História Judaica

Uma vitória impossível

vitoria-possivel

(FOTO DA RÉPLICA DA MENORÁ DO TEMPLO, EXIBIDA NA CIDADE VELHA DE JERUSALÉM – Flicker)

Essa festa foi estabelecida um ano depois que, numa vitória que parecia impossível, os Macabeus derrotaram os exércitos de mercenários sírio-helênicos e, em 25 de Kislev, purificaram e fizeram a rededicação do Templo de Jerusalém, que havia sido conspurcado.

Para acender a Menorá (candelabro de 7 braços) do Templo só podia ser usado óleo de oliva puríssimo e especialmente preparado para este fim, que era guardado em recipientes em cuja tampa era colocado o selo do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote), para assegurar que não tinham sofrido qualquer alteração.

Os gregos haviam estragado ou quebrado todos os recipientes, exceto um, que foi encontrado intacto. A quantidade de óleo nele existente seria suficiente para apenas um dia e seriam necessários mais 8 dias para que se preparasse nova quantidade. Assim mesmo, decidiram acender a Menorá e, milagrosamente, o óleo durou o tempo necessário para que a nova partida ficasse pronta, ou seja, 8 dias.

Os gregos não pretendiam destruir fisicamente os judeus, mas, sim, espiritualmente. Pretendiam que houvesse uma uniformidade religiosa e cultural em todas as terras por eles dominadas e não queriam admitir a particularidade da religião judaica. Houve até uma corrente de judeus que considerou ser mais conveniente concordar com esse propósito e adotar os deuses e costumes gregos.

Na pequena cidade de Modiim, uma família de Cohanim (sacerdotes), cujo patriarca era Matatiáhu ben Iochanan, lançou-se à luta contra essa assimilação, que significava a renúncia de nossa fé e nossa tradição, e numa guerra em estilo de guerrilha, desafiou e venceu sucessivas levas de exércitos mercenários enviados pelos gregos, reconquistando por fim Jerusalém e restabelecendo os serviços tradicionais no Templo.

No texto abaixo, transmitimos um pouco do significado desse evento histórico e dos milagres que o caracterizaram.

No primeiro capítulo do Pirkê Avót (livro de ensinamentos éticos) encontramos uma mishná atribuída a Shimon Hatsadic, que diz o seguinte: Sobre três coisas se firma o Universo: Torá (estudo da Lei Divina e a prática de seus ensinamentos), Avodá (o serviço Divino) e Guemilut Chassadim (prática da assitência social).

Esses têm sido os princípios pelos quais tem vivido o povo judeu.

Em seu magnífico livro sobre o Pirkê Avót, (“A Ética do Sinai”, publicado em português pela Editora Sêfer), o Rabino Irving Bunim apresenta dois comentários sobre essa mishná, sendo, o primeiro, uma mensagem constante do testamento de Rabi Iehudá Hanassi (Judá, o Príncipe), e o segundo, uma recomendação do rei Salomão feita em Cohelet. Vejamos estes comentários:

O Rabi Iehudá Hanassi legou a seus filhos, em testamento, instruções que, à primeira vista, parecem estranhas. Ele disse o seguinte: “A lamparina (ner) deve ser mantida acesa; a mesa (shulchan) deve ser mantida posta; e a cama (mitá) deve permanecer arrumada, como sempre foi.”

Seus filhos compreenderam a mensagem da seguinte forma:

Minha dedicação ao estudo da Torá deve ser continuada por vós, tendo como símbolo a lamparina (ner), que me permitia estudar pela noite a dentro; a mesa (shulchan) na qual sempre recebi os famintos e aflitos, praticando Guemilut Chassadim, deve permanecer posta, para que esse comportamento continue sendo parte essencial de vossa vida; e a minha cama (mitá), onde eu me retirava tarde da noite a fim de, no sono, renovar as forças com as quais eu me dedicava a Avodá (serviço Divino), lhes fará ter presente, a todo momento, minha forma de louvar o Eterno, para também ser praticada por vós.

Assim, os filhos de Rabi Iehudá Hanassi compreenderam que, na realidade, ele os conclamava a se dedicarem a Torá, Avodá e Guemilut Chassadim. Curiosamente, as letras iniciais de cada um dos objetos citados por ele no testamento – Shin, Mem e Nun – formam a palavra Shemen,óleo. Dessa forma, o óleo está associado à determinação de Am Israel de manter, como fundamentos de sua conduta, a dedicação a Torá, Avodá eGuemilut Chassadim.

Por outro lado, no Livro de Cohelet (Eclesiastes 9:8), o rei Salomão exorta: “Que em todas as circunstâncias, sejam alvas as tuas vestes, e que não falte óleo (shemen) sobre tua cabeça.

A primeira parte dessa frase é interpretada da seguinte maneira: “Que teus atos sejam sempre revestidos de pureza, mantendo os princípios da nossa tradição, não deixando que se mesclem de múltiplos coloridos advindos das filosofias com que te queiram subverter.” Quanto à segunda, ela remete à associação da palavra shemen com os três princípios básicos de conduta: dedicação a Torá, Avodá e Guemilut Chassadim

Não é por acaso que Am Israel é comparado ao shemen, substância que, mesmo misturada com outros líquidos, deles se separa e a todos se sobrepõe. Envolvido por Torá, Avodá e Guemilut Chassadim, Am Israel não se diluirá, nem dissolverá entre os demais povos, permanecendo sempre nos caminhos que lhe foram determinados pelo Eterno.

Os milagres de Chanucá reafirmam que o povo que pauta seu comportamento por esses parâmetros é indestrutível.

Na época dos Macabeus, pela primeira vez na história, um povo lutou heroicamente em defesa de seus valores espirituais e pelo direito de manter suas tradições. O império sírio-helênico não ameaçava a sobrevivência física dos judeus, mas queria destruir sua fé e impedi-los de seguir os ditames de sua religião. A forma pela qual a vitória de um grupo tão pequeno contra um inimigo tremendamente mais forte foi celebrada, deixa indubitavelmente clara a motivação da luta dos chashmonaim, a qual se deu com o re-ascendimento da Menorá como uma de suas partes fundamentais.

Como já vimos, esta podia ser alimentada apenas com óleo muito puro, preparado especialmente para este fim e guardado em vasos com um selo do Cohen Gadol. Só um pequeno vaso fora encontrado intacto, pois todos os demais haviam sido conspurcados. Ele continha óleo suficiente para manter a Menorá acesa somente por um curto período de tempo, mas ele ardeu durante os oito dias, o tempo necessário para a preparação de novas jarras de óleo, que pudessem assegurar sua alimentação contínua. O vaso único de óleo não conspurcado simboliza os princípios de vida de nossos antepassados – Torá, Avodá e Guemilut Chassadim. O fato de uma única porção de shemen, suficiente apenas para um dia, ter durado milagrosamente 8 dias, simboliza o Eterno amparando Am Israel em todos os momentos da história, mesmo naqueles em que toda a esperança parecia estar perdida.

Além da recitação do Halel completo no serviço matutino de shacharit, a prece Al Hanissim é acrescentada à Grande Oração e à Benção de Graças Após as Refeições durante os 8 dias de Chanucá:

 
Rendemos-Te graças pelos milagres, pela salvação e pela maravilhosa libertação que realizaste em defesa de nossos pais, naqueles dias que comemoramos nesta data.
Na época de Matitiáhu, filho do sumo sacerdote Iochanan, o Chashmonai, e de seus filhos, quando o tirânico império dos helenistas se ergueu contra Israel, Teu povo, para fazê-lo esquecer Tua Torá e obrigá-lo a transgredir os mandamentos de Tua Lei, Tu, nesta hora de aflição, em Tua magna misericórdia, ouviste seu clamor e o defendeste. Travaste sua luta, defendeste o seu direito, entregaste os fortes nas mãos dos fracos, os numerosos aos que estavam em minoria, os ímpios aos puros, os malévolos aos justos, e os frívolos aos que cumpriam Tua Torá. Firmaste em todo o mundo Tua magna e santa reputação, garantindo a Teu povo salvação e libertação duradouras até hoje. Em seguida vieram Teus fiéis ao recinto de Tua Casa, reinstalaram Teu Santuário, purificaram Teu Templo e acenderam luzes em teus Pátios Sacros, determinando serem os oito dias de Chanucá dedicados a elevar louvores e agradecimentos a Teu grande Nome.

Em pleno século 20, além da tragédia do Holocausto, que dizimou um terço do nosso povo, enfrentamos a ação devastadora de uma filosofia imposta por uma grande nação, que tentou destruir, nos judeus, sua fé, sua memória histórica e seus sentimentos nostálgicos pela Terra de Israel. Que os judeus da Rússia tenham bravamente resistido a todas as pressões e mantido a consciência de pertencer à família dos descendentes de Abrahão, não é, talvez, um milagre menor que o de Chanucá. Num esforço contínuo, arriscando-se a serem exilados para a gélida Sibéria e a perderem todas as possibilidades de trabalho e sobrevivência material, buscaram vistos de saída, para poderem se dirigir à terra de seus sonhos. Isolamento e prisão, calúnias e falsas acusações não conseguiram destruir a consciência judaica de uma Ida Nudel ou de um Natan Sharansky. Ao assistirmos seu retorno a Israel, compreendemos que, na celebração de Chanucá, não podemos deixar de lembrar, também, o milagre da sobrevivência do judaísmo russo e, certamente, o maior de todos, o renascimento de Israel.
Agradecendo ao Eterno pelos atos milagrosos que realizou na época dos Macabeus, temos também presentes a sucessão de milagres pelos quais nosso povo atravessou 20 séculos de história, enfrentando sofrimentos, tragédias e desafios sem conta, mantendo sua integridade, sua capacidade criadora, sua esperança e sua fé. Os Macabeus lutaram não somente contra os mercenários gregos, mas, também, contra os assimilacionistas, que consideravam mais fácil e proveitoso integrar-se na cultura helênica, renegando suas raízes e sua identidade judaica.

Hoje, também, desenrola-se uma luta contra a alienação, o desinteresse e o desconhecimento de nossos valores religiosos, éticos, históricos e culturais. É preciso que, na Diáspora, haja cada vez mais esforços para mostrar aos nossos jovens o caminho da auto-realização dentro dos valores específicos do nosso povo, conscientizando-os para as responsabilidades de um judeu pós-Holocausto e contemporâneo do renascimento de Israel.

Matitiáhu ergueu a bandeira da luta pela liberdade de espírito, mas ela só pôde permanecer erguida e conduzir à vitória, porque seus filhos deram continuidade e consistência a essa luta. É preciso que, onde quer que existam judeus, as novas gerações possam experimentar plenamente a satisfação de viver novamente pelos princípios de Torá, Avodá e Guemilut Chassadim. Cabe a cada um de nós a responsabilidade de ser um exemplo vivo dessa forma de comportamento.

Que seja nosso compromisso manter as luzes de Chanucá como símbolo imperecível de nossa decisão de sermos plenamente judeus, ante quaisquer circunstâncias; de afirmarmos que nossa fé dará poder às nossas forças, para sobrepujarmos nossos opressores; de continuarmos a ser um exemplo inspirador, para a construção de um mundo em que haja compreensão entre todos os povos, respeito aos direitos de cada ser humano; e que Torá, Avodá e Guemilut Chassadim, praticados por todos nós, possam trazer paz – Shalom – a todos os recantos da Terra.


Extraído do livro Na Espiral do Tempo, de David Gorodovits
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