História Judaica

O Ponteiro dos Minutos da História

Os últimos dias que faltavam até 15 de maio, a histórica data em que finalizaria o mandato, foram testemunhas de uma série de manobras e contramanobras políticas, cuja complexidade ia aumentando. Uma poderosa coalizão composta por defensores dos interesses petroleiros britânicos e pró-árabes, que incluía certos funcionários do governo norte-americano, efetuou uma derradeira tentativa de impedir o nascimento do estado judeu.

Em numerosas conversas particulares realizadas em Lake Success, Nova York e Washington, certos representantes do Departamento de Estado norte-americano exerceram a maior pressão possível sobre dirigentes judeus, num esforço destinado a persuadi-los para que não proclamassem o estado. Expressaram veladas ameaças de uma possível má vontade norte-americana, além de rigorosas sanções econômicas. Tampouco a Casa Branca era totalmente alheia a esse esforço. Segundo meus informes, em determinado momento foi oferecido o avião pessoal de Truman, “a Vaca Sagrada”, aos membros do Comitê Executivo da Agência Judaica, que na ocasião se encontravam nos Estados Unidos, para transportá-los a Jerusalém, se concordassem em discutir com seus colegas a possível postergação da proclamação da independência. Mas tanto a proposta como o avião foram recusados.

Informações particulares que recebi mais tarde asseguravam que o Sr. Truman havia declarado que, se não encontrassem outra solução antes do fim do mandato, e se fosse proclamado o estado judeu, o governo o reconheceria. Confesso que não dei muito crédito a essa informação. Claro que sabia que o Presidente Truman abrigava boas intenções. Não deixava de perceber que os Estados Unidos tinham interesse em efetuar um pronto reconhecimento, pois, com tal passo, recuperariam, perante todos os povos interessados em conservar a eficácia das Nações Unidas, parte do prestígio perdido por suas vacilações anteriores. Além disso, seriam elas e não a União Soviética quem encabeçaria a lista das nações do mundo para o reconhecimento do novo estado.

Mas eu não podia sentir menos dúvidas sobre esse particular. Conhecia o poder das forças que se opunham ao estado judeu dentro do próprio governo norte-americano. Infelizmente, os acontecimentos pareciam justificar as minhas dúvidas. Em 13 de maio, faltando só 38 horas, o doutor Jessup apresentou, na Nona Subcomissão, um projeto de resolução baseado no memorando Moe. Apesar de que deixava de lado o fideicomisso, continha três parágrafos extremamente inquietantes. Primeiro, aludia à resolução do Conselho de Segurança pelo qual se pedia aos judeus e árabes que não empreendessem uma ação política enquanto o problema palestino estivesse em estudos no Conselho. Segundo, fazia referência ao “futuro governo” da Palestina, o que implicava que as Nações Unidas ainda podiam impor um regime governamental e que tal regime poderia ser unitário, em franca contradição com nossa resolução da partilha. Terceiro, alarmava-me o nome sugerido para um representante das Nações Unidas, que a delegação norte-americana propunha para que se designasse como negociador entre judeus e árabes na Palestina. Chamar-se-ia “Comissário”. Considerei que esse título parecia extremamente impróprio, porque poderia implicar para o mundo em geral que o representante das Nações Unidas seria administrador do país; além disso, para os judeus e os árabes, o nome teria uma conotação particularmente lamentável. O representante do poder estrangeiro que havia regido os judeus e os árabes na Palestina durante mais de um quarto de século levava o título de “Alto Comissário para a Palestina”.

Firmei minha oposição a essas três recomendações. Os membros polonês e soviético de nossa subcomissão opuseram-se em particular a um quarto parágrafo que pedia que a Comissão Palestina suspendesse seu trabalho. Essa proposta não me inquietava muito, porque esperava que o estado judeu nascesse para a vida por seus próprios meios e não pela graça e pelos bons ofícios da Comissão; mas me opus também à sua aprovação em reconhecimento à luta valente e franca em favor da partilha, empreendida pelos membros da Comissão, particularmente pelos representantes do Panamá e da Bolívia, Raúl Diez de Medina.

Discutimos o dia inteiro e, finalmente, pudemos trocar o título do representante das Nações Unidas. Agora seria “Mediador”. Em vez de referir-nos a um “futuro governo da Palestina”, autorizamos o Mediador a “gerenciar um arranjo pacífico” da situação nesse país, e pudemos suprimir toda a menção da decisão do Conselho de Segurança sobre a ação política. O parágrafo que suspendia a Comissão Palestina foi derrotado por seis votos contra cinco, mas a representação norte-americana negou-se a aceitar a derrota e anunciou que a apresentaria novamente perante o Comitê Pleno. Então, tive a certeza de que a Comissão estava condenada a desaparecer. Os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e os estados árabes controlavam um número suficiente de votos com o objetivo de impor sua vontade.

O projeto de resolução que finalmente seria apresentado à Assembleia Geral e que, para falar com franqueza, foi virtualmente o único produzido por essa Segunda Assembleia Especial seguia os contornos gerais do documento de Moe. O Mediador empregaria seus bons ofícios perante as duas partes interessadas, disponibilizaria o funcionamento dos serviços públicos comuns necessários para a segurança da população e asseguraria a proteção dos Lugares Santos. Na realidade, com isso, assumiríamos as funções da Comissão de Trégua, criada previamente pelo Conselho de Segurança, pois esse organismo poderia ter escolhido um mediador sem necessidade de contar com a resolução da Assembleia Geral.

Por tão pouco, havia sido convocada a Assembleia Geral! Por tão pouco, foram gastos mais de um milhão de dólares! O fracasso das tentativas norte-americanas, nessa Segunda Assembleia Especial sobre a Palestina, demonstrou, como eu havia dito ao meu amigo poucas noites antes, que nenhum homem, nenhum poder, nem sequer o poder mais alto do mundo, poderia deter ou desviar facilmente um processo histórico.

O dia seguinte, 14 de maio, foi um dia predestinado. A Comissão Política reuniu-se para considerar os trabalhos da nossa Subcomissão e para tratar de uma proposta elaborada por outra subcomissão que recomendava uma administração temporária para Jerusalém. Novamente, os delegados entoaram extensos discursos. Os eslavos atacaram o regime provisório de Jerusalém; queriam que fosse dada validade ao projeto de fideicomisso, contemplado na resolução da partilha de 29 de novembro. Os árabes, como de costume, se opuseram a tudo.

O doutor Arce, da Argentina, como presidente, iniciou, às cinco da tarde em Flushing Meadows, a última sessão da Segunda Assembleia Especial. Faltava uma hora para o fim do mandato. Começamos a votar. O regime para Jerusalém acabou derrotado; aprovou-se a designação do Mediador, e estava sendo votada em particular enquanto o ponteiro dos minutos da História se aproximava lentamente da hora culminante, seis da tarde.

Poucos minutos mais tarde, a Assembleia Geral se encontrava na mais extrema confusão.

Um jornalista me transmitiu notícias assombrosas: exatamente às 6h22, o secretário do Presidente Truman reuniu os jornalistas destacados na Casa Branca para anunciar-lhes que os Estados Unidos haviam reconhecido o Governo Provisório de Israel. Esse governo, proclamado às 4h00, hora palestina, nasceria para a vida às 12h01 da tarde do dia 15, isto é, às 6h01 p.m. – horário de verão na zona oriental da América do Norte.

Naquele momento, ninguém mais prestava atenção aos discursos na tribuna. Os representantes abandonavam seus locais e circulavam por toda a sala, tratando de confirmar a informação. Por toda a parte havia agitadas discussões, e os rostos dos presentes refletiam assombro, deleite, amargura, dependendo de como lhes tinham afetado as notícias.

Os representantes norte-americanos ficaram sentados em seus postos, tão surpresos como qualquer um de nós. Não sabiam de nada, não lhes havia chegado nenhuma notícia oficial. O barulho e a comoção que reinavam nos corredores exteriores iam aumentando, mas, na enorme sala, nós continuávamos discutindo os méritos da proposta do Mediador. O assunto não podia continuar sendo ignorado por muito tempo. Finalmente, o doutor Alberto González, da Colômbia, dirigiu-se à tribuna e perguntou, francamente:

— Desejo que a delegação dos Estados Unidos informe sobre a veracidade do comunicado divulgado na sala de imprensa, com respeito ao reconhecimento do Estado de Israel pelos Estados Unidos.

O senador Austin não estava presente naquele momento; em seu lugar respondeu Frances B. Sayre, da mesma representação:

— Lamento dizer que não temos a informação oficial.

A essa altura, estávamos certos de que as novidades eram corretas.

Os árabes estavam coléricos. Belt, de Cuba, não pôde deixar de pedir a palavra para repreender os delegados norte-americanos pela surpreendente medida de seu governo. Disse que, pelo visto, a imprensa tinha melhores informações de Washington que a própria delegação oficial.

Compreendi seus sentimentos. Havia feito o jogo dos Estados Unidos, com a esperança de que o fideicomisso ou outra medida favorável aos árabes tivesse êxito. Agora o deixavam a seco. Poucos minutos depois, a notícia adquiriu caráter oficial. O doutor Jessup, sem fazer comentários, leu a declaração do Sr. Truman: “Este governo foi informado de que na Palestina foi proclamado um Estado Judeu, cujo reconhecimento solicitou seu Governo Provisório. O Governo dos Estados Unidos reconheceu o Governo Provisório como suprema autoridade de facto do novo Estado de Israel.”

Pensei que havia chegado o momento de anunciar o reconhecimento de meu país. Enquanto os representantes árabes, um depois do outro, se dirigiam à plataforma do salão e lançavam furiosas declarações contra os Estados Unidos, corri ao telefone e fiz um chamado urgente ao Ministro das Relações Exteriores na Cidade da Guatemala. Passavam os minutos. Os árabes tinham acabado seus breves e azedos discursos. Estavam sendo votados os parágrafos finais sobre o Mediador. Tinha de pensar rapidamente. Haviam me pedido que eu informasse meu governo sobre o momento oportuno para reconhecer Israel. Qual melhor do que este? Tínhamos demonstrado nossa independência nas Nações Unidas durante os muitos meses que havia durado esse problema palestino. Já havíamos anunciado nossa intenção de reconhecer o novo estado. Tínhamos o direito de agir nesse mesmo momento para informar ao mundo que dávamos o passo final em um caminho que havíamos seguido, consequente e decididamente desde o princípio. O bom êxito havia coroado por fim o esforço de nossa representação, nessa prolongada luta pelo que considerávamos um grande objetivo. O Uruguai e a Guatemala, juntos, haviam visto virem e irem embora os aliados, encontrando ao nosso lado as grandes potências ou encontrando-nos sozinhos, mas sempre combatendo juntos por algo que sabíamos justo e legítimo.

A Assembleia Especial chegava a seu término. Vi o presidente Arce arrumar seus papéis e dispor-se a pronunciar o discurso de despedida. Não pude esperar mais. Arcando com toda a responsabilidade sobre meus ombros, pedi a palavra. Já na tribuna, disse que minha representação havia votado em favor da resolução referente ao Mediador porque não contradizia a resolução da partilha de 29 de novembro, que continuava em vigência; que a Guatemala havia tomado uma atitude firme sobre esse problema desde sua primeira representação nas Nações Unidas, e que, nesse momento, podia anunciar oficialmente o reconhecimento do Estado de Israel pelo governo da Guatemala.

Quando voltei ao meu lugar, na grande sala de sessões, senti satisfação e estava consciente de ter feito o certo.

Minutos depois foi completada minha ligação telefônica à Cidade da Guatemala. Falei com o Ministro de Relações Exteriores, que aprovou com entusiasmo minha decisão. Mais tarde, quando vi o Presidente Arévalo na capital guatemalteca, ele me felicitou por isso.

Depois me contaram os motivos do reconhecimento norte-americano. O Presidente Truman compreendeu claramente a necessidade do reconhecimento, mas teve de impor toda a sua autoridade ao Departamento de Estado naquela manhã do dia 14. Quando o Presidente tomou sua decisão, começaram a funcionar as engrenagens. Sondaram o representante israelense em Washington. Aconselharam-no a escrever uma carta solicitando o reconhecimento; ele assim o fez, e o reconhecimento foi concedido.

Devo confessar que senti pena da representação norte-americana. Seus membros haviam lutado em vão. Sua desilusão encontrou expressão lúcida num diálogo que mantive com um de seus conselheiros, ao encontrá-lo na galeria, poucos minutos depois que o doutor Jessup leu sua declaração.

— Agora que deram um passo definido – disse-lhe –, talvez possam estudar uma nova medida para salvar a Comissão Palestina. Já não dou muita importância a ela, mas pode ser útil se for feito algo tendente a estabelecer a união econômica dos dois estados.

— Vi-o visivelmente desgostoso.

— Não faremos nada disso – replicou-me, com voz seca e irada.

— Mas – disse-lhe –, depois da declaração que o doutor Jessup leu hoje…

— Ah! – respondeu-me –, essa é a linguagem da Casa Branca, não do Departamento de Estado.

Não pude deixar de contestá-lo:

— Eu acreditava que o governo dos Estados Unidos era um só. Talvez tenha me equivocado.

— Bem, se você quiser, fale com Jessup – estava realmente irritado. — Eu não vou fazer nada.

— Não se preocupe – disse-lhe. — O importante já está feito. O resto não vale a pena.

Naquela tarde, quando meu automóvel me conduzia de Flushing Meadows ao hotel de Nova York, ao atravessar as ruas da grande cidade, vi a bandeira azul e branca de Israel, com sua Estrela de Davi esvoaçando orgulhosamente sobre os altos edifícios. Uma infinidade de pensamentos cruzou meu cérebro. Nós havíamos visto o momento culminante e inevitável de uma singular e estranha história nacional dos tempos contemporâneos. Os pesares de um longo exílio, marcado por profundos sofrimentos humanos, cederiam lugar à construção da nação mais jovem do mundo. Os membros das Nações Unidas, tanto os grandes como os pequenos, tinham desempenhado seu papel, contribuído para essa consumação histórica – a autoridade do acordo internacional. Não diminuía, por isso, o trabalho do próprio povo judeu; devia o êxito à sua magnífica resolução, à sua paciência, ao seu valor, à sua disciplina. Com sua ação, quase predestinada, tinham realizado uma das principais partes do nosso plano para o futuro da Terra Santa, aceito pela maioria das nações do mundo.

Não obstante, pode-se dizer que Israel nasceu em meio à agonia da guerra. Eu estava convencido de que essa guerra não tinha razão para ter acontecido e que não teria ocorrido se as potências tivessem permanecido fiéis às suas obrigações como membros das Nações Unidas. Entretanto, começava o derramamento de sangue, e tínhamos de admitir as realidades da situação. Apesar dessa tragédia inútil, nós, que havíamos examinado as necessidades e os problemas da Palestina e de seus povos, sabíamos que Israel viveria. Devia viver! Sua existência era o primeiro passo que se dava para a segurança, a paz e um novo despertar nas terras do Oriente Médio.

Quão distante está a Guatemala de Israel… E, no entanto, quão perto está! Em um mundo de muitos povos, a luta era uma só.

 

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O autor, Jorge García Granados, testemunha ocular que viveu o que a Comissão Especial das Nações Unidas para Palestina (UNSCOP) encontrou na Terra Santa, como se decidiu em favor da partilha e como nasceu Israel. Chefe da delegação da Guatemala perante as Nações Unidas, fora designado para a Comissão Especial desse organismo para a Palestina, designação que acolheu com simpatia e calor. Após permanecer vários meses na Palestina com a Comissão, entrevistou os ingleses e reuniu-se em segredo com representantes do movimento subterrâneo judeu, com membros da Haganá e de diversas facções árabes. Conversou com prisioneiros políticos, com motoristas, com operários, com colonos, assim como com funcionários de todo tipo. Foi à Palestina com total imparcialidade e isenção e saiu dali plenamente convencido da justiça da partilha. Em cumprimento de suas tarefas, visitou os campos de refugiados deslocados da Europa e, depois, retornou a Lake Success, então sede da ONU, para lutar por decisões transcendentais.

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