Calendário Judaico História Judaica

Purim: histórico e atual

Celebrado em 14 de Adar, Purim comemora um episódio ocorrido aos judeus da Pérsia e descrito na Meguilat Ester, o Rolo (de pergaminho) de Ester.

É uma festa muito querida, por mostrar como uma situação desesperadora, que indicava como consequência a destruição de todos os judeus da Pérsia, transformou-se numa vitória contundente contra os inimigos do nosso povo.

Há cerca de 2.500 anos, após a destruição do Primeiro Templo, muitos judeus habitavam o império persa, a maior potência política e militar daquele tempo.

O rei daquela época, chamado Achasverósh (Assuero), resolvera exibir sua rainha (Vashti) para seus cortesãos durante uma celebração (na realidade, uma orgia). Ela, porém, não atendeu a seu chamado, e essa desobediência foi considerada um crime tão sério, que ela foi condenada à morte.

Na busca por alguém que a substituísse, entre as moças do reino, o rei se encantou por aquela que parecia ser a mais simples e verdadeira, a bela Ester, uma judia, sobrinha de Mordechai, o líder da comunidade judaica. Sem saber disso, o rei a desposou.

Certa vez, em meio a uma conspiração palaciana, Mordechai teve a oportunidade de salvar a vida do rei, pelo que se tornou credor de reconhecimento e recompensas por parte do rei.

O chefe dos ministros do rei, Haman, odiava Mordechai, que não se curvava ante sua presença, como faziam os demais súditos, e tramou a destruição de todos os judeus do império persa, ao fazer, perante o rei, a seguinte acusação:

“Existe um povo, espalhado e disperso entre os habitantes de todas as províncias de teu reino, cujas leis são diferentes das leis de todos os povos e que não cumprem aquelas promulgadas pelo rei, pelo que não convém tolerá-los. Se bem parecer ao rei, decrete-se, por escrito, que sejam todos mortos, e, através dos que executarem essa tarefa, pesarei 10.000 talentos de prata para que sejam recolhidos ao tesouro real.” (Ester 3:8-9)

O rei acede à solicitação de seu ministro, dizendo: “Seja tua essa prata, como também esse povo, para deles fazeres o que melhor for de teu agrado.”

São chamados os escrivães, que redigem o decreto real, com cópias a serem remetidas aos sátrapas e governadores de todas as províncias do reino, determinando o extermínio de todos os judeus e o saque de seus bens no dia 13 do mês de Adar (uma data escolhida aleatoriamente por meio de sorteio).

Ao tomar conhecimento do que se tramava, Mordechai rasga suas vestes, cobre-se de cinzas e envolve-se em panos de saco (como se fora uma mortalha) em sinal de luto, e senta-se junto ao portão do palácio, onde não pode entrar por estar vestido dessa forma.

Ester manda saber por que ele se comporta assim e é informada sobre o decreto, e Mordechai pede a ela que interfira junto ao rei para que cancele o decreto.

Ester argumenta que, se comparecer perante o rei sem ter sido chamada por ele, corre o risco de ser punida com a morte.

Mordechai remete a ela, então, uma mensagem, dizendo:

“Não penses que, por estar na casa do rei, somente tu escaparás dentre os judeus. Se te calares agora, de outra parte virá o socorro (uma referência à intervenção Divina), mas tu e a casa de teu pai perecerão; quem sabe, se não foi para trazer, neste momento, a salvação do nosso povo, que chegaste ao reinado?”

Em resposta, Ester pede que toda a comunidade jejue durante 3 dias e 3 noites, assim como ela e suas damas o fariam, para implorar a misericórdia Divina, e, então, ela se apresentaria perante o rei.

Ela consegue colocar Haman numa situação em que o rei percebe sua insaciável ambição e compreende que ele o fez assinar um decreto que condena à morte até mesmo sua amada rainha.

O rei ordena que, na forca que Haman mandara preparar para enforcar Mordechai, seja ele, Haman, enforcado, bem como seus 10 filhos, que eram tão malévolos quanto ele.

Entretanto, explica o rei, um decreto que ele assinara e, inclusive, já fora despachado para todas as províncias, não pode ser anulado. A solução encontrada foi a de emitir uma segunda carta real, autorizando, e mesmo ordenando, aos judeus de todo o seu império, que se organi-zassem e se defendessem, matando a quem os quisesse matar.

Os judeus rezaram e se prepararam, e, no dia aprazado, 13 de Adar, lutaram bravamente e infligiram uma fragorosa derrota aos que pretendiam destruí-los.

Celebrada em 14 de Adar, Purim é certamente a festa que mais alegria traz a todos os judeus, pois embora celebre especificamente esse evento, ocorrido por volta de 450 anos a.e.c., ela simboliza também o fracasso de muitas tentativas de destruição tramadas contra o nosso povo através da história.

Tudo isso está narrado de forma bem detalhada na Meguilat Ester, o “Rolo” de Ester, que é lido em todas as sinagogas na noite de 13 de Adar e na reza matutina do dia seguinte.

Cumpre ressaltar que, nos anos em que há dois meses de Adar (Adar Alef e Adar Bet), é no segundo que tem lugar a celebração.

O Livro de Ester não cita, em qualquer momento, o nome do Eterno, e tudo se passa como se os acontecimentos simplesmente se encaixassem, para alcançar um final feliz, como só acontece em romances e novelas.

Entretanto, não são meras coincidências que levam a história a esse resultado, e sim, o Eterno, escrevendo a história por caminhos não perceptíveis aos seres humanos, sempre a proteger o Seu povo e salvando-o, mesmo ante situações das quais não parece haver escapatória.

Haman escolheu a data de 13 de Adar para o extermínio do povo judeu por meio de um sorteio (Pur) e, por isso, deu-se a essa festa o nome de Purim.

Cada festa judaica tem suas mitsvot específicas, e as de Purim são as seguintes:

1. No dia anterior a Purim, realiza-se um jejum de 12 horas (do nascer do sol até o surgimento das primeiras estrelas), conhecido por Taanit Ester, em recordação ao jejum que ela manteve antes de se dirigir ao rei para empreender sua ação salvadora.

2. O acompanhamento da leitura da Meguilá na noite da véspera (maariv) e na manhã (shacharit) do dia 14, como já citado.

3. É também obrigação remeter pelo menos dois alimentos diferentes a pelo menos um amigo, como recomendou Mordechai na própria Meguilá.

Na época de Ester, cada um dizia: “Se eu não sou merecedor da salvação do Eterno, talvez meus amigos o sejam”. E, por isso, lhes remetiam presentes. Esse continua a ser, de certa forma, o sentido de Mishlôach Manot (remessa de presentes).

4. Contribuições para os necessitados ou para instituições que os atendem são aumentadas nesse dia.

5. Participação na Seudat Purim (refeição festiva de Purim), que deve começar antes do anoitecer de 14 de Adar.

Essas mitsvot são decorrentes da carta dirigida por Mordechai a todos os judeus, conclamando-os a manter, dessa forma, através dos tempos, a recordação desses acontecimentos.

Um doce de formato triangular composto de massa recheada de guloseimas, chamado Humentash (chapéu de Haman) ou Oznê Haman (orelha de Haman) é feito especialmente para essa ocasião.

Se Purim vem a cair num domingo, o jejum é antecipado para a quinta-feira.

O Shabat que antecede Purim é chamado de Shabat Zachor (Sábado da Recordação). Nele se lê um trecho do Deuteronômio, onde está escrito:

Recorda-te do que te fez Amalec no caminho quando saíeis do Egito, que te encontrou pelo caminho e feriu todos os enfraquecidos que ficavam atrás de ti, e tu estavas sedento e cansado, e Amalec não temeu a Deus. Quando, pois, o Eterno, teu Deus, te der descanso de todos os teus inimigos em redor, na terra que o Eterno, teu Deus, te está dando por herança para possuí-la, apagarás a memória de Amalec de debaixo dos céus; não te esquecerás.

Como Haftará lê-se um trecho de 1 Samuel 15:1-34, que fala sobre a batalha contra os amalekitas. A razão dessas escolhas é que a nossa tradição nos conta que Haman, o Agaguita, era descendente desse povo – Amalec –, cujo rei, na época de Samuel, chamava-se Agag.

Em atenção à recomendação de “apagar a memória de Amalec”, costumava-se escrever seu nome na sola dos sapatos e esfregar no chão a cada vez que era pronunciado o nome de Haman. Outro costume que havia, principalmente na França, era escrever o nome de Haman sobre pedras bem lisas e, esfregando-as ou batendo uma na outra, apagar o seu nome.

Hoje em dia, costuma-se distribuir matracas e apitos, principalmente entre as crianças presentes à leitura da Meguilá, para que, com o ruído produzido a cada vez que esse nome é pronunciado, ele seja abafado.

A Meguilá é mantida enrolada sobre uma haste, de forma semelhante à Torá, mas, para ser lida, ela é desenrolada e dobrada em 4 partes, como se a leitura fosse feita da carta remetida por Mordechai a todas as províncias. Há uma melodia especial, usada só nessa ocasião, com que são pronunciadas as palavras da Meguilá. Antes da leitura, são feitas 3 bênçãos, e depois dela, mais uma.

Nessa festividade, abranda-se a restrição sobre beber quantidades de vinho maiores que as habituais.

Há um comentário do sábio Ravá que diz, inclusive, que se deve beber até não se distinguir entre “Abençoado seja Mordechai” e “Amaldiçoado seja Haman”. Uma explicação para essa recomendação não é de que é permitido embebedar-se nessa ocasião, mas, sim, o que se segue:

A presença do Eterno na condução da história dos povos é percebida tanto pela bênção que concede aos justos, quanto pela maldição que faz recair sobre os malévolos. Em Purim, além da salvação alcançada naquela época e naqueles dias, recordamos das tantas e tantas outras com as quais o Eterno nos brindou, e nosso coração se enche de tanta alegria, que percebemos Sua presença – não pela maldição aos malévolos, mas somente pelas bênçãos que concede aos que trilham Seus caminhos.

Em algumas comunidades, costuma-se também encenar peças cômicas alusivas aos acontecimentos de Purim ou a outras passagens bíblicas. Fantasias e máscaras são usadas pelas crianças, e até mesmo por adultos, e são feitos concursos para a escolha da Rainha Ester, e a vitória é atribuída pela roupa mais engraçada, pela máscara mais original ou, ainda, pela escolha de alguém a quem a comunidade queira homenagear.

Apresentamos abaixo uma versão livre de uma prece escrita originalmente por Morris Silverman, a ser pronunciada em Purim:

Ó, Senhor!

És a Esperança que anima todas as nossas gerações, e a Ti rendemos graças, celebrando a libertação que trouxeste a cada uma delas.

Quando Haman nos pretendeu destruir, Tu velavas por nós, e fizeste fracassar seus desígnios malévolos, salvando-nos da morte que ele nos queria trazer.

Também em nossos dias confiamos em Teu poder salvador, pois sabemos ser Tua determinação que o mal seja sempre vencido e que a justiça prevaleça.

Mantém-nos sempre no caminho da retidão, para que tenhamos merecimentos que impeçam qualquer mal de florescer contra nós.

Inspira-nos, como a Mordechai em dias passados, a não esmorecermos em nossa devoção a Ti.

Faze que, como Ester, estejamos sempre dispostos a lutar por nossa fé, ainda que com o risco de nossas vidas.

Faze-nos compreender que, mesmo vivendo em segurança e abundância, devemos sentir, como nosso, o sofrimento de nossos irmãos, onde quer que estejam.

Que não tarde a chegar o dia em que toda a opressão tenha cessado; as tiranias, para sempre tenham sido banidas da terra, e os povos mais diversos saibam conviver em paz e harmonia.

Será quando, então, os seres humanos se amarão uns aos outros, servindo, assim, da melhor forma, a Ti, ó Eterno, Criador da vida, do amor e da paz.

++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

Extraído da obra
Na Espiral do Tempo – Uma Viagem pelo Calendário Judaico,
de David Gorodovits

Clique e confira.

Comentário