Pensamento Judaico

Remédio para o coração: fé

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Parada Cardíaca

Um ataque cardíaco pode ter diversas causas. Ele pode resultar da redução do fluxo de sangue que chega ao coração, causada pelo entupimento das artérias que o alimentam. Pode ocorrer também quando o coração, enfraquecido, não consegue bombear o sangue de forma adequada. Esses mesmos fatores de risco estão presentes na dimensão espiritual.

O coração tem um anseio firmemente arraigado de servir a Deus, mas os vasos através dos quais o “sangue” deste anseio deve ser transportado às vezes se entopem ou desgastam. Enquanto a pessoa não se despoja do excesso de “gorduras e colesterol” – desejos materiais – de seu sistema espiritual, os vasos não conseguem suportar a pressão da atividade de bombeamento do coração, e a “circulação sanguínea” fica poluída pelas impurezas dos maus pensamentos. Quando os atos do indivíduo são bons, em conseqüência de bons pensamentos, o coração permanece sadio. Pensamentos impuros, por outro lado, obstruem o sistema com más ações, provocando um “ataque cardíaco” espiritual.

Uma “parada cardíaca” espiritual pode acontecer quando diminui a determinação do coração de servir a Deus, em conseqüência de pensamentos impróprios. Estes pensamentos obstruem o coração, impedindo-o de fazer seu trabalho de maneira apropriada, o que leva, inevitavelmente, a um enfraquecimento – às vezes, até mesmo à cessação – da determinação de buscar a espiritualidade.

Como se pode evitar uma parada cardíaca espiritual? A compreensão da natureza da “doença” conduzirá à descoberta da “cura”.

Como vimos, a criação tem dois aspectos opostos: o bem e o mal. O coração dá forma e corpo aos pensamentos, possibilitando que as idéias se manifestem. Neste sentido, os pensamentos do homem são análogos ao ato da criação. Sempre que pensamos, devemos perceber que estamos realizando um ato de criação (ver Licutê Moharan I, 49:1). Por causa disso, o Rebe Nachman recomenda que não se deixe que as coisas saiam do controle. Com base no princípio de que tudo na criação tende a buscar sua fonte, ele ensina que o coração (Biná) também procura, por instinto, a sua fonte (Chochmá), de modo que o coração, por natureza, arde com um desejo devorador de servir a Deus. O perigo é que a pessoa queira subir a escada espiritual rápido demais, tentando ir além de suas possibilidades. Isso provoca um esgotamento ou “apagamento” espiritual – quando alguém que ainda não é capaz de absorver o conteúdo dos níveis espirituais que se empenha por alcançar reduz sua devoção; ou quando seu grau de observância das mitsvót é inadequado para a consciência espiritual que ele busca. Neste caso, seu coração desejoso não recebe nutrição prática suficiente para manter-se batendo de modo apropriado.

A cura pode ser encontrada no ato da criação. Deus formou os universos dentro do espaço esvaziado. Para cumprir o propósito da criação, foi necessário formar mundos inferiores, de diferentes níveis, que fornecessem um ambiente ao qual a alma pudesse descer para servir a Deus, apesar de Ele estar oculto. O homem, por sua vez, também funciona em diversos níveis. Seu coração “pensa”, e as funções mais baixas de seu corpo traduzem fielmente esses pensamentos em atos físicos. Se os pensamentos provenientes do coração forem bons, os atos físicos serão bons; maus pensamentos, por outro lado, gerarão más ações. A partir do momento em que as boas ações se manifestam, elas mantêm o coração em funcionamento constante, “proporcionando-lhe” um sentimento de realização que fortalece seu desejo de praticar boas ações.

Podemos ver que temos de cuidar de nossos pensamentos com muito zelo, pois cada um deles contém um potencial extraordinário. Bons pensamentos conservam a saúde espiritual do coração, de modo que ele pode continuar “batendo” de maneira equilibrada, ansiando por espiritualidade e, ao mesmo tempo, permanecendo sob controle para que não se “consuma” por ir além de sua capacidade (ver Licutê Moharan I, 49).


Remédio para o Coração: Fé

As medidas que devem ser tomadas para impedir uma parada cardíaca são assustadoras. Mas as dificuldades para evitar um ataque espiritual do coração são ainda maiores!

Como vimos, o Rebe Nachman ensinou que o coração corresponde ao espaço esvaziado. Neste espaço, há muitas questões que exigem respostas; porém, as respostas nem sempre aparecem. Isto se deve ao paradoxo do espaço esvaziado: “Deus está lá…” “Não está…” “Ele tem de estar…” Reina a confusão, e isto pode deixar o “coração pesado”, já que as perguntas que se originam desse paradoxo necessariamente excluem a possibilidade de solução. Como é muito difícil achar Deus nessas indagações, a pessoa deve apoiar-se na fé para “aliviar” o coração sobrecarregado, porque Deus existe até (e principalmente) onde há questões irrespondíveis. Mesmo alguém acometido por um “coração pesado” pode encontrar Deus, desde que se fortaleça com a fé (Licutê Moharan I, 64:6).

Perguntas relacionadas à fé, somadas a outros fardos, como problemas financeiros ou dificuldades em casa, pesam muito sobre o “coração compreensivo”. Esta pressão incessante contribui, com muita freqüência, para o surgimento de um quadro cardíaco instável. Às vezes, uma simples “mudança de dieta”, como a adoção de materiais de leitura que inspirem mais fé do que heresia, é suficiente para aliviar a pressão. Outros casos podem requerer “medicação” – uma dose diária de oração, por exemplo. Infelizmente, há ocasiões em que são necessárias “pontes de safena” ou outras cirurgias de “coração aberto”, que obrigam a pessoa a promover uma mudança radical em seu estilo de vida a fim de obter espiritualidade.

No próximo capítulo, veremos que as perguntas podem gerar um coração dividido. O Rebe Nachman ensinou que devemos fortalecer nossa fé para que possamos alcançar um estado de paz interior. Esta paz interior é a resposta para qualquer pergunta herética que surja no coração (ver Licutê Moharan I, 62:2).


Costuma-se erguer as mãos depois de lavá-las para comer pão, antes de enxugá-las. Quando o faz, a pessoa traz santidade aqui para baixo.

Orach Chaim 162:1; Sháar HamitsvótEkev

Há um versículo que afirma (Salmos 134:2): “Erguei vossas mãos com santidade e bendizei ao Eterno.” Isso indica que quando levantamos as mãos até os olhos ou a testa (isto é, a mente), apontando Chochmá, conseguimos fazer descer bênçãos para o coração (Biná) (ver Sháar HamitsvótEkev, p. 91).

O Rebe Nachman ensina que, embora a principal fonte de fé esteja no coração, a fé se transforma em convicção verdadeira quando se espalha pelo corpo todo (Licutê Moharan I, 91). O Rebe explica que seremos capazes de absorver santidade erguendo as mãos se acreditarmos que o ato de levantar as mãos produz esse efeito. É este o significado do seguinte versículo (Salmos 119:86): “Todas as Tuas mitsvót são fé” – devemos crer que, por meio da observância das mitsvót, trazemos a nós santidade dos céus. Desta maneira, estendemos a nossa fé para fora, do coração para as mãos (que são os “veículos” através dos quais fazemos descer influências do Alto). Assim, a pessoa pode espalhar sua fé de modo que o corpo inteiro a sinta e a transforme em fé verdadeira. Quem alcança a verdadeira fé efetivamente eleva seu intelecto a um nível no qual pode compreender de verdade o que antes só sabia pela fé. Este é o sentido da idéia de ser capaz de fazer descer santidade (Chochmá) para o coração (Biná).

A fé fortalece nossa capacidade de enfrentar as tribulações da vida, desde que estejamos dispostos a esforçar-nos para atingir esse nível. Desenvolver a fé não é uma tarefa fácil. Ela envolve o corpo inteiro.


Extraído da obra Anatomia da Alma, de Chaim Kramer
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