Pensamento Judaico

Uma letra da Torá

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O objeto mais sagrado no judaísmo é o Sêfer Torá, o pergaminho da Lei.

Escrito hoje exatamente como há milhares de anos, a mão, com uma pena, sobre pergaminho, simboliza algumas das nossas crenças mais profundas: a de que Deus é encontrado nas palavras, que estas palavras estão na Torá, e que elas constituem a base do pacto – o vínculo de amor – entre Deus e o povo judeu.

Eu me pergunto se algum povo jamais amou um livro tanto quanto nós amamos a Torá. Nos levantamos quando ela passa, como se fosse uma rainha. Dançamos com ela como se dança com uma noiva. Se danificada ou destruída, nós a sepultamos, da mesma forma que sepultamos um amigo ou parente. Nós a estudamos ininterruptamente, como se ela encerrasse todos os segredos da nossa existência. Heinrich Heine certa vez chamou a Torá de “a terra ancestral portátil” do povo judeu,querendo dizer que quando não tínhamos nossa terra, encontramos um lar nas palavras da Torá. Ainda mais eloquente, o Baal Shem Tov, fundador do Chassidismo no século 18, disse que o povo judeu é um Sêfer Torá vivo, e que cada judeu é uma de suas letras. Esta imagem me emociona, e me leva a uma pergunta – a pergunta: Será que nós também somos letras no pergaminho sagrado do nosso povo?

Em alguma etapa da vida, precisamos decidir como vamos viver. Temos muitas opções, e geração alguma conheceu tantas delas. Podemos viver para o trabalho, para o sucesso, a riqueza, a fama ou o poder. À nossa escolha, está toda uma série de estilos de vida e tipos de relacionamentos. Podemos explorar um imenso número de crenças, vertentes místicas e terapias. Há uma única limitação: Nós temos apenas uma vida, e ela é curta. Como vivemos e em nome do quê vivemos são as decisões mais determinantes que temos a tomar.

Podemos ver a vida como uma sucessão de momentos que gastamos, como moedas, em troca de uma infinidade de prazeres. Ou, então, podemos vê-la como a uma letra do alfabeto. Sozinha, uma letra não tem significado. Mas, combinada a outras letras, forma uma palavra que, ao lado de outras, forma uma sentença. Unidas, as sentenças se tornam parágrafos, e parágrafos em sequência contam uma história. Assim o Baal Shem Tov entendeu a vida. Cada judeu é uma letra. Cada família judia é uma palavra; cada comunidade, uma sentença, e o povo judeu é um parágrafo. Sua saga através dos séculos constitui um história, a mais estranha e comovente entre todas as que compõem a grande História da humanidade.

A metáfora do Baal Shem Tov é, para mim, a chave que permite compreendermos por que nossos ancestrais decidiram continuar como judeus, mesmo nas épocas mais terríveis. Suspeito que eles soubessem ser, cada um, uma letra desta história de perigo e coragem. Seus próprios ancestrais arriscaram-se a selar um pacto com Deus, o que lhes conferiu um papel muito especial na história. Eles partiram para uma jornada que começou no passado distante e prossegue nos passos de cada nova geração. No coração do pacto vive o conceito de Emuná, a fé que se traduz em fidelidade e lealdade. Ao dar continuidade à sua história, os judeus provam ser tão leais às geração passadas quanto àquelas que ainda não nasceram. Um Sêfer Torá ao qual falta uma letra é declarado inválido, defeituoso. Acredito que a maioria dos judeus nunca tenha desejado ser esta letra ausente. O que mudou, então? Por que a voz da lealdade ao passado e ao futuro não é mais ouvida entre um número tão grande de jovens judeus? Penso que a resposta esteja em um dos grandes confrontos entre o judaísmo e o pensamento moderno.


Extraído do livro Uma Letra da Torá, do Rabino Lord Jonathan Sacks:

Comentário

  • muito rico!!! aprendo muito com estes materiais judaicos! este livro “uma letra da torah” o conheci primeiro em PDF, logo no início já convencido do quanto é bom logo recomendei um livro. eu o recomendo!

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