Contos e parábolas

Rabi Akiva: O meu e o teu pertencem a ela!

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Kalba Savua adquiriu este nome incomum graças aos seus atos incomuns.

Um homem rico, que detinha muitas terras, mas que era também generoso e hospitaleiro. Sua casa estava sempre aberta para todos os pobres e famintos. Quem entrasse em sua casa faminto como um cão, era o que se dizia, saía satisfeito.

Kalba Savua tinha uma filha modesta e talentosa, Rachel. Ele tinha esperanças de casá-la com um jovem talmid chacham, um estudioso da Torá. Mas Rachel escolheu o pastor de seu pai, Akiva. Ele era conhecido como um homem simples e pobre que nunca estudou a Torá.
Contudo, Rachel pensava diferente. Ela enxergou aquilo que os outros não viam: se ele estudasse, chegaria a um nível mais alto que todos os outros em sabedoria e retidão. Ela perguntou a Akiva: “Se eu me tornar a tua esposa, você começaria a estudar?”
“Sim” – respondeu ele. Ela não precisou de mais nada. Assim, casou-se com o simples pastor Akiva.

Quando Kalba Savua descobriu, deserdou a filha e mandou-a embora. Em sua necessidade, o jovem casal foi morar em uma cabana ao lado de uma fábrica de tijolos. A palha que era usada para a confecção dos tijolos era armazenada ali. Eles dormiam sobra a palha e cobriam-se com ela para manterem-se aquecidos.

Um dia, um mendigo bateu à porta de sua cabana.
“Por favor, me ajudem!” – chorou ele. – “Minha esposa acaba de dar à luz e não temos cobertas para manter a mãe e o bebê aquecidos. Vocês poderiam me dar um pouco de palha?”
De boa vontade, eles lhe deram um pacote de palha. Depois que o homem partiu, Akiva virou-se para a esposa e disse: “Você acreditaria nisso? Há pessoas em situação pior que a nossa. Esse homem nem mesmo tem palha!” Mal sabiam eles que aquele homem era ninguém menos que o profeta Elias, enviado para confortá-los em sua pobreza ao demonstrar que havia pessoas em situações piores que a deles.

Akiva concordou em partir para estudar Torá durante doze anos. Ele foi estudar com o rabi Eliezer ben Hurcanos e o rabi Iehoshua ben Chanania, deixando Rachel vivendo sozinha na pobreza. Concluídos estes doze anos, ele retornava para casa acompanhado de muitos alunos. Ele estava prestes a bater na porta, quando ouviu vozes vindas de dentro. Ele reconheceu a voz de uma vizinha maliciosa: “Veja, teu pai tinha razão quando a deserdou e a mandou embora. O teu marido é um inútil que a abandonou.”

Mas Rachel respondeu: “Se ele me perguntasse, eu diria a ele que ficasse mais doze anos na casa de estudos.”

O rabi Akiva não entrou, pois Rachel havia lhe dado a permissão para estudar por mais doze anos. Ele virou-se e retornou aos seus estudos.

Doze anos depois, ele era um sábio conhecido, com um rebanho de vinte e quatro mil alunos. Quando ele retornou para casa desta vez, estava acompanhado de todos eles. A cidade se preparou para receber o grande homem que viria viver entre eles. Uma grande multidão aglomerou-se na entrada da cidade, e todos avançavam para estar o mais próximo possível do justo.

Rachel saiu de casa e estava prestes a ir dar as boas-vindas ao marido que voltava, ao grande estudioso. Quando as vizinhas a viram, disseram: “Como você pode ir usando um vestido tão simples?” Ela retrucou: “Um grande homem como Akiva não desdenhará de mim, mesmo se eu vier vestida simplesmente.”

Ela o viu de longe e forçou o caminho ao tentar se aproximar. Quando chegou à frente, lançou-se aos seus pés. Os talmidim, os alunos que cercavam o rabino, tentaram afastá-la pensando se tratar de uma mulher comum, mas o rabi Akiva a reconheceu e disse para eles: “Deixem-na! Pois a vossa Torá e a minha Torá pertencem realmente a ela! Pois ela me inspirou a estudar; ela concordou em levar uma vida de sofrimento e privação para que eu pudesse estudar”.

Dentre os que estavam reunidos para homenagear o rabino, estava o distinto Kalba Savua, pai de Rachel. Ele viveu afastado da única filha durante vinte e quatro anos e esperava que o sábio pudesse anular sua promessa. E então ele também apareceu perante o rabi Akiva, sem saber quem era ele. Ele explicou ao sábio que arrependia-se sinceramente de ter feito o juramento, deserdando a filha de todas as suas posses.
O rabi Akiva escutou e, procurando um motivo válido por meio do qual pudesse cancelar o juramento, perguntou: “Se você soubesse que o marido dela iria estudar a Torá, ainda assim você lhe negaria sua ajuda?”

“Oh, não!” – Kalba Savua apressou-se a afirmar. – “Se ele tivesse estudado ao menos um capítulo ou uma halachá, uma lei, eu não teria feito tal promessa.”

“Se é assim, então a tua promessa está absolvida. Saiba que eu sou Akiva, teu antigo pastor, e marido da tua filha Rachel.”

(Adaptado do Tratado de Ketuvot 62b; Avot Derabi Natan 6:1)

Extraído do livro Contos de Tsadikim – Devarim, de G. Ma Tov.

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