não fosse por ele, os egípcios teriam morrido de fome. Como então eles tiveram a audácia de castigar e oprimir tão severamente os israelitas, descendentes de José, amargando as suas vidas?

Os nossos sábios levantaram uma questão adicional. O versículo (ibid. 8) declara: “E um novo rei – que não conhecera José – se levantou sobre o Egito.” Por que o versículo se refere a ele como um “novo rei”? O Midrash (Shemót Rabá 1) explica que quando os egípcios se aproximaram do Faraó e pediram permissão para atacar os judeus, ele lhes respondeu que essa ideia era uma tolice: “Por causa dos judeus e de José estamos vivos!” Então o povo destituiu-o do trono durante três meses até ele consentir que os egípcios fizessem o que bem entendessem com os judeus. Os sábios acrescentaram que, quando José morreu, os judeus deixaram de cumprir a mitsvá da circuncisão, com o intuito de se assimilarem aos egípcios. Diante disso, Deus transformou o amor que os egípcios tinham pelos judeus em ódio.

Esse, nos conta o Midrash, é o significado da frase: “que não conhecera José”. O Faraó, vendo o comportamento dos judeus depois da morte de José, não os reconheceu mais como descendentes de José. Como eles mudaram de aparência, também ele mudou de atitude para com eles – tornou-se “um novo rei”, com novos decretos.

Agora você entende, meu filho, que todo o perigo, todos os milagres e toda a amargura ocorreram por sua causa? Por isso, é justo que você venha sentar à mesa do Sêder, recite a bênção sobre o marór e expresse a sua gratidão a Deus por Ele ter salvo você dessa amargura – para poder estar hoje aqui comendo esse marór como um simbolismo e lembrança, e não como uma realidade de vida.

Portanto, todos nós – você e eu, todos os seus irmãos e os seus filhos – temos o dever de agradecer ao Todo-Poderoso Deus, que realizou milagres pelos nossos pais e por nós – e principalmente por você. Exaltemos o nome Dele juntos, recitemos louvores – “Bendito sejas Tu, Eterno, que redime Israel!” Nós não dizemos: “Que redime os justos” ou “os sábios” ou “os simplórios.” Nós dizemos: “Que redime Israel” – todo o povo de Israel. É pela redenção do povo inteiro que nós abençoamos a Deus, pela redenção de todos o tipos de judeus, de todos os quatro filhos.

SÉTIMA PARTE: A Hagadá prossegue com o Halêl, uma coletânea de cânticos de louvor que foram cantados pelos judeus que saíram do Egito e pelos profetas de todas as gerações, culminando com David, o doce cantor de Israel. O Halêl tem sido cantado todo Pêssach, ano após ano, geração após geração, sob todas as circunstâncias e condições, em tempos de liberdade e de opressão.

Tendo recitado a Hagadá e enumerado os vários milagres e maravilhas que Deus realizou e o Seu imenso amor pelo povo de Israel, nós atingimos tão alto nível de exaltação que podemos nos unir ao cântico das gerações e recitar o Halêl com o coração repleto de júbilo e agradecimento.

Embora normalmente a recitação do Halêl não possa ser interrompida, no sêder nós a interrompemos para a refeição festiva, pois a refeição do sêder não é um mero jantar – ela é também uma exaltação de louvor a Deus. Assim, a primeira parte do Halêl, a refeição do sêder e a parte final do Halêl devem ser vistas como uma extensa louvação a Deus.

OITAVA PARTE: Esse trecho da Hagadá traz duas bênçãos importantes decretadas pelos sábios: uma a ser recitada logo após a primeira parte do Halêl, referente à redenção, e outra a ser recitada no final do Halêl, conhecida como “a bênção do cântico.” É como se declarássemos que damos graças a Ele por nos ter dotado de boca para cantar e coração para compreender, para podermos cantar os Seus louvores.

NONA PARTE: A refeição, incluindo matsá e marór, o corêch e o ovo, e todas as mitsvót até o aficomán e o bircát hamazón (bênção de graças após a refeição), aludem ao Êxodo do Egito e aos milagres que o acompanharam.

DÉCIMA PARTE: A Hagadá termina com uma série de cânticos e piutím (poemas litúrgicos) que foram acrescentados depois do período dos Homens da Grande Assembleia. Muitos costumam fazer também a leitura do Cântico dos Cânticos, constituído de louvores sagrados, com grande amor e intensa devoção a Deus, por Ele nos ter exaltado e santificado e plantado esse amor em nossos corações, e por ter tanto amor por nós quanto o amor de um marido por sua mulher.

 

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 O Livro do Conhecimento Judaico – Rabino Eliyahu Kitov – 656 páginas

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