Estudos Bíblicos História Judaica

O que aconteceu depois da abertura do Mar Vermelho

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Não foi fácil para Moisés conseguir afastar o povo da praia do milagre.

Moisés tinha que tirar o povo de perto do Mar Vermelho, onde o milagre da travessia havia sido vivenciado. A conjugação de uma palavra específica no texto bíblico indica-nos a relutância do povo em se afastar do local do grande milagre:

“E fez partir Moisés a Israel do Mar Vermelho, e saíram ao deserto de Sur.”

Êxodo 15:22

A expressão “fez partir” demonstra com clareza que Moisés teve que levá-los contra sua vontade.

O povo de Israel estava assombrado e impressionado com a força do evento que acabara de viver: o mar sendo partido ao meio para que seus integrantes pudessem atravessá-lo, fechando-se em seguida para impedir a passagem dos egípcios que os perseguiam. E na beira da praia, diante do mar que o havia salvo e da armada egípcia que se afogava, o povo estava assombrado, e seu assombro se transformou em um canto: o Cântico do Mar (Êxodo 15:1-21). E mesmo assim surgiram problemas e reclamações, incompreensíveis no contexto das maravilhas que haviam ocorrido.

A leitura do ocorrido apenas aumentará nosso espanto:

“E andaram três dias pelo deserto e não acharam água.
E vieram a Mará e não puderam beber as águas de Mará porque eram
amargas … e queixou-se o povo a Moisés dizendo: Que beberemos?”

Êxodo 15:22-24

A questão que surge da leitura do episódio das águas amargas (e do episódio da falta de comida logo a seguir) possui dois aspectos: um referente a Deus e outro ao povo de Israel.

O primeiro aspecto é saber porque Deus dificultou a vida do povo. Por que Ele, o Todo-poderoso, que mostrou ao povo Seu completo domínio sobre a natureza através das dez pragas do Egito e da abertura do Mar Vermelho, não forneceu água sem criar empecilhos? Por que esperou que fossem assolados pela sede e pelas reclamações naturalmente decorrentes? Este povo não havia sofrido o suficiente? Para que criar uma nova situação de tensão se havia chegado a hora da redenção?

Por outro lado, o comportamento pessimista e precipitado do povo também nos causa espanto. Ele tinha acabado de presenciar a derrota total de seus inimigos egípcios e a destruição da terra de seu cativeiro, e ainda tinha vivenciado o milagre da travessia do Mar Vermelho, o qual deu à sua fé um brilho comparável ao do cristal puro, tanto que a própria escritura testemunha que “viu Israel o grande poder que exerceu o Eterno sobre os egípcios e temeu o povo ao Eterno e creram no Eterno e em Moisés, seu servo” (Êxodo 14:31). Portanto, é surpreendente que tal fé tenha-se volatilizado com o primeiro contratempo que atingiu o povo. Mais grave ainda é a forma como o povo expressou sua nostalgia pelos prazeres do Egito durante o episódio do maná:

“Quando estávamos sentados junto às panelas de carne,
quando comíamos pão a fartar; e foste nos trazer a este deserto
para matar toda esta congregação com a fome.”

Êxodo 16:3

Por que motivo o povo encarava o futuro de modo pessimista? Por que ele não se lembrou, baseado no que acabara de ocorrer, que Deus, ao menos nesta fase, encontrava-se ao seu lado e lhe estenderia a salvação no devido momento? Qual seria a razão das reclamações e lamentos?

Estamos nos estendendo propositadamente nas questões acima, pois na história destas reclamações e nos episódios da água amarga e do maná, oculta-se toda a verdade bíblica e a visão desta sobre o papel do homem no mundo. A chave para a compreensão encontra-se no seguinte versículo:

“E clamou ao Eterno e mostrou-lhe o Eterno uma árvore,

e jogou-a nas águas e adoçaram-se as águas.

Ali deu-lhe (Deus ao povo) estatutos e leis, e ali o provou.”

Êxodo 15:25

Um versículo construído de forma estranha, pois trata de três assuntos aparentemente sem relação entre si. O primeiro é a transformação da água salgada em água doce por meio de um tronco de árvore, o segundo é o anúncio da aplicação de alguma lei sobre o povo, e o terceiro é introduzido por uma única palavra que fala sobre algum tipo de prova à qual o povo foi submetido.

Apesar de aparentemente estranha, a união destes três assuntos em um único versículo é um indício de que estão interligados. Entendemos assim que a dessalinização das águas depende de algum modo de estatutos e leis que, por sua vez, dependem de algum tipo de prova cuja natureza devemos decodificar.

Qual o significado bíblico do verbo “provar” e qual seu sentido neste contexto? A resposta nos é fornecida pelo Rabino Hirsch:

“Provar, experimentar, testar e também exercitar: todo exercício é uma tentativa de solucionar algum problema que ainda não tenha sido total ou satisfatoriamente resolvido. Como, por exemplo, na luta entre David e Golias descrita em I Samuel 17:39, quando David retira de seu uniforme a espada, pois não exercitou-se em seu uso: ‘Não posso andar com isto pois nunca a usei (experimentei)’. Neste versículo e ao longo de toda a caminhada no deserto, podemos interpretar a palavra ‘provou’ com o seguinte sentido: ‘Deus quis exercitar seu povo na observância de seus mandamentos, através das experiências a que o submeteu’.”

As águas amargas com as quais o povo se deparou no deserto não foram nada mais do que um teste pelo qual este deveria passar. Tal teste destinava-se a avaliar a consistência de seus valores e a força de sua fé em Deus e em Suas palavras, estas últimas conhecidas à beira do Mar Vermelho. Percebemos, assim, que esta experimentação contínua é lei e estatuto para o povo judeu.

Entendido o sentido literal do texto, resta-nos explicar seu significado interior e espiritual. Por que motivo a relação entre Deus e os homens deve ser baseada na experimentação contínua do homem? Qual o benefício de Deus decorrente deste tipo de relação?

A necessidade do homem ser examinado constantemente não traz qualquer tipo de benefício a Deus, mas sim ao homem. Aquele que conhece o espírito da Torá sabe que as provas e necessidades passadas no deserto, assim como em toda a Bíblia e na vida de modo geral, têm o único objetivo de libertar o homem e capacitá-lo a agir com total liberdade espiritual em seu mundo. Uma liberdade que deriva da liberdade do próprio Eterno, o qual imprimiu no homem um lampejo de sua essência misteriosa: a alma.

Esta situação foi bem descrita pelo filósofo judeu alemão Franz Rosenzweig:

“Deus deseja homens livres. Seu Reino é oculto aos olhos. Mas isto não basta para diferenciar o homem livre do escravo… Deus, em sua vontade de distinguir entre as almas, não só evita causar prazer como provoca dor. Aparentemente Ele não tem alternativas: precisa provar o homem. Não apenas tem de ocultar o Seu Reino, como deve criar locais que possam confundir o homem em sua busca pelo Reino Divino, até que se suponha invisível. Isto para que possa ter fé verdadeira em Deus, ou seja, crer e confiar Nele por livre iniciativa.”

A Estrela da Redenção

Quando é posto à prova, o homem descobre haver discrepância entre sua fé e seu comportamento. Pode, por exemplo, acreditar piamente na necessidade de “amar ao próximo como a si mesmo” e não estar disposto, de forma alguma, a auxiliar ao próximo nos conflitos que lhe são impostos cotidianamente. O instinto de sobrevivência o escraviza, impedindo-o de agir de acordo com sua consciência. Após a travessia do Mar Vermelho, o povo de Israel também estava convencido que sua fé era vigorosa e eterna, assim como todas as implicações decorrentes dela. E eis que na prova da água descobriram não ser este o caso, pois eram escravos das dificuldades impostas pelas condições ambientais adversas. A própria descoberta desta situação é um ato de libertação, que desperta a esperança de que possam suportar a prova de forma mais digna na próxima oportunidade e de que seus espíritos desatem, ao menos parcialmente, os laços que os mantém atados aos instintos. Assim, cada prova consiste em um exercício adicional, um tipo especial de ginástica espiritual que fortifica os músculos da alma e modela o espírito do homem, como este é entendido na Bíblia, sendo esta liberdade a razão da existência do homem no mundo.


 Texto extraído da sensacional obra Reflexões sobre a Torá, de Moshe Grylak.

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