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Conservação: a sustentabilidade ambiental

Creio que temos poucas probabilidades de evitar uma catástrofe ambiental a menos que reconheçamos que não somos os donos do Ser, mas apenas parte do Ser (…)

Devemos reconhecer nosso vínculo maior do que o momento e o lugar atuais, e ao mundo como um todo e à eternidade. Temos de reconhecer que se não refletirmos os interesses universais, supraindividuais e supratemporais, prejudicamos nossos interesses exclusivos, locais e imediatos. Só as pessoas com um sentido de responsabilidade pelo mundo e para o mundo são verdadeiramente responsáveis por e para si.

Vaclav Havel, The Art of the Impossible

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Em nenhuma outra esfera das atuais preocupações se nota um caráter tão religioso na convocação à consciência pública. De fato, pois é precisamente neste caso que nos defrontamos com as questões fundamentais do nosso lugar no universo e da responsabilidade em relação a ele: de um lado o potencial destrutivo da intervenção humana e, de outro, a impressionante beleza de tantas formas de vida em risco. Ressurgem antigas ideias pagãs, entre as quais a hipótese “Gaia”, de James Lovelock, segundo a qual a Terra é um organismo único (Gaia era a deusa grega da Terra, e nome sugerido a Lovelock por William Golding).3 No entanto, não está claro que a adoração da Terra seja a melhor maneira de planejar um caminho para o futuro. Os adoradores da Terra destruíram as formas de vida da mesma maneira que os outros grupos e, como assinala o filósofo John Passmore,4 a cura pode ser pior que a doença. Dar as costas à tecnologia não vai melhorar, e sim reduzir o bem-estar dos homens, agora e no futuro. Pior ainda, vai enfraquecer a nossa capacidade de conservação da natureza e de explorá-la. O que é necessário não é menos ciência, mas uma visão de longo prazo dos seus resultados.

De acordo com o próprio Passmore, a Bíblia Hebraica é a chave para uma conscientização ecológica. Poucas as passagens tiveram maior influência na civilização ocidental que o primeiro capítulo do Gênesis e sua grandiosa visão do universo ganhando existência pelo trabalho de Deus. Ao ser humano, última e maior criação, é concedido o domínio sobre a natureza: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a Terra e dominai-a.” Sente-se aqui o deslumbramento, e de forma mais explícita no Salmo 8, diante da pequenez e do extraordinário do homem, da sua vulnerabilidade, mas igualmente da sua capacidade para moldar o ambiente:

Quando contemplo Teus céus,

Obra dos Teus próprios dedos,

Vejo a Lua e as estrelas que criaste,

E me pergunto:

O que é o ser humano, para que dele Te lembres?

E o filho do homem, para que o consideres?

Entretanto, pouco menos que os anjos o fizeste,

E de glória e esplendor o coroaste.

Salmos 8:4-5

O sociólogo do século 19 Max Weber dizia que aqui se encontravam as raízes do racionalismo ocidental e o “desencanto” ou o fim da condição mítica da natureza. Pela primeira vez, Deus não era identificado com as forças da natureza, mas colocado inteiramente acima delas. Despido do manto do mito, o universo deixara de ser domicilio de deuses misteriosos, caprichosos e insondáveis, e se transformou em palco onde os seres humanos podiam agir e exercer um domínio racional. Ainda segundo Max Weber, sem esta “secularização” do mundo, o empreendimento cientifico talvez nunca tivesse começado.

Mas o Gênesis 1 é apenas um lado da complexa equação bíblica e se equilibra entre a narrativa, de tom muito diferente, de Gênesis 2, em que o primeiro homem é colocado no jardim do Éden “para trabalhar e cuidar dele”. Os dois verbos hebraicos usados são muito significativos. O primeiro – leovdá – significa literalmente “servi-lo”. O homem é, pois, ao mesmo tempo, dono e servo da natureza. O segundo – leshomrá – significa “preservá-lo”. Este é o verbo usado na legislação bíblica posterior para descrever as responsabilidades do guardião da propriedade que não lhe pertence. Tem de vigiá-la para protegê-la e assume a responsabilidade por qualquer dano por negligência. Esta é, talvez, a melhor e mais sintética definição da responsabilidade do homem para com a natureza, tal como a Bíblia a entende.

Nós não possuímos a natureza – “a terra e tudo o que ela da são do Eterno”. Somos depositários dela em nome de Deus, que a fez e é seu dono, e para as gerações futuras. Por essa razão em 1995 me juntei a cerca de 200 outros signatários das grandes religiões do mundo em um protesto contra a concessão de patentes para genes de animais e humanos, órgãos, tecidos e organismos. As formas de vida não são invenções, mas descobertas. Não pertencem a cientistas nem a sociedades bioquímicas, mas igualmente a todos e a ninguém: são empréstimo de Deus confiado ao nosso zelo coletivo.

Além de não sermos donos da natureza, temos a obrigação de respeitar sua integridade. Samsom Raphael Hirsch, um comentador de meados do século 19, tem uma interpretação original da frase de Gênesis 1: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.” Esta passagem sempre foi intrigante, porque antes daquele momento, ou seja, antes da criação do homem, Deus estava sozinho. Segundo Hirsch, a primeira pessoa do plural se refere ao resto da criação. Como somente o homem poderia vir a ter a capacidade de transformar e de colocar em risco o mundo natural, a própria natureza foi consultada para aprovar a criação de semelhante ser. Estava subentendido a condição de que o homem usaria a natureza somente se respeitasse os objetivos do seu criador. Portanto, a ordem para dominar não é técnica, mas moral, e está condicionada à exigência de proteger e preservar. De fato, a famosa história de Gênesis 2-3 – provar o fruto proibido e o exílio imediato do homem do Éden – parece confirmar isso. Nem tudo é permitido. Há limites para o que podemos fazer e, quando os transgredimos, as consequências são desastrosas: “Porque tu és pó, e ao pó voltarás” (Gênesis 3:19).

Na esteira de Bacon e Descartes, os ambientalistas às vezes argumentam que Gênesis 1 é a fonte do desprezo ocidental pela natureza, considerada inerte, maleável e adaptável aos propósitos humanos que escolhermos. Passmore refutou esta ideia tão perfeitamente que pouco há a acrescentar ao seu comentário de que “foi apenas devido à influência grega” que os pensadores do século 17 e seus sucessores foram “levados a considerar a natureza apenas como um sistema de recursos, em que as relações do homem com ela não estão sujeitas a qualquer censura moral”.5 Na verdade, a visão da natureza do Gênesis não está centrada no homem, mas, sim, em Deus. É óbvio que a humanidade, com a capacidade única que tem de escolha moral, é o centro das suas preocupações. Mas Maimônides nos alerta contra uma visão antropocêntrica da realidade. “O universo não existe em função do homem, mas cada ser existe em função de si próprio e não por qualquer outra coisa.”6 Essa ideia está implícita na literatura profética e nos grandes salmos a respeito da criação:

Ordenaste às fontes que alimentassem regatos,

Que estes corressem pelos vales entre as montanhas.

Dão assim de beber a todos os animais dos campos

E satisfazem a sede de todos os silvestres.

Perto deles habitam as aves do céu

E, por entre os ramos das árvores,

Entoam seu canto.

Regas as montanhas do alto de Tua Morada

E se farta a terra do fruto de Tuas obras.

Fazes crescer relva para o gado

E plantas para o uso do homem.

Salmo 104:10-14

A Criação, obra-prima de Deus, tem sua própria dignidade, e o nosso mandato é para usá-la e não para a destruir ou estragar.

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Embora seja necessário algum cuidado quando lemos os textos antigos à luz das preocupações do século 21, é quase certo que grande parte da legislação bíblica se preocupa com o que hoje designaríamos por “sustentabilidade”. Isso é particularmente verdadeiro quanto aos três grandes mandamentos que determinam um repouso periódico: o Shabat, o ano sabático e o jubileu. No Shabat é proibido todo o trabalho agrícola, “a fim de que teu boi e teu burro possam descansar” (Êxodo 23:12). É um dia que marca o limite da nossa intervenção na natureza e do prosseguimento da atividade econômica, tornando-nos conscientes de que somos criaturas e não criadores. A terra não é nossa, é de Deus. Está aos nossos cuidados durante seis dias, mas no sétimo abdicamos simbolicamente desse poder. Não devemos realizar nenhum “trabalho”, quer dizer, qualquer ato que altere o estado de alguma coisa para fins humanos. O Shabat é um lembrete semanal da integridade da natureza e dos limites do esforço humano.

O ano sabático e o jubileu correspondem ao Shabat para a terra. A terra também tem direito ao repouso periódico. A Bíblia avisa aos israelitas que sofrerão o exílio se não respeitarem esse repouso: “Então a terra acalmará a ira do Eterno, em todos os dias de sua assolação pelos anos sabáticos que ela não descansou, e vós estareis na terra de vossos inimigos; então a terra descansará, e fará acalmar a ira do Eterno pelos anos sabáticos que esta não descansou.” (Levítico 26:34). Por trás disso há duas preocupações: uma é ambiental. Segundo Maimônides, a terra superexplorada fica gasta e perde a fertilidade. Dai a ordem de preservar o solo, com anos de pousio (interrupção do cultivo para a terra se tornar mais fértil), e não procurar o lucro a curto prazo ao preço da desertificação a longo prazo. A segunda, e não menos importante, é teológica: “… Porque a terra”, diz Deus, “é Minha; pois vós sois peregrinos e moradores da terra para Mim” (Levítico 25:23). Somos hóspedes na Terra.

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Existe outro grupo de mandamentos contra a interferência na natureza. A Bíblia proíbe o cruzamento de gado, o plantio de campos com sementeiras mistas e o uso de peças de vestuário com misturas de lã e linho. Estas regras são chamadas chukim ou “regulamentos”.

O sábio do século 13, Nachmânides, entendeu este termo com referência a leis que respeitam a integridade da natureza. Segundo ele, misturar espécies diferentes sugeria a capacidade de melhorar a ordem da criação, o que seria uma afronta ao Criador. Cada espécie tem suas leis de desenvolvimento e reprodução, que não devem ser adulteradas: “Aquele que combina duas espécies diferentes muda e desafia a obra da criação, como se acreditasse que o Santíssimo – bendito seja! –, não fez o mundo totalmente perfeito, e quisesse aperfeiçoá-lo acrescentando novas espécies de criaturas.” O Deuteronômio contém igualmente uma lei proibindo capturar um passarinho juntamente com a mãe; Nachmânides considera que esta lei tem o mesmo principio subentendido da proteção das espécies. Embora a Bíblia nos autorize a usar alguns animais para comer, não devemos selecioná-los para extinção.

Mas foi Samson Raphael Hirsch quem, no século 19, apresentou a interpretação mais convincente da lei bíblica. Segundo ele, os regulamentos relacionados com a proteção do ambiente representam o principio de que “devemos ter com todas as criaturas mais inferiores o mesmo cuidado que temos para com o homem, seja a terra que tudo contém, seja o mundo das plantas e dos animais”. Esses regulamentos representavam uma espécie de justiça social aplicada ao mundo natural: ”Pedem a vocês que considereis todas as coisas vivas como propriedade de Deus. Não destruais nenhuma; não desperdiceis nada; usai todas as coisas judiciosamente (…) Olhai todas as criaturas como servos da família da criação.”7

Mais ou menos à mesma época em que Hirsch escrevia, o judeu britânico Lewis Gompertz (1779-1861), começava a defender a ideia dos direitos dos animais, com uma campanha que levaria à fundação da organização atualmente conhecida por Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA). Peter Singer, o filósofo que mais atuou neste campo, revela a surpresa de, ao estudar na British Library, deparou-se com uma das obras de Gompertz e descobriu que ele “já pensava a respeito daqueles assuntos há 150 anos”. No seu ensaio Moral Inquirie on the Situation of Man and of Brutes (1824), Gompertz ansiava pelo tempo em que o homem, tornando-se verdadeiramente religioso, se orgulhasse de zelar pelas obras do seu Criador, que Ele tinha depositado nele: como servo fiel, não deixasse de proteger o que agora chama “réptil horrível”, e o considerasse seu irmão, semelhante a ele na obra, e criado com cuidado semelhante pelo Ser Supremo.8

3. Mary Midgley, “Individualism and the concept of Gaia”, in Booth et al. 2001, pp. 29-44.

4. Passmore, 1980, p. 27.

5. Ibid., p. 27.

6. Maimônides, Guia dos Perplexos, 3, 13. Sobre imagens bíblicas da natureza, ver Brown 1999.

7. Hirsch, 1969, p. 79.

8. Gompertz, 1992, p. 51.

 

Extraído da obra A Dignidade da Diferença,
do Rabino Lord Jonathan Sacks.

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