Contos e parábolas

Coincidências ou pequenos milagres? II

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Sei que não são muitos os casais que têm o privilégio de comemorar bodas de ouro, mas meus pais eram duplamente abençoados tanto com um bom casamento quanto com boa saúde.

Cinquenta anos haviam se passado desde o seu casamento, em 1912, e eu e meus quatro irmãos decidimos dar uma festa de gala para comemorar a ocasião, em 10 de janeiro de 1962. Uma vez que nossa família estava espalhada pelos Estados Unidos, em ambas as costas, decidimos nos reunir na casa de minha irmã Molly, em Chicago, o ponto mais central e conveniente para todos, onde a festa aconteceria. Seria uma ocasião de muita alegria e uma maravilhosa reunião, e todos estávamos ansiosos, aguardando a data. Comprei as passagens aéreas para mim e minha esposa, gastando uma pequena fortuna.

 Alguns dias antes de nossa partida, de Los Angeles, percebi que minha esposa, Helene, geralmente obcecada por fazer malas, ainda não havia começado a sua costumeira preparação, que era iniciada sempre uma semana antes de qualquer viagem.

— Helene – eu perguntei, surpreso. — Você já não deveria ter começado a arrumar as malas?

— Querido – ela disse lentamente –, não sei como lhe explicar isso… Eu mesma não sei como explicar… mas não sinto que devo ir. Estou tendo um sentimento de que eu serei necessária aqui. Você ficaria muito chateado se eu ficasse em casa dessa vez?

Minha esposa sempre me acompanhara em todas as viagens familiares e nunca perdera nenhuma celebração de nenhum membro da minha família. Normalmente, eu teria batido o pé e insistido para que ela me acompanhasse, passando por cima de qualquer preocupação que incomodasse minha esposa. Mas dessa vez, para minha própria surpresa, eu me escutei falando feito um carneirinho:

— Tudo bem, querida. Se você acha que não deve ir, fique em casa.

Então, pela primeira vez desde que nos casamos, viajei sozinho para Chicago.

Naquela manhã, depois de me levar ao aeroporto e voltar para casa, minha esposa tentou ligar para sua mãe e irmã, que viviam juntas a três quadras da nossa casa. Ninguém atendeu ao telefone, mas aquilo não parecia estranho: minha mulher presumiu que elas tivessem saído para fazer compras. Porém, naquele mesmo dia à tarde, quando dois de nossos filhos voltaram da escola, alguma coisa fez com que minha esposa lhes perguntasse:

— Vocês viram Philly ou Jackie (os sobrinhos da minha esposa) na escola hoje?

— Na verdade, não. Será que eles estão doentes?

Minha esposa achou estranho que as duas crianças não tinham ido à escola mas ninguém atendera ao telefone quando ela ligara. Mesmo doentes, ela pensou, eles poderiam atender ao telefone. E, se eles estão tão mal a ponto de não atenderem ao telefone, raciocinou minha mulher, então a minha irmã deveria estar em casa com eles.

De qualquer maneira, nenhum alarme soou em sua cabeça até ela ir buscar seus outros dois filhos em uma escola perto de casa – a mesma escola que seus sobrinhos mais novos freqüentavam.

— Vocês viram seus primos na escola hoje? — ela perguntou de novo.

Quando eles também disseram não, ela começou a pensar, mas logo afastou o mau presságio, achando que era coisa de sua cabeça.

Os estranhos acontecimentos daquele dia só começaram a fazer sentido em sua mente quando ela se sentou para jantar. Um prato escorregou de sua mão e se estilhaçou no chão quando uma terrível explicação finalmente a dominou:

— Meus Deus! Eles podem estar mortos!

Helene e meus filhos pularam para dentro do carro e se dirigiram rapidamente para a casa da irmã dela. Quando ninguém respondeu aos seus incessantes toques de campainha e às fortes batidas na porta, nosso filho, Ron, correu até a garagem onde havia uma chave reserva escondida. Uma vez, a irmã de Helene mostrara ao sobrinho o local da chave, e ele se lembrava bem.

— Para um caso de emergência – dissera a tia para ele.

Assim que Helene encontrou a chave a abriu a porta, ela começou a ficar sufocada pelo gás que enchia a casa. Em casa, ela encontrou sua mãe, sua irmã e dois sobrinhos inconscientes na cama. Seus outros dois sobrinhos perambulavam pela casa, tontos e desorientados, como zumbis. Quando suas tentativas de acordar a todos se mostraram inúteis, Helene ligou para os paramédicos, e toda a família foi levada para o hospital. Depois de um tempo, todos eles recuperaram a consciência, com exceção da mãe de minha esposa, que entrara em estado de coma.

Quando a irmã e os sobrinhos de Helene acordaram, eles não faziam idéia do incidente que quase custara a vida de toda a família. A irmã de Helene se lembrava que um encanador viera consertar o forno no dia anterior, e ela presumiu que ele acidentalmente causara o vazamento, que durou a noite toda, enquanto eles dormiam.

Enquanto isso, minha sogra ficou em coma por cinco dias, período em que minha esposa não saiu do seu lado. Os médicos avisaram que, mesmo que ela saísse do coma, ela provavelmente ficaria em estado vegetativo para o resto da vida. Minha mulher se recusou a desistir da mãe, e conversava com ela o tempo todo, certificando-se de que ela estava sendo estimulada o tempo todo. Após alguns dias de incerteza, as pálpebras de minha sogra se abriram e ela estava de volta conosco, tão lúcida quanto antes. Ela provou que todos os prognósticos médicos estavam errados e viveu uma vida longa até os noventa anos.

Apesar de o incidente ter acontecido há quarenta anos, nunca consegui tirá-lo da minha cabeça. Eu sou uma pessoa particularmente teimosa, especialmente em relação à família. O que será que deu em mim, que amava tanto os meus pais e que queria tanto honrá-los para deixar minha esposa ficar em casa sem nem brigar ou argumentar? E o que fez com que ela insistisse para ficar em casa?

Minha esposa era a única pessoa próxima de sua mãe e irmã em Los Angeles. Ela era a única que notaria que seus sobrinhos não foram à escola ou que sua mãe e sua irmã não atenderam ao telefone por um longo período.

E Helene e as crianças eram os únicos, em toda a cidade, que sabiam da chave extra escondida na garagem.

Se eu tivesse sido teimoso e insistido para que minha mulher me acompanhasse até Chicago, uma grande tragédia teria acontecido. Quarenta anos depois, eu ainda fico espantado que minha única resposta à relutância de minha esposa em ir comigo à festa foi uma resposta muito molenga e atípica:

“Tudo bem, querida. Se você acha que não deve ir, fique em casa.”
Pensando nisso tudo, eu nunca teria me perdoado se eu tivesse dito algo diferente.


Extraído de 
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