História Judaica

Como surgiu a fé judaica?

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Na busca pelo caminho certo a seguir, o rei dos cazares convida representantes de várias religiões a fim de escolher a mais adequada de todas.

Como todos mencionam negativamente o judaísmo, ele acaba convocando também um sábio judeu com quem passa a dialogar e a descobrir os mistérios da fé judaica. Este é o tema desta obra-prima da literatura clássica judaica, O Cuzarí, fruto do coração sensível e da mente privilegiada do Rabino Iehuda Halevi, erudito da Torá que viveu na conturbada Espanha do século XI.

Veja um trecho desse diálogo:

Sobre a Revelação Divina

O Cuzarí: Vamos retomar nosso assunto. Diga-me, como surgiu a fé judaica? Como se estabeleceu, foi aceita e formou-se o consenso em torno de suas normas? Em quanto tempo ela se solidificou e se difundiu? Faço estas perguntas pois é evidente que religiões passam por um processo de desenvolvimento. Primeiramente, um punhado de indivíduos, familiarizados com esta fé, se esforçam em estabelecer suas bases e compactuam com seus rituais; acreditam ser da vontade de Deus divulgá-los; são então seguidos por outras pessoas e utilizam os novos crentes para atrair mais pessoas e, desta forma, engrossar suas fileiras. Oportunamente, pode surgir um rei que os auxilie nesta tarefa, forçando sua população a aderir ao novo credo.

O Sábio: Somente as religiões fundamentadas na lógica humana se desenvolvem desta maneira. Quando ela se difunde, ganhando adeptos e suporte, dela se dirá que é ajudada pelo Criador. Porém, a religião outorgada pelo Criador não passa por processo algum de desenvolvimento: surge de maneira repentina, similar ao abrupto processo da Criação do Universo, que apareceu e veio à existência num certo momento!

O Cuzarí: Tuas palavras me causam espanto!

O Sábio: Na verdade, os eventos a que me refiro são ainda mais espantosos: os israelitas, descendentes dos doze filhos de Jacob, contavam seiscentos mil homens adultos, acima dos vinte anos de idade, e viveram como escravos no Egito sem que houvesse um simples caso de casamento misto com os egípcios. Nenhum deles fugiu para qualquer outro pais. Todos aguardavam a época prometida pelo Eterno, Deus de seus Patriarcas Abrahão, Isaac e Jacob, na qual Ele legaria a terra de Canaã a seus descendentes. Naquele período, a terra de Canaã era habitada por sete nações muito populosas, que haviam alcançado o topo do sucesso e poder. Contrariamente, os israelitas se achavam no mais baixo nível de pobreza e miséria, oprimidos pelo Faraó, que matara seus filhos para evitar seu crescimento demográfico. Eis que Deus enviou Moisés e Aarão ao Faraó. Apesar de seu estado frágil e miserável, os dois líderes se postaram diante deste poderoso monarca, operando milagres sobrenaturais e outros prodígios, sem que ninguém os impedisse de adentrar ao palácio real, os prendesse ou os matasse. Em seguida, o Egito foi punido com dez pragas, que afetaram todos os sistemas naturais: água, solo, ar, fauna, flora, a vida humana, corpo e alma. A última praga atingiu os entes mais queridos dos egípcios – seus primogênitos –, que morreram todos no mesmo instante, à meia-noite. Não havia uma casa onde não houvesse um morto, exceto nas casas israelitas. O próprio Faraó se viu impotente para escapar de qualquer uma destas pragas. Cada uma delas foi precedida por advertência, tendo-se iniciado e cessado no tempo exato pré-determinado por Moisés. Tudo isto para demonstrar claramente que estas pragas foram intencionais, e não acidentais, advindas de Deus, que faz prevalecer Sua Vontade, quando e como Ele desejar. Elas não se originaram nas forças da natureza ou por influência das estrelas!

Depois da praga dos primogênitos, naquela noite, os israelitas deixaram o Egito, por ordem de Deus, rumo ao deserto, em direção ao mar dos Juncos (mar Vermelho), guiados por uma Coluna de Nuvens e Fogo, enquanto o Faraó e seu exército os perseguiam. Os israelitas não estavam treinados para a guerra, mas foram milagrosamente salvos sem ter de recorrer a armas. O mar se dividiu à frente deles, que o atravessaram, enquanto o Faraó e seus exércitos afundavam em suas águas; o mar lançou à praia os cadáveres dos egípcios aos olhos dos israelitas. É uma história longa e bem conhecida.

Naquele momento, dois anciãos eram os líderes e sacerdotes da nação: os profetas Moisés e Aarão. Ambos tinham mais de oitenta anos de idade quando profetizaram. Até aquele momento, os israelitas eram ordenados a observar um número reduzido de preceitos herdados de Adão e Noé, os virtuosos das primeiras gerações. Moisés não os aboliu e lhes acrescentou outros mandamentos, conforme os recebia de Deus.

O Cuzarí: Tudo isto é revelação da glória Divina. Os mandamentos associados a estes eventos devem realmente ser aceitos, pois não há qualquer dúvida de que não se originaram em bruxaria, artifícios ou imaginação. Ainda que os israelitas pudessem fantasiar o mar se dividindo diante de si, jamais se afirmaria que sua salvação da escravidão, a morte dos seus feitores e a arrecadação dos seus despojos foram puro devaneio! Somente uma obstinação herética poderia classificar como ilusórios estes fatos que mudaram as vidas dos israelitas.

O Sábio: Após estes eventos, um milagre ainda mais maravilhoso lhes ocorreu. No meio do deserto, onde não há vegetação, Deus criou uma nova criatura, o Maná, o pão com que Israel se alimentou durante quarenta anos e que descia dos céus diariamente, exceto no Shabat (sábado).

O Cuzarí: Alimento descendo constantemente do céu, seis dias por semana, cessando no sétimo, durante quarenta anos, e sustentando seiscentos mil homens e seus familiares, constitui um milagre e prova irrefutável da Providência Divina. Disto resultou, obviamente, a obrigatoriedade de guardar o Shabat devido à Revelação Divina que nele aconteceu.

O Sábio: Certamente, a obrigatoriedade de guardar o Shabat provém da não descida do Maná neste dia, e do fato que o mundo foi criado em seis dias e que Deus nada criou no Shabat. E também devido a um terceiro motivo que será esclarecido adiante.
Quando todos de Israel viram os milagres de Moisés, passaram a acreditar em seu status Divino, apesar de ainda terem incertezas quanto à essência da profecia em geral. Era-lhes difícil conceber como Deus mantinha diálogo com o homem. Poder-se-ia supor que a iniciativa de elaborar as leis da Torá partira do homem, e só posteriormente recebeu assistência ou aquiescência Divina. Esta hesitação surgiu da dificuldade de atribuir a fala – uma atividade genuinamente física – ao Criador, que é desprovido de qualquer matéria. Deus decidiu dirimir esta dúvida, ordenando aos israelitas que se preparassem para presenciar a Revelação Divina. Tal preparação exigia santificação interior e exterior. Para fortalecer a santificação interior, foram ordenados a se afastar das esposas e a se preparar psicologicamente para ouvir a palavra de Deus. A santificação exterior consistiu na lavagem das vestes.

Após três dias de preparação e depois dos milagres e prodígios que antecederam a Revelação no monte Sinai, como os fortes sons, relâmpagos e fogo que circundava o monte, toda a nação atingiu o status de santidade profética e estava preparada para ouvir a palavra de Deus, frente a frente. Com voz clara, Deus anunciou os Dez Mandamentos, que englobam os fundamentos e raízes da nossa fé e da Torá. Um desses mandamentos é guardar o Shabat, o que já se fazia desde o advento do Maná. O fogo que circundava o monte Sinai permaneceu visível durante quarenta dias e todos viram Moisés ascender a este monte e, posteriormente, dele descer, atravessando as labaredas.

Os Dez Mandamentos não foram recebidos pela nação como se fossem uma tradição, transmitida por um profeta ou por alguns indivíduos, mas, sim, pelo Próprio Deus. Contudo, os israelitas não tiveram a capacidade de continuar presenciando esta visão grandiosa e, por isto, deste dia em diante, acreditaram que as falas de Deus a Moisés não provinham de sua iniciativa ou premeditação, mas se originavam no Criador Abençoado. A profecia não é, como descrevem os filósofos, consequência de um refinamento da alma e de sua comunhão com o “intelecto ativo”, chamado de espírito santo (Rúach Hacódesh), ou da comunhão com o anjo Gabriel. É até possível que um sujeito num estado de sonolência, meio-adormecido ou sonhando, imagine que alguém venha a lhe falar, ou que ouça coisas unicamente perceptíveis por sua alma e não por seus ouvidos, que o veja na imaginação, mas não com seus olhos reais – e, baseado nestas visões, afirme que o Criador falou com ele! Conjeturas como esta foram todas desmistificadas com o fantástico evento da Revelação no monte Sinai!
À fala Divina se ajuntou uma escrita Divina: as duas Tábuas da Aliança nas quais Deus gravou os Dez Mandamentos transmitidos a Moisés. As Tábuas eram feitas de pedra preciosa (safira), na qual estava gravada uma escrita maravilhosa. Israel viu que a escrita era Divina, assim como a mensagem ouvida no monte Sinai. Conforme as instruções de Deus, Moisés fez depois uma Arca e ergueu o conhecido Mishcán (Tabernáculo), que permaneceu junto dos filhos de Israel durante a era dos profetas por quase novecentos anos; até que a nação se revoltou contra seu Pai Celestial. Aí, então, a Arca se ocultou, apareceu Nabucodonosor e conquistou a Judeia, exilando o povo para a Babilônia.

extraído do livro O Cuzarí, de Iehuda Halevi.

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