Calendário Judaico Leis Judaicas / Talmud

Rabi Akiva, Bar Cochbá e Lag Baômer

Os dias da Contagem do Ômer, além do seu significado bíblico original, passaram a rememorar um capítulo importante mas triste da história judaica. Ele é assinalado especialmente na comemoração de Lag Baômer, o dia 33 dessa contagem.

Conhecer esses fatos históricos pode ser decisivo para a plena compreensão dessa data e seu significado dentro do calendário judaico.

De Iabne a Bar Kokhba

Uma vez estabelecido o prestígio de Iabne, Gamaliel II dedicou-se à arregimentação do povo em torno da Torah. Os serviços nas sinagogas ganharam um rito uniforme, tanto na Terra de Israel como em toda a Diáspora. Os judeus então eram instruídos a respeito de como e o que rezar, silenciosa ou coletivamente, três vezes ao dia, precisamente no horário em que costumavam ser oferecidos os sacrifícios no Templo, com postura em direção a Jerusalém. Aos sábados e nos dias de festa, bem como duas vezes durante a semana – nos dias em que os camponeses vinham à cidade para vender seus produtos –, eram lidas porções da Torah, suplementadas por trechos adequados dos livros proféticos. A leitura da Torah era acompanhada da tradução no vernáculo, frequentemente seguida de explicações, nascimento da prédica.

A construção de escolas adquiriu prioridade, até mesmo sobre a de sinagogas. Órfãos e pobres eram alfabetizados e instruídos às custas da comunidade; somente os pais suficientemente prósperos remuneravam professores particulares, na medida de suas possibilidades. Os rabinos das academias não eram pagos; ganhavam a vida exercendo uma profissão, de preferência manual: a Lei não devia ser ensinada em troca de pagamento – assim postulavam –, pois “a Torah não é uma pá com que se cava”; sua transmissão é uma mitsvah, um mérito em si mesmo. Se essa foi a praxe, também havia opiniões a favor de que pessoas abastadas ou comunidades economicamente fortes providenciassem um sustento condigno para seus rabinos, a fim de evitar que o estudo e o ministério se tornassem privilégio dos ricos.

A Torah é tudo: nascimento e morte, casamento e divórcio, a moralidade nos negócios, a exatidão de pesos e medidas, o recolhimento de impostos, os preços dos gêneros de primeira necessidade, a assistência social, o enxoval para noivas pobres – tudo é, a seu modo, “serviço divino”. Havia dezenas de rabinos de grande autoridade que abriram escolas próprias em cidades como Lidda, Usha, Seforis, Bet Shearim, Tiberíades, Bne Barak, e muitos eruditos serviram como mestres itinerantes, ministrando aulas em praça pública e custeando a vida apenas com o que seus ouvintes quisessem espontaneamente contribuir.

Transmitida apenas verbalmente desde há séculos, a Lei Oral havia adquirido um volume tal que era preciso uma memória fenomenal para estudá-la, decorá-la e transmití-la. Os eruditos assumiram o papel de verdadeiros livros vivos. Rabi Akiva ben Jossef (c. 50-135) tomou a iniciativa de fazer um arranjo sistemático de uma parte desse gigantesco complexo de jurisprudência. Organizou em agrupamentos divididos por assuntos, algumas centenas de halakhot (plural de halakhah, norma de direito, literalmente, maneira de andar) sancionadas por instituições ou juntas rabínicas. O caráter particularmente sagrado da Torah sempre tinha impedido que se instituíssem outros compêndios legais escritos. Akiva ousou, então, organizar por escrito pelo menos alguns agrupamentos que ele considerou essenciais, o que, sob o nome de Mishnah de Rabi Akiva, foi instrumental para as codificações que posteriormente se tornariam imperiosas.

Não satisfeito com a criação só de uma memória, Akiva partiu para a arquitetura de um método para futuras formulações de jurisprudência, baseado no estudo da Torah. Assim, propôs que nada na Torah, absolutamente nada, nenhuma palavra, sílaba ou letra, nenhuma repetição ou ênfase, fossem redundâncias ou coincidências. Tudo serve de base para originar as halakhot – preceitos legais, rituais ou religiosos – através de um sistema de sutís deduções lógicas. Esse método de derivação da legislação atualizada por meio da interpretação de um conceito da Torah ficou sendo, durante um milênio e meio, o timbre da identidade judaica, e colocou Akiva ao lado de Ezra e Hilel entre os grandes pilotos do judaísmo.

A biografia de Akiva é nada menos que espetacular. Passou boa parte de sua vida como ignorante, no emprego de um homem muito abastado de Jerusalém. Viveu em grande pobreza, casado com Raquel, a filha do patrão, tendo prometido a ela que se dedicaria de corpo e alma ao estudo da Torah. Mulher invulgarmente inspiradora, Raquel fez com que Akiva, embora já tendo atingido extraordinário grau de conhecimentos e idade avançada, continuasse a estudar mais ainda, até tornar-se o indisputado mestre maior de toda a geração de sábios contemporâneos. Akiva tinha perto de setenta anos quando, finalmente, abriu sua própria escola na cidade de Bne Berak, aureolado da fama de excepcional erudição e tido em grande estima por Raban Gamaliel.

Também foi, provavelmente, na época de Akiva e Gamaliel II que se encerrou definitivamente o cânon bíblico com o acréscimo, à Torah e aos Profetas (Neviim), da coletânea de Ketuvim (Escritos). Para tanto, muitas obras tinham que passar pelo crivo dos eruditos, encarregados de decidir se podiam ou não ser incluídas no cânon das Escrituras Sagradas. Pois naqueles tempos o plágio, por assim dizer, funcionava ao revés. Em vez de “roubar” obras de outros, publicando-as sob o próprio nome, autores emprestavam respeitabilidade ao seu trabalho atribuindo-o a “Moisés”, “Salomão”, “David”, “Ezra” ou outros. Três livros aguçaram especialmente o critério dos sábios: Ester, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. Só após acirradas discussões foram admitidos no cânon – o Cântico por conta do particular empenho do próporio Akiva, que interpretou alegoricamente essa obra prima da poesia hebraica como um cântico do amor de Deus pelo povo de Israel.

Muito embora fosse a maior figura intelectual de sua época, Akiva nunca deixou de prestigiar a liderança de Gamaliel, o nassi. Serviu mesmo como mediador num grande conflito que eclodiu entre o Raban de Iabne e alguns dos outros rabinos. Pois, justamente as caraterísticas que fizeram de Gamaliel o personagem-líder – sua tremenda energia e imponência – colocaram-no vez ou outra em choque com eruditos eminentes. Ele insistia numa ferrenha disciplina intelectual e colegial, e mostrava pouca tolerância quando suas decisões ou as do sanedrin eram questionadas. Em certa ocasião, alguns de seus pares rebelaram-se contra seu autoritarismo, e uma assembleia de rabinos votou pela deposição do nassi. Gamaliel submeteu-se imediatamente à disciplina que ele mesmo advogava, levantou-se de sua cadeira presidencial e tomou lugar como membro razo entre os demais rabinos. Não demorou e os outros reconheceram que o gênio de liderança de Gamaliel era imprescindível e novamente votaram, desta vez para reconduzir o Raban de Iabne ao seu lugar de liderança que ocupara antes.

Perto do fim de sua vida, Akiva viu-se envolvido em mais uma revolta de judeus em favor da liberdade. Pouco depois do Levante das Diásporas, Adriano (117-138) sucedeu a Trajano no governo de Roma. Entre os mais ilustres dos imperadores, foi um homem devotado à pacificação do Império, empreendendo extensas viagens com o intuito de ordenar e embelezar cidades antigas e construir novas.

Uma das primeiras medidas de Adriano foi o reconhecimento do Eufrates como fronteira oriental do Império e a consequente retirada das legiões estacionadas por Trajano no Oriente – Armênia, Mesopotâmia e Pártia – seguida da execução do sanguinário general Lucio Quietos, de trágica lembrança para os judeus da Babilônia e de Eretz Israel. Depois de deter-se longamente nas províncias ocidentais – Bretanha, Gália, Hispânia – Adriano voltou sua atenção para a Grécia e Ásia Menor e, no ano 130, chegou a Jerusalém. Encontrou a cidade devastada, quase do jeito que Tito a tinha deixado. O semblante de desolação aborreceu os sentimentos estéticos e inspirou a imaginação do Imperador. Jerusalém será incorporada ao seu projeto de fortalecimento do leste helenista, para servir de barreira entre a civilização greco-romana e o Oriente. Parte desse plano será a transformação de Sion numa cidadela de cultura ocidental.

As esperanças dos judeus voam altas. Adriano patrocinará a reconstrução de Jerusalém – quem sabe do Templo – será um novo Ciro? Porém as ideias de Adriano são bem diferentes das imaginadas pelos judeus. Jerusalém será reedificada, sim, mas como uma cidade helenista, seu nome será mudado para Aélia Capitolina e, no Monte do Templo, será erguido um santuário dedicado a Júpiter Capitolino. Adriano, talvez o mais sábio entre todos os estadistas romanos, revelava novamente a visceral incompreensão pagã-romana em relação ao judaísmo e ao povo judeu.

A repulsa aos projetos romanos leva os judeus uma vez mais a pegar em armas. Pequenos grupos de guerrilheiros atacam destacamentos da Décima Legião, fortificam cidades e juntam armas. Uma ação em escala maior leva à destruição parcial da base militar de Cesareia. Um jovem comandante, Simeon bar Koziba, conduz seus homens para ações cada vez mais amplas, sempre bem sucedidas. Muito pouco se sabe acerca da personalidade do líder da terceira guerra judaica contra Roma, exceto que foi um militar enérgico e audacioso. À semelhança do levante dos macabeus, patrocinado pelo sacerdote Matatias, este agora recebe a bênção rabínica de ninguém menos que o grande Akiva. Continua enigmático como foi que o rabino que havia passado a maior parte de sua vida promovendo a paz acabou por proclamar o líder da revolta Rei e Messias, mudando o nome do eleito para Simeon bar Kokhba (Filho da Estrela).

Nem todos compartilham o entusiasmo messiânico de Akiva. Outros mestres não fazem segredo de seu ceticismo: “Grama crescerá no teu rosto, Akiva, antes que este seja o verdadeiro Messias!”. Mas para o povo, a aclamação pelo grande mestre constitui uma convocação irrecusável. O historiador romano Dio Cassio, a principal fonte desta época, afirma que Bar Kokhba teria estado no comando de algumas centenas de milhares de homens. O governador da Judeia, Tinneius Rufus, sofre sérios revezes à frente da sua famosa Décima Legião. O legado da Síria, que acorre em seu auxílio, não tem melhor sorte. A supremacia dos rebeldes estende-se até a Galileia e a Transjordânia e finalmente Bar Kokhba ocupa Jerusalém de onde, com o título de nassi, príncipe, proclama o restabelecimento da independência do Estado judeu. As moedas da época (132) trazem símbolos religiosos judaicos e inscrições como “Primeiro Ano da Redenção de Israel”, “Segundo Ano da Liberdade de Israel”, “Libertação de Jerusalém”, “Shimeon, Príncipe de Israel”.

Adriano mobiliza nada menos que doze legiões, além das tropas auxiliares, ao todo perto de 100 mil homens com armamentos sofisticados, treinados e disciplinados, sob o comando do mais hábil general romano, o governador da Bretanha, Júlio Severo. Lápides ainda hoje atestam a origem de legionários da Gália, Bretanha, Cirenaica, Macedônia, Itália, Hispânia e Cítia. Dio Cassio relata que a guerra durou três anos e meio; os romanos foram obrigados a conquistar uma por uma 50 fortalezas, e 965 cidades ou vilarejos, com os últimos combatentes em torno de Simeon bar Kokhba finalmente entrincheirados na fortaleza de Betar. À exemplo de Massada, ninguém sobreviveu. E consta que a queda de Betar teria acontecido em Tishá be Av, dia 9 do mês de Av, a mesma data em que caíram o Primeiro e o Segundo Templo.

As perdas judaicas nesta guerra são estimadas em 580.000 mortos em ação, com um número ignorado dos que pereceram por fome, fogo e doença. Não há estimativa para o número de baixas romanas. Foram tão pesadas que Adriano, ao informar o Senado a respeito do desfecho vitorioso da guerra, teve que omitir a tradicional formula mihi et legionibus bene, Eu e as Legiões estão bem. Os mercados mundiais ficaram inundados, a ponto de o preço de um escravo tornar-se inferior ao de um cavalo.

 

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Capítulo extraído da obra:

Uma História do Povo Judeu, do saudoso Hans Borger, Editora Sêfer.

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