Calendário Judaico

Venha soprar o shofár

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Rosh Hashaná é o Dia do Julgamento, quando Deus começa a decidir o que reserva para nós. Isso inclui um ritual importante que também dá a este dia mais um nome bíblico: Iom Teruá, o dia de soprar o shofár.

Eu sei que você não chamaria o jazzista Dizzy Gillespie (1917-1993) para cumprir essa mitsvá, pois não se trata de um instrumento de sopro como você costuma ver em uma banda de jazz. É um shofár – um chifre de carneiro. Por que temos um “toque musical” em um dia que, logicamente, deveria ser somente devotado a palavras e orações? E por que obtemos o som de um chifre de carneiro em vez de tocarmos notas especiais de algum outro instrumento? Embora a Bíblia não explique, o simbolismo é claro para os comentadores rabínicos. Aqui vão algumas das explicações mais populares que já foram oferecidas com respeito ao shofár:

* Durante os dias em que os judeus vagaram pelo deserto entre o Egito e a Terra Prometida, sempre se tocava o shofár como sinal para retomarem a caminhada, buscarem novas paradas ou seguirem na direção do seu destino final. No princípio de um Ano Novo, que mensagem mais poderosa pode ser dada do que esta, para não ficarmos atolados em algum ponto de nossas vidas e seguirmos adiante, progredirmos, a fim de buscarmos “novas paradas” e reconhecermos a necessidade de aperfeiçoamento e crescimento?

* O shofár era usado nos tempos antigos como um chamado para a guerra. Como um toque repentino de sirene no ar, significava mobilizar as pessoas para atacar os inimigos. Em Rosh Hashaná, o shofár também serve como um chamado para a guerra, para a luta contra os nossos maus instintos; contra nossa inclinação para ficarmos passivos diante da injustiça; contra nossa relutância em atacar a tendência para buscarmos o conforto e passarmos a nos preocupar com nossos semelhantes, com o caminho fácil em vez do caminho certo. Não há dia melhor do que o Dia do Julgamento para ouvirmos um chamado que nos lembre de “fazer o que deve ser feito”.

* O shofár foi ouvido quando o povo judeu se reuniu ao pé do Monte Sinai para receber a Torá, anunciando a presença de Deus entre o povo. Em Rosh Hashaná, o toque do shofár nos faz pensar que, mesmo que estejamos distantes da montanha de Deus, jamais estaremos distantes da Sua presença. Deus sempre está entre nós, e é por isso que vivemos conscientes de sempre estarmos sendo observados por uma “autoridade superior”.

* Nos tempos bíblicos, o shofár ecoava para proclamar a coroação de um novo rei. Em Rosh Hashaná, os judeus renovam o seu comprometimento com o reinado de Deus e do Seu controle sobre o mundo inteiro.

* Finalmente, há um relato que explica por que deve ser um chifre de carneiro: Abrahão foi testado por Deus, que lhe ordenou tomar o filho Isaac e oferecê-lo como sacrifício ao Eterno. Abrahão sentiu que não poderia recusar uma ordem direta de Deus e preparou-se para levar adiante a ordem até que Deus o interrompeu e mostrou-lhe o objetivo real de tudo aquilo. Diferente dos deuses pagãos, para os quais os sacrifícios humanos eram comuns, o Deus de Abrahão deixou claro que Ele não perdoa o assassinato de seres humanos, mesmo que feitos em nome dos Céus. Assim que Abrahão levantou sua espada para matar o filho, Deus ordenou-lhe que parasse – e alterou para sempre a definição dos serviços Divinos permitidos.

A cada momento, enquanto desatava Isaac, Abrahão ouvia um ruído na mata: era um carneiro com belos chifres que estava preso no matagal. Abrahão sacrificou-o no lugar de Isaac – esta foi a vontade de Deus ao dispôr o carneiro naquele momento e lugar. O chifre de carneiro foi então escolhido para ser o instrumento musical que iria aproximar os judeus de Deus em Rosh Hashaná. Isso serviria para lembrar cada judeu, neste dia santificado de comunhão com o Eterno, que estar pronto para o sacrifício é importante. Todavia, mais importante é compreender os limites do sacrifício aceitável aos olhos de Deus. O shofár, que carrega tantas referências simbólicas do passado, chama agora a nossa atenção para uma tradição judaica que aponta para o futuro. Quando o Messias estiver para chegar e a história da humanidade for transformada por novos tempos de paz universal, o toque do shofár será ouvido no mundo inteiro. Suas notas, que a cada ano nos inspiram para um novo recomeço, irão se transformar no som da redenção e marcarão o início de uma nova era para toda a humanidade.

“Eles estão tocando a nossa música”

Diz-se que as letras das canções vêm de homens e mulheres, mas a música vem de Deus. Enquanto as palavras falam às nossas mentes, as melodias falam às nossas almas. Ouça o toque do shofár e você estará ouvindo mais do que qualquer palavra é capaz de expressar. O toque do shofár explode nos lamentos sem palavras do povo de Israel em direção a Deus, em uma linguagem que transcende a compreensão racional.

Talvez não sejamos capazes de entender como os toques do shofár se comunicam com o nosso inconsciente, mas a lei judaica exige três toques distintos para que a sua mensagem seja transmitida:

* Tekiá – um toque longo e contínuo

* Shevarím – três toques quebrados que se assemelham ao soluçar

* Teruá – nove toques em staccato que se assemelham a um choro

A ordem em que devem ser tocados é: tekiáshevarímteruá, seguidos de uma tekiá final. O erudito do século 17, rabino Ieshaiahu Horowitz, autor de The Two Tablets of the Covenant (“As Duas Tábuas da Aliança”), oferece esta bela interpretação: a música é o tema de Rosh Hashaná, bem como a sua principal mensagem. Começamos com um toque forte e contínuo, como se fosse uma longa exclamação de felicidade, com plenitude e alegria. Entretanto, nem sempre a vida nos faz rir; a realidade nos força a passar por momentos de choro e pranto. Aqueles que estavam inteiros ficam alquebrados. O medo é parte integrante da vida. Apesar disso, sempre encerramos com tekiá. Quem estiver com o espírito alquebrado irá recuperar sua plenitude; quem estiver sofrendo deve acreditar que Deus irá ouvir suas orações e permitir-lhe cantar novamente.

A música do shofár é a melodia de nossas vidas. Ele toca “a nossa canção” e nos faz recordar que o otimismo é mais do que uma possibilidade; é uma mitsvá ordenada pela religião.


Extraído de O MAIS COMPLETO GUIA SOBRE JUDAÍSMO, do Rabino Benjamin Blech.
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