Calendário Judaico História Judaica

Tishá Beav e a Expulsão dos Judeus da Espanha

Por que os templos foram destruídos?

Os nossos sábios ensinaram (Talmud, Iomá 9b) que a destruição do primeiro Templo se deveu a três pecados que o povo cometeu naquela época: idolatria, relações sexuais proibidas e assassinato. Em toda a Terra de Israel não havia lugar que não tivesse sido palco de veneração de ídolos. A destruição só sobreveio depois que sete tribunais supremos sucessivos também incorreram nesse pecado; o povo começou a profanar o Shabat; as crianças largaram os estudos da Torá; abandonou-se a recitação do Shemá de manhã e à noite; e as pessoas perderam a vergonha umas das outras.
O segundo Templo foi destruído devido ao ódio injustificado que havia entre as pessoas; a falta de admoestações de uns sobre outros; o desprezo pelos eruditos; a indiferenciação entre o grande e o pequeno; a carência de homens de fé sólida; e por se fazer uso de uma interpretação rigorosa demais da lei da Torá nos julgamentos, rejeitando acordos e concessões entre as partes.

A expulsão da Espanha

Segundo uma tradição antiga, após a destruição do primeiro Templo alguns dos exilados emigraram para a Espanha e estabeleceram ali uma comunidade judaica. Dentre eles havia descendentes da Casa de David, e Dom Isaac Abravanel, o principal líder comunitário na época da expulsão dos judeus da Espanha, concluiu que provinha dessa linhagem.
Após a destruição do segundo Templo e a dispersão dos judeus pela Europa, grande parte dos exilados se estabeleceu na Espanha, e com o tempo a comunidade judaica espanhola acabou se tornando a maior do continente europeu. Muitas coletividades foram fundadas, floresceram e se tornaram grandes em Torá, em sabedoria, em riqueza e prestígio, a ponto da Espanha se tornar o principal centro de judaísmo da diáspora, especialmente após o período dos Gueoním [por volta de 1038], com o fechamento das academias babilônicas de Sura e Pumbedita.
O judaísmo espanhol manteve-se florescente por cerca de 1.400 anos, mas chegou ao fim em 5252 (1492), quando a família real espanhola aderiu aos esforços da Igreja católica para erradicar o judaísmo de suas terras.
Os judeus espanhóis foram vítimas de perseguições cruéis muito antes de serem expulsos do país. Varios éditos severos foram promulgados contra eles, fazendo com que centenas de milhares perecessem ou se vissem obrigados a converter-se. Mesmo quem se convertia era torturado de diversas formas, pois os espanhóis desconfiavam da lealdade deles para com a nova religião assumida. As suas riquezas eram saqueadas e eles eram abandonados nas mãos de turbas instigadas pela Igreja. Até que em 5252 (1492), no dia 9 de Av, os judeus remanescentes foram expulsos. E assim, os últimos sobreviventes dessa comunidade tão antiga e vibrante –cerca de 300 mil pessoas – deixaram a Espanha.
Os exilados não tinham para onde ir. Empobrecidos e alquebrados por toda a aflição e opressão que precedeu a expulsão, cheios de medo e incerteza quanto ao que o futuro lhes reservava, sem saber onde conseguiriam um lugar para descansar, eles levantaram os olhos para o céu, orando para que Deus agisse com misericórdia sobre o que restara de Seu povo. Eles condenaram a terra e as pessoas que os torturaram e os saquearam: “Maldito seja esse povo e amaldiçoada seja essa terra! Nós nunca voltaremos a ela nem buscaremos o seu bem-estar!”

O começo da calamidade

Ao longo de muitos anos, a comunidade espanhola foi vista como a mais afortunada das comunidades judaicas no exílio; havia prosperidade, segurança e desenvolvimento para os judeus. Essa foi “A Idade de Ouro” do judaísmo espanhol. No entanto, a maior parte dos anos dos judeus na Espanha foi marcada por perseguições e sofrimentos. O destino do povo judeu no exílio é sempre esse, e invariavelmente acaba sendo esquecido, pois os dias de bem-estar, por poucos que sejam, deixam uma marca mais perene.
No primeiro período de estadia na Espanha, na sequência da destruição do primeiro Templo de Jerusalém, os judeus viveram em paz e prosperaram. Mas depois que os governantes da Espanha abraçaram o cristianismo e passaram a forçar o povo a converter-se para a nova religião nacional, a ira do clero escolheu os judeus como alvo. Como os judeus insistiram em se manter fiéis à fé judaica, a recusa em abraçar a fé dominante foi vista como uma afronta intolerável.
O rei e os seus oficiais, a nobreza e os lordes, os príncipes, os sábios e os ricos, todos adotaram o cristianismo. Mas nenhum judeu espanhol aceitou converter-se. Os judeus acharam que essa nova fé não passava de uma versão alternativa das práticas pagãs ridículas e destituídas de sentido do passado. A rejeição ao cristianismo foi considerada uma afronta intolerável, e os cristãos passaram a odiar e perseguir os judeus.

O primeiro decreto de conversão forçada

No ano de 4373 (613), o Rei Sisebuto promulgou um édito obrigando os judeus a aceitar a religião cristã, sob pena de expulsão do país. Alguns milhares de judeus não resistiram e decidiram fingir que adotavam o cristianismo, mas a grande maioria deles recusou-se até mesmo a aparentar o abandono da fé judaica e preferiu a expulsão, espalhando-se pela Península Ibérica em busca de regiões pacíficas onde a identidade judaica pudesse ser mantida.
O sucessor de Sisebuto, o Rei Suíntila, aboliu o decreto, permitindo que os exilados retornassem e que os convertidos voltassem a praticar o judaísmo livremente. No entanto, os reis espanhóis posteriores, pressionados pela Igreja, promulgaram novos decretos que trouxeram de volta a exigência da conversão.
A história da Espanha registra um episódio ocorrido 81 anos depois do primeiro édito real que obrigou à conversão. O governo “descobriu” que os judeus que tinham retornado à Espanha estavam tramando a derrubada da soberania cristã e se preparavam para assumir o domínio das cidades do país. Essa acusação, similar a todas as outras acusações dirigidas aos judeus ao longo da história, foi fabricada pelos nossos inimigos com o intuito de desmoralizar os judeus aos olhos do mundo e transformá-los em presa fácil.

A Idade de Ouro

Com o passar dos anos, o domínio cristão na Península Ibérica caiu após a conquista muçulmana. Os novos soberanos da Espanha trataram bem os judeus, que corresponderam dedicando o melhor de sua sabedoria, perspicácia financeira e vigor a serviço do país e de seus habitantes. Os monarcas também souberam tirar proveito da boa disposição dos judeus, nomeando diversos deles para cargos governamentais importantes. Os judeus tiveram muito sucesso em promover os interesses da Espanha e conquistaram grande estima por parte de toda a nação. Nesse período, que tornou-se conhecido como “A Idade de Ouro” do judaísmo espanhol, a comunidade prosperou quantitativa e qualitativamente. Dezenas de milhares de judeus de toda a diáspora juntaram-se aos seus irmãos na Espanha e foram recebidos de braços abertos por eles, que ofereceram assistência por gozarem de boa condição financeira.
Além de conquistar prosperidade material, o judaísmo espanhol tornou-se o maior centro de Torá do mundo judaico. O Rabino Chisdai ibn Shaprut, grande erudito e influente membro do governo, liderou a comunidade naquela época e não poupou esforços nesse sentido. Junto do Rabino Moshé ben Enoque, criou um centro de Torá que influenciou toda a diáspora. O Rabino Moshé tinha sido um dos “quatro cativos” famosos – emissários das academias de Sura e Pumbedita na Babilônia aprisionados durante viagens à Europa, que foram salvos graças aos esforços de várias comunidades. A Providência Divina fez com que o Rabino Moshé fosse levado à Espanha e resgatado, e acabasse se tornando o principal sábio da comunidade.
Perto do final do domínio muçulmano na Espanha, o tratamento benevolente que davam aos judeus se deteriorou e os muçulmanos também passaram a maltratar e oprimir os cidadãos judeus e a submetê-los a conversões forçadas. Foi o fim da era dourada do judaísmo espanhol. O enfraquecimento do domínio muçulmano na Península Ibérica levou os cristãos a reassumirem a soberania.

A volta da escuridão

A retomada da Espanha pelos cristãos foi acompanhada de uma luta feroz que destruiu a maior parte da infraestrutura do país. Em um primeiro momento, os governantes cristãos pediram ajuda à comunidade judaica, pois os judeus tinham vasta experiência no exercício de governança e administração de finanças. Eles lhes ofereceram cargos de alta responsabilidade e chegaram até a protegê-los do clero cristão, que voltou a destilar o ódio pernicioso que sempre teve pelos judeus.
Não demorou muito para que os judeus que haviam alcançado posições de destaque na Espanha não suportassem mais o ódio virulento da Igreja e da nobreza.
Apoiados pelo governo, os clérigos invadiram sinagogas e salões de estudos, praticando proselitismo e desprezando a fé judaica, sem encontrar resistência, uma vez que todos da comunidade estavam aterrorizados demais diante de tamanha demonstração de poder.
Depois de atingirem o topo da grandeza, os judeus passaram a ser oprimidos e humilhados. O clero incitou as massas a atacarem fisicamente os judeus e a espoliá-los de todos os seus bens, sem que o governo agisse para detê-las.
Naqueles dias sombrios, alguns judeus, fracos de espírito e fé, aceitaram se converter e se juntaram aos inimigos. Aqueles que permaneceram leais ao judaísmo enfrentaram então uma ameaça dupla – os inimigos de fora e os de dentro.

Conversão forçada e aniquilação

 

No ano de 5151 (1391), 101 anos antes da expulsão, os judeus espanhóis foram alvo de uma onda de perseguições que objetivava forçá-los a se converterem, e terríveis pogroms se seguiram. Centenas de comunidades foram varridas na Espanha.
Os primeiros tumultos antissemitas começaram na cidade de Córdova. Das dezenas de milhares de judeus que compunham a comunidade, apenas uns poucos sobreviveram – só aqueles que aceitaram sobre si o cristianismo. O bairro judaico, o mais belo da cidade, foi destruído e transformado numa montanha de cinzas.
Os tumultos se espalharam de Córdova para outras cidades e nessa série de pogroms, cerca de 100 mil judeus perderam as vidas. As calamidades terríveis devastaram por completo o espírito dos judeus espanhóis. Eles não estavam acostumados às penúrias, aflições e angústias que os seus irmãos franceses e alemães conheciam de perto. Assim, muitos judeus cederam e se converteram, dentre eles muitos chefes de comunidades e personalidades de destaque, pois não possuíam força espiritual suficiente para sacrificarem as vidas em nome de Deus, nem estavam dispostos a abrir mão dos seus status socioeconômicos.
Nesse período terrível, passou de 200 mil o número dos convertidos que abandonaram a fé de seus pais. A maior parte cortou por completo os laços com a comunidade judaica, mas uma porcentagem considerável continuou mantendo contato clandestinamente com os seus irmãos judeus, praticando o judaísmo em segredo enquanto fingia publicamente ter assumido a religião cristã.
Nos pogroms era oferecida às vítimas a alternativa de se converterem ou morrerem. A política oficial do governo permitia escolher a conversão ou a expulsão. É, portanto, desconcertante que tantos judeus tenham concordado em se converter ao invés de optarem pelo exílio, mesmo não tendo sido ameaçados diretamente pela espada. Em contraste, em outros países, onde a ameaça de extinção física era muito real, encontramos muitos poucos casos de conversão; a grande massa dos judeus escolheu a morte, optando por santificar o nome de Deus. O que levou os judeus espanhóis àquele estado tão debilitado, incapacitando-os de superarem essa provação?
Os sábios daquela geração explicaram: Por um lado, os judeus espanhóis estavam acostumados a uma vida de luxo incomparável à realidade das outras comunidades da diáspora, que eram alvo constante de perseguições e passavam por privações. Por outro lado, as preocupações do judaísmo espanhol com a filosofia racionalista golpeou a raiz de sua fé pura e simples em Deus.
O Rabino Iossêf Iaabêts, proeminente sábio judeu que foi um dos exilados daquela época, comentou:
Quase todos aqueles “que se vangloriavam de seu saber” abriram mão de sua glória como judeus quando postos à prova no dia amargo em que se viram forçados a fazer a escolha derradeira. Por outro lado, as pessoas simples, cuja fé era pura e íntegra, foram as que se dispuseram a sacrificar as próprias vidas e posses pela santificação de seu Criador. Isso constitui uma prova forte e contundente de que as pessoas devem optar por não se tornar “demasiadamente sábias”, mas devem permanecer em um nível de fé simples, pois essas são salvas pela própria simplicidade de sua fé, conforme o versículo (Salmos 116:6) declara: “Ele protege os que são simples.”
No entanto, a faísca de santidade judaica não desapareceu nem mesmo dos que tropeçaram, e com o passar do tempo muitos deles retornaram ao seio de sua fé – a princípio em segredo, e subsequentemente santificando em público o nome de Deus, até a morte.

Os “marranos”

A deterioração da comunidade judaica espanhola teve início 100 anos antes da expulsão. Os principais centros de Torá deixaram de funcionar, porque a maioria dos judeus que ainda praticava a fé o fazia clandestinamente. As sinagogas se esvaziaram e os cemitérios ficaram repletos de cadáveres. Uma porcentagem considerável da comunidade buscou proteção sob as asas de outros deuses, enquanto o resto passou a viver em um estado constante de angústia e medo, sem saber o que esperar do dia seguinte. Quem pôde fugiu do país, pois os sinos já dobravam comemorando a destruição do judaísmo espanhol.
Os “cristãos-novos” – aqueles que adotaram o cristianismo com a finalidade de escapar das perseguições – também foram incapazes de encontrar alívio na nova fé. Somando cerca de 250 mil pessoas, eles garantiram a sua segurança financeira; no entanto, passavam os dias amedrontados e isolados. Separados de seus irmãos judeus que optaram por permanecer fiéis ao judaísmo, eles tinham medo até mesmo de manter contato uns com os outros, para não serem vistos como suspeitos de conservarem ligações com o passado. Tampouco foram assimilados pela população; os “cristãos-velhos” não absorviam os “cristãos-novos” porque os detestavam e os espionavam constantemente, buscando motivos para entregá-los nas mãos do clero para que fossem julgados como traidores.
Os cristãos passaram a chamar esses judeus de marranos (“suínos”), uma expressão pejorativa, por “engordarem graças ao trabalho dos outros e só serem úteis depois de mortos”. Enquanto aqueles que permaneciam professando o judaísmo corriam apenas o risco de serem expulsos, os marranos se sujeitavam à pena de serem queimados vivos pelo crime de deslealdade à Igreja. Às vezes, as acusações eram procedentes, pois muitos deles praticavam o judaísmo secretamente ao serem descobertos. Mas muitas vezes, os seus inimigos forjavam mentiras, a fim de se apossarem de seus bens.

A Inquisição

Nove anos antes da expulsão, Torquemada, o sacerdote mais cruel do clero católico, foi nomeado líder do Tribunal da Inquisição, um tribunal eclesiástico encarregado de castigar os infiéis. Embora as atividades da Inquisição tivessem como objetivo a eliminação de todos os hereges, os “cristãos-novos,” cuja aceitação da nova religião foi sempre considerada suspeita, constituíram o seu foco principal.
Torquemada conquistou o apoio da Rainha Isabel, que deixou de lado todas as suas outras responsabilidades para devotar-se ao respaldo das decisões e tramoias do inquisitor-chefe. Torquemada convenceu-a de que erradicando os hereges e expulsando os judeus, ela alcançaria a expiação de todos os seus pecados.
Mais de 30 mil marranos [que a literatura hebraica chama de anussím (forçados)] foram levados a julgamento e condenados à morte, tendo sido queimados vivos pela Inquisição. Dezenas de milhares, embora poupados da morte, foram submetidos a torturas hediondas e sofreram muito. A maior parte deles, apesar de ter sucumbido anteriormente à pressão contínua da Igreja, santificou o nome de Deus ao morrer, reafirmando assim a sua verdadeira fé. As confissões dos convertidos de que na verdade tinham continuado a praticar o judaísmo em segredo enfureceu os inquisidores e levou-os a intensificarem ainda mais as suas perseguições. Elas também ajudaram a convencer o Rei Fernando a expulsar todos os judeus remanescentes, pois enquanto houvesse judeus na Espanha, eles continuariam a influenciar os seus irmãos, que tinham se tornado cristãos-novos, a aderirem à fé de seus pais.

O édito de expulsão

Na introdução ao seu comentário sobre o Livro dos Reis, Dom Isaac Abravanel descreve os acontecimentos que culminaram com a proclamação do édito de expulsão, assinado pelo rei Fernando no dia 1º de Adar de 5252 (fevereiro de 1492), e que entrou em vigor três meses depois:
No ano de 5252 (1492), nono ano [do reinado] do rei da Espanha, o rei tinha conquistado todo o reino de Granada, e também a capital e seus subúrbios. Sentindo-se poderoso, na sua arrogância atribuiu o poder que tinha ao seu deus. Esse Esaú pensou: “Como posso agradecer ao meu deus que me fez vencer a guerra? Pode haver algo maior para oferecer ao meu deus por ter-me entregue essa cidade, do que trazer para sob as suas asas o povo que caminha nas trevas, Israel, o rebanho disperso – devolvendo a filha rebelde à religião verdadeira ou expulsando-a dessa terra para sempre? Que esse povo nunca mais seja visto na minha terra nem apareça diante de meus olhos!”
Eu [Abravanel] fui ao tribunal real, e clamei e gritei até enrouquecer. Conversei com o rei três vezes e supliquei a ele, dizendo: “Salve-nos, Vossa Majestade! Por que fazer isso a nós, vossos servos? Penalize-nos com multas, e cada um de nós dará tudo o que tiver pelo bem de vosso reino.” Procurei os meus conhecidos no tribunal real, para implorar por meu povo. Os nobres se reuniram para interceder junto ao rei, e insistiram vigorosamente para que ele revogasse o édito que tinha assinado em um momento de ira e desistisse de seu plano de destruir os judeus. Mas ele fechou os ouvidos como se fosse surdo e recusou-se terminantemente a reconsiderar. A rainha permaneceu ao seu lado, incitando-o ainda mais a manter a sua determinação. Os nossos esforços não levaram a nada. Eu não descansei nem desisti, mas fui incapaz de anular o édito.
Ao receber as más notícias, o povo ficou consternado. Onde quer que o decreto do rei chegasse, os judeus se enlutavam. Todos ficaram apavorados – desesperados como uma mãe que vai dar à luz. Nada igual acontecera desde que Judá foi exilado para solo estrangeiro. As pessoas disseram umas às outras: “Sejamos extremamente fortes, na nossa fé e na Torá do nosso Deus, diante daqueles que blasfemam e nos odeiam. Se eles nos deixarem viver, viveremos, e se nos condenarem à morte, morreremos. Mas não profanaremos a nossa aliança e não permitiremos que os nossos corações recuem. Iremos em nome de Deus, nosso Senhor.”
Partimos desanimados – 300 mil pessoas a pé, incluindo a mim – jovens, idosos e mulheres, no mesmo dia, de todas as províncias do rei – para onde quer que o vento nos levasse.
No seu comentário sobre Jeremias, Dom Isaac Abravanel acrescenta:
Quando o rei da Espanha decretou a expulsão de todos os judeus de seu reino, ele marcou o prazo-limite para dali a três meses, caindo exatamente no dia 9 de Av. O rei desconhecia o caráter desse dia quando emitiu o decreto. Foi como se ele tivesse sido guiado do Alto para fazê-lo.

A piedade do cruel

No édito real de expulsão, o rei Fernando expôs as razões que motivaram a sua decisão:
Tendo chegado aos nossos ouvidos o clamor dos conversos – alguns dos quais condenamos à morte e outros dos quais à prisão perpétua… Tendo encontrado hereges e rebeldes contrários à nossa santa fé – alguns dos quais confessaram e concordaram em arrepender-se, encontrando-se ainda nas mãos dos inquisidores que procuram determinar o alcance de suas atitudes perversas… Eles clamaram amargamente a nós e disseram-nos: “Os judeus sempre foram, e continuarão sendo, a razão de nossa heresia e rebelião contra a fé católica.” Eles lhes ensinam os seus comportamentos, as suas leis e costumes e as suas festividades. Enquanto ainda houver na Espanha judeus entre eles, é impossível que cheguem a ser católicos íntegros e verdadeiros.
Consideramos portanto apropriado expulsar todos os judeus de todos os lugares que se encontram sob o nosso domínio. Apesar de merecerem punição muito pior pelos seus atos, tivemos piedade deles e nos limitamos a esse castigo.
Por conseguinte, decretamos e ordenamos que todos os homens e mulheres, adultos ou crianças, que forem conhecidos como israelitas e residirem em nossos domínios, sejam expulsos e abandonem todas as áreas de suas residências. Que se aprontem para abandonar todas as províncias de nosso reino e dirigir-se a outras terras dentro dos próximos três meses – desde 1º de maio até fim de julho. Quem quer que desobedeça a nossa ordem, que não sair durante esse período e for encontrado posteriormente em um lugar qualquer de nossos domínios, será condenado a morrer na forca ou deverá converter-se ao cristianismo.
Juntamente do édito de expulsão, foi decretado que os judeus tinham a obrigação de saldar todas as dívidas com credores cristãos, mas que estavam proibidos de cobrar as dívidas de devedores cristãos. O decreto também proibia que os judeus levassem para fora do reino ouro, prata ou outros bens valiosos. Eles só poderiam levar provisões necessárias para a viagem.

Na sequência da proclamação do édito

Com a publicação do Édito de Expulsão, os líderes da comunidade, liderados por Dom Isaac Abravanel, reuniram-se com um grupo de funcionários cristãos que consideravam a expulsão dos judeus calamitosa para o país. Eles se apresentaram diante do rei e da rainha e pediram-lhes que revogassem o decreto nefasto, oferecendo-lhes qualquer compensação monetária que demandassem. Mas todas as súplicas deles foram inúteis. No momento em que estavam diante do rei e da rainha, Torquemada irrompeu na sala empunhando uma cruz, vociferando contra qualquer possibilidade de revogação do édito. O rei e a rainha, intimidados, rejeitaram a solicitação, e a delegação retirou-se envergonhada.
A expulsão dos judeus teve início, em toda a sua crueldade. Muitos judeus foram assassinados pelos seus vizinhos ainda antes da hora da partida, pois o sangue judeu era indefenso. Muitos fugiram da Espanha antes do prazo marcado e se dispersaram pelas estradas que conduziam ao exterior, mas acabaram assolados por toda sorte de calamidades nos caminhos, como se a mão de Deus tivesse Se erguido contra eles a fim de destruí-los. No último dia antes da data da expulsão restavam ainda cerca de 300 mil judeus em solo espanhol – homens, mulheres e crianças – que acabaram partindo no dia seguinte, na data amarga de 9 de Av.
No período compreendido entre maio [quando o édito foi proclamado] e julho [quando ele passou a vigorar], os padres intensificaram as tentativas de converter os judeus. Como incentivo à conversão, foi publicada juntamente do édito de expulsão uma lista com os privilégios que os conversos desfrutariam. A grande maioria dos judeus resistiu e não sucumbiu à tentação, à exceção daqueles que tiveram a fé debilitada por terem assimilado outras filosofias.
O Rabino de Castela, Dom Abraham Senior, foi um dos que se dobraram à campanha dos padres. Mas depois descobriu-se o que o levou a isso – a rainha jurara que mandaria aniquilar todas as comunidades judaicas caso ele não se convertesse. Para salvá-las, Dom Senior viu-se obrigado a fazer o que fez, mesmo contra a vontade de seu coração.
Um escritor contemporâneo fez o seguinte relato:

“Nos três meses que lhes forem concedidos, eles empreenderam todos os esforços possíveis, certos de que teriam êxito em alcançar algum tipo de acordo, principalmente através dos esforços de três homens: o rabino-chefe das comunidades espanholas, Dom Abraham Senior; Rabino Meir, o professor, escriba da corte real; e Dom Isaac Abravanel, que após fugir de Portugal para Castela se tornara um dos altos funcionários do tribunal, e que posteriormente foi exilado para Nápoles, onde foi nomeado para um alto cargo. O grande rabino Dom Isaac de Leon (Abravanel) muitas vezes se referiu [em hebraico] ao Dom Abraham Senior como sonê ór (inimigo da luz), por considerá-lo herege. O que aconteceu no final comprova que ele estava certo, uma vez que tanto ele [Dom Abraham Senior, aos 80 anos de idade], quanto a sua família, se converteram, assim como o Rabino Meir.”

Um outro autor contemporâneo, Rabino Eliáhu Kapushali, escreve:

“Naqueles dias desolados, dezenas de milhares de judeus se converteram ao cristianismo, incluindo alguns que chegaram a partir mas deram meia-volta quando se depararam com os perigos do caminho. Eles não aguentaram a prova e regressaram para a Espanha.”

Com cânticos e louvores

Os exilados abandonaram a Espanha em grupos, e muitos saíram durante as Três Semanas, entre 17 de Tamuz e 9 de Av. Embora nesses dias de luto pela destruição dos Templos e da Terra de Israel a música seja proibida, os sábios daquela geração permitiram que músicos acompanhassem a saída dos exilados tocando os seus instrumentos, com o intuito de fortalecer o espírito do povo e infundir nele esperança e fé em Deus. Apesar de expulsos, os judeus entoaram cânticos dando graças a Deus por terem resistido à prova não se convertendo, e por terem tido o mérito de santificar o nome de Deus saindo da Espanha. Uma outra razão para os sábios terem permitido o acompanhamento musical foi ensinar que não se deve manifestar pesar pela troca de um exílio por outro, mas só se deve chorar ao deixar Jerusalém.

As tribulações dos exilados

Os exilados passaram por sofrimentos terríveis. Muitos morreram de fome ou de doenças, outros morreram afogados no mar ou foram vítimas de animais selvagens e bandidos. Seguem alguns dos relatos que ficaram registrados para a posteridade:

E as hostes de Deus, os exilados de Jerusalém que moravam na Espanha, abandonaram esse país maldito no 5º mês do ano de 5252 (1492) e se dispersaram pelos quatro cantos da terra. Dezesseis barcos repletos de emigrantes zarparam do porto de Cartagena na sexta-feira, 10 de Av, sem destino definido – para a África, Ásia, Grécia ou Turquia – onde vivem até hoje.
Eles passaram por dificuldades horripilantes. O rei de Gênova tratou-os com uma crueldade inusitada e muitos se desesperaram. Alguns foram assassinados pelos árabes que queriam se apoderar do ouro que estivessem levando escondido. Outros morreram afogados no mar, ou acometidos por pragas ou devido à inanição, e muitos foram despojados de seus pertences pelos próprios capitães dos barcos. Outros ainda foram vendidos como escravos e criadas na Guinea, naquele ano fatídico (Rabino Eláhu Kapushali).

***

Eu escutei dos anciãos que deixaram a Espanha que todos os passageiros de um navio foram acometidos pela praga, e que o capitão decidiu largá-los numa região desabitada, onde a maioria acabou morrendo de fome. Uns poucos ainda tiveram forças para caminhar, e saíram à procura de um lugar seguro. Um homem no meio deles estava acompanhado pela esposa e dois filhos. A mulher, desacostumada a esse nível de penúria, teve um colapso e caiu morta. O homem pegou os filhos e continuou em frente, até que desmaiou. Quando recobrou a consciência, descubriu que os filhos tinham morrido de inanição. Desesperado, ele levantou os olhos para o céu e exclamou: “Senhor do mundo! Você fez de tudo para que eu abandonasse a minha fé. Quero que saiba que apesar de tudo eu sou judeu e permanecerei sendo judeu, e tudo o que Você fez ou fizer recair sobre mim de nada adiantará.” Então ele juntou um pouco de terra e grama, cobriu os corpos de seus entes queridos, e continuou à procura de um lugar para viver (Shevet Miehudá).

***

Comemos da grama dos campos. Eu consegui trabalho no moinho de um árabe e recebia para comer uma mera fatia fina de pão, que não servia sequer para encher o estômago de um cão. À noite o meu corpo colava no solo e o frio era terrível. Não tínhamos nada para nos cobrirmos e não havia proteção alguma contra as interpéries. Então escavamos covas no depósito de lixo da cidade; lá nos refugiamos (Rabino Iehudá Chaiat, um dos exilados, depois de chegar à Tunísia).

***

Mas apesar de tudo isso…

“Mesmo assim, não nos esquecemos de Ti nem abandonamos a fidelidade à Tua aliança. Não desfaleceram os nossos corações, nem de Teu caminho se desviaram nossos passos. Mesmo nos sentindo esmagados, como se os monstros das profundidades nos atacassem, ou encobertos pelas sombras da morte, não esquecemos o nome do Eterno nem estendemos nossas mãos a deuses estranhos. Acaso disso não Se aperceberá o Eterno, Ele que conhece os segredos de todos os corações? Por Tua causa e por honrar Teu nome somos mortos diariamente, e vistos como rebanho no matadouro. Desperta, ó Eterno! Por que pareces dormir? Ergue-Te! Não nos abandones jamais. Por que ocultas a Tua face e ignoras a nossa opressão e sofrimento? Prostrada até o pó está a nossa alma; desfalecido sobre o chão jaz o nosso corpo. Levanta-Te, vem em nossa ajuda e nos redime por Tua imensa magnanimidade” (Salmos 44:18-27).

 

Extraído do LIVRO DO CONHECIMENTO JUDAICO, Editora Sêfer

Comentário

  • Eu dantes pensava que os sofrimentos dos Judeus, as perseguições de que eram alvo, era porque eles não acreditavam em Jesus, mas agora já não sei o que pensar, será que eles abandonavam Deus e Ele permitia tudo isso para os trazer de volta a Si?

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