Calendário Judaico

Judaísmo é educação: José e Chanucá

José e Chanucá

Se observarmos vários calendários judaicos de quaisquer anos, vamos notar que a festa de Chanucá que, como sabemos, dura oito dias, pode abranger um ou dois Shabatot. Quando há apenas um, na maioria dos casos, esse Shabat é o da Parashat Mikêts. Quando há dois, sempre o primeiro é o Shabat da Parashat Vayêshev (e nesse caso acendemos a primeira vela antes das velas de Shabat) e o segundo é da Parashat Mikêts (o último dia de Chanucá, quando acendemos as oito velas da Chanukiá, antes das velas de Shabat).

Seja como for, Chanucá sempre cai nas parashiot que contêm os capítulos que narram o início da história de José.
O judaísmo, como se sabe, não concebe o acaso. Não pode haver, portanto, nenhuma coincidência no fato de Chanucá e José estarem conectados pelo calendário.

Não pode ser aleatório acendermos as velas da chanukiá nos mesmos dias em que lemos a saga de José nos rolos da Torá. A questão a ser levantada é: por que é assim? Que relação há entre a incrível história do rapaz que, vendido pelos irmãos como escravo, virou vice-rei do Egito e o também impressionante triunfo dos Chashmonaim (os Macabeus) sobre o poderoso exército grego? Examinemos alguns aspectos de cada um desses episódios ímpares da história judaica para tentar encontrar algum elemento de ligação significativo entre ambos.

O “segredo” de José

Comecemos por José. Repassemos, em resumo, a sua história:

José nos é apresentado como protagonista “na flor da idade”; foi o primeiro filho que Rachel, a amada esposa de Jacob, que deu à luz depois de anos de sofrimento estéril. A Torá testemunha que José era o predileto de seu pai, pois recebia mais atenção e cuidados, representados materialmente pela famosa kutónet passim (“túnica talar”). Sendo um filho tão especial para seu pai, José talvez tenha sido mais mimado do que seus irmãos, e estes últimos passaram a odiá-lo, com ciúmes. José, por sua vez, não tomava atitudes que minimizassem esse ódio. Ao contrário, com uma postura provocativa (que, às vezes, parecia inocente e às vezes vaidosa e prepotente), trazia más notícias infundadas de seus irmãos a seu pai e revelava a toda a família seus sonhos altamente sugestivos, em que sempre aparecia como o dominante e centro das atenções. Na sequência, depois de cogitarem até mesmo o seu assassinato, os irmãos decidem vendê-lo a uma caravana de mercadores, que o levaram ao Egito como escravo.

Imaginemos o sofrimento do rapaz! Provavelmente sentia uma mistura de sensações ruins: desilusão, frustração, insegurança, pavor. A Torá não faz referência aos sentimentos de José, mas uma coisa é certa: ele precisou amadurecer de repente. Sua adolescência mimada e protegida acabou de um dia para o outro; sua redoma de segurança e carinho havia se quebrado. Depois de um breve intervalo (que trata da reação de Jacob à notícia falsa da morte de José e do episódio de Judá e Tamar), a Torá já nos conta que ele está no Egito trabalhando como escravo na casa do Potifar. Deus o ajudava a prosperar, a tal ponto que seu amo o designa responsável por toda a administração de sua casa.

Quando lemos esses trechos, nossos corações ficam contentes e aliviados, pois vemos que a “sorte”, pouco a pouco, volta a lhe sorrir. Porém, algumas linhas adiante, nós nos frustramos mais uma vez. José passa por um teste dificílimo e, moralmente bem-sucedido, recebe como prêmio a prisão! Belo rapaz que era, acaba sofrendo um verdadeiro assédio sexual insistente de ninguém menos que a própria esposa de seu amo. Em outra cena bem famosa, numa de suas investidas, a mulher acaba com uma peça de roupa de José nas mãos e, cansada das negações, usa essa roupa como prova para acusá-lo de tentativa de adultério. O Potifar, obviamente, crê em sua esposa e José vai, literalmente, mais uma vez, ao fundo do poço. Tanto nesse episódio quanto no seguinte, quando José decifra os sonhos dos ministros do Faraó na prisão, percebemos, pelo texto bíblico, que José não perde, em nenhum momento, sua fé em Deus, e invoca Seu Nome tanto para fugir do assédio quanto para revelar os significados dos sonhos.

Que personalidade impressionante tem José! Que fibra! Que fé! Reflitamos: será que, em seu lugar, teríamos mantido a lucidez, os princípios e a fé? Como teve condições de superar o trauma de sua venda como escravo por seus próprios irmãos? Com que forças foi capaz de resistir à tentação na casa do Potifar? De que forma não perdeu sua confiança em Deus depois de tantas desilusões? Afinal, hoje em dia, muitos de nós nos damos o direito de nos revoltarmos contra tudo e contra todos por muito menos! Qual o segredo de José?
Nossos Sábios têm uma resposta muito interessante e importante para essas perguntas. Para eles, o segredo da “boa cabeça” de José é o seu “berço”! A força e a fidelidade desse jovem aos seus princípios e à sua fé provêm da educação que recebera, da sólida formação de seu caráter, e dos costumes e tradições vivenciados na casa de seus pais. Mais que isso: no caso de José, houve um tratamento mais cuidadoso e dirigido em sua formação. Dizem nossos Sábios que Jacob sentiu a necessidade de transmitir, em especial para José, os ensinamentos que ele mesmo havia recebido de Shem e Éver,141 durante 14 anos, depois que fora obrigado a fugir de seu irmão Esaú e antes que fosse morar na casa de Lavan.

Ou seja, pressentindo que José teria um futuro parecido com o seu passado, numa longa e dura experiência longe de casa, em lugares com escassez de Yir’at Shamáyim (Temor aos Céus), e seguindo as orientações posteriormente registradas nas palavras do Rei Salomão – “Educa o moço de acordo com seu caminho (natureza)” (Provérbios 22: 6) –, Jacob preparou-o de forma mais cuidadosa, num nível ainda mais elevado que o da excelente educação que proporcionara a todos os seus filhos.

É isso, então. Encontramos o nosso elemento comum: a educação judaica; o Chinuch.

Chanucá e Chinuch

A festa de Chanucá também está intimamente vinculada ao Chinuch, tanto pelos acontecimentos propriamente ditos que comemoramos quanto por meio do nome da festa, que por si só merece uma atenção especial. Muitas pessoas acreditam que o âmago da comemoração de Chanucá está no famoso milagre do pach hashémen (pote de óleo) que, contendo azeite para manter as lamparinas da Menorá acesas por apenas um dia, sustentou suas chamas por oito: enganam-se. A festa foi instituída por nossos Sábios para celebrar a milagrosa vitória na guerra contra os gregos. Uma vitória não só no campo de batalha corporal, mas também no campo das ideias. Claro que o milagre do azeite teve um significado importante em todo o contexto, porém, por um viés muito mais simbólico no desfecho feliz da superação do inimigo.

Como se sabe, o domínio grego sobre os judeus teve uma característica peculiar própria. Os gregos não queriam o extermínio físico dos israelitas, queriam assimilá-los. Queriam impor sua cultura, sua mentalidade; o que haviam conseguido com vários dos povos que haviam vencido: helenizá-los. Uma realidade muito parecida com a nossa, atual – uma época na qual os judeus possuem seu próprio Estado, reconhecido pelas nações, cuja existência os protege em quase todas as diásporas (quer eles saibam, queiram ou não) de ameaças físicas, mas não de perigos espirituais. Apesar do conflito com os árabes e das ações terroristas, possíveis em qualquer parte do globo, o povo judeu não corre, hoje em dia, o risco de genocídio, como num passado tão recente. Atualmente, assistimos a um fenômeno, por incrível que pareça, mais devastador em termos da continuidade de Israel: a assimilação aos valores da modernidade contrários à Torá – um processo que os estudiosos do assunto chegam a apelidar de “Holocausto Branco”.

Tanto no passado quanto no cenário atual, a única providência a ser tomada, o único antídoto para essa enfermidade que se espalha em proporções epidêmicas, é o Chinuch. Foi, sem dúvida nenhuma, a educação judaica que Matitiahu142 deu a seus filhos que os transformou nos Macabim (Macabeus); a exemplo do que ocorreu com José, foi o berço judaico que deu força a toda a resistência macabeia que não se deixou seduzir pelos modismos ideológicos, avessos aos verdadeiros e puros caminhos da fé judaica legítima, oriundos da Torá.

Por que “Chanucá”?

Qual a origem do nome Chanucá? Diferente de todas as outras festas judaicas, bíblicas ou não, o nome escolhido para a também chamada “Festa das luzes” não possui ligação direta e clara nem com a vitória militar nem com o milagre das velas da Menorá. Essa curiosidade é confirmada pela variedade de respostas e explicações dadas a essa questão, na tentativa de esclarecer a relação entre o termo e os fatos da comemoração.

A solução mais comum encontrada nos escritos dos sábios é a combinação Chanu – CA; ou seja, a palavra seria formada pelo verbo chanu (pararam ou estacionaram) e o número 25 (valor obtido pela junção das letras Caf e Hê, 20 + 5), o dia da vitória definitiva, no mês de Kislev do ano 3595 (165 a.e.c.).143 Rishonim, como o Shvilê Haléket, o Avudraham, o Ran e o Tur trazem essa opinião com pequenas variações em seus comentários. O Maharshá e o Bach questionam se essa chanaiá (parada) seria referente ao descanso da guerra ou à suspensão de melachá (trabalho ou atividade criativa); ambos opinam se tratar do segundo caso. O Levush, por outro lado, vincula a “parada” ao conflito bélico. Concordam com ele o Peri Chadash, o Birkê Iossef e o Divrê Nechemia.

Há quem acrescente outro motivo; Chanucá seria um acróstico: Chêt – Nerot – Vê halachá – Kevêt – Hilel (oito velas e a lei de acordo com Bêt-Hilel),144 uma alusão à regra de se acender as oito velas da Chanukiá em ordem crescente, em oposição à opinião de Bêt Shamai, segundo a qual devia-se começar com oito velas e seguir em ordem decrescente. Citam esse motivo o Avudraham, o Atéret Zekenim e o Peri Megadim.
O Maharshá traz ainda uma terceira explicação. Um dos significados da palavra Chanucá é inauguração. De acordo com o sábio, a festa recebeu esse nome pela inauguração do novo Mizbêach Haolá (o altar dos sacrifícios), já que o antigo havia sido profanado com idolatrias pelos gregos. Outra inauguração ligada à data de Chanucá não chegou a ocorrer de fato. De acordo com a tradição, os trabalhos de construção do Mishcan (o Tabernáculo)145 se encerraram em 25 de Kislev (a inauguração foi adiada para o dia 1o de Nissan). Alguns sábios viram, nessa combinação, outro motivo para o nome Chanucá.

Por fim, sábios da Cabalá revelam que, no momento do acendimento das velas de Chanucá, a cada vela acesa por cada iehudi ou família judia, um pouco do Or Ganuz (a “Luz Oculta” que vai chegar à sua plenitude na era messiânica) é irradiado. Um fenômeno que tais sábios místicos chamam de Chinuch Lagueulá Haatidá (a preparação para a Redenção Futura). E aqui encontramos uma sutil alusão ao elemento de ligação entre Chanucá e José: o Chinuch, a preparação – uma expressão do mecanismo da educação embutido no nome da “Festa das Luzes”.

 

Extraído de Ensaios sobre a Torá – Bereshit, Ruben Rosenberg, 2007, Editora Sêfer.

 

141 Dois sábios que eram especialistas em resistência espiritual às más influências em meios corrompidos e moralmente degradados; eram contemporâneos das gerações do Dilúvio e da Torre de Babel e haviam desenvolvido métodos de proteção no convívio em ambientes nocivos aos olhos de Deus.
142 Matitiahu ben Iochanan, sumo sacerdote, patriarca dos macabeus, foi o líder da resistência judaica contra os gregos.
143 Antes da era comum.
144 Hilel e Shamai, proeminentes tanaim (Sábios da Mishná), eram contemporâneos e divergiam em muitas questões judaicas legislativas, assim como seus discípulos, que formaram a Bêt Hilel e a Bêt Shamai (“Casa de Hilel” e “Casa de Shamai”). Em geral, a halachá (a lei judaica) segue as orientações de Bêt Hilel.
145 O templo temporário, desmontável, que Deus ordenou que fosse construído no deserto do Sinai, para ser erguido em todas as estações, no centro dos acampamentos de Israel.

Comentário