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Chanucá e o Domínio da Grécia

Jafet [Iéfet], o filho de Noé, teve sete filhos; o quarto foi chamado de Iaván (Grécia). Durante 1.700 anos os descendentes de Iaván tiveram um papel insignificante, até que a estrela deles ascendeu nos dias de Alexandre Magno e eles dominaram a maior parte do mundo.

Os poderes da terra são semelhantes aos poderes do Céu. Assim como Deus estabeleceu parâmetros para as forças do Céu – algumas dominando durante o dia, outras durante a noite –, assim também, Ele estabeleceu parâmetros para as forças da terra. Cada povo teve designada uma área para manifestar o seu talento. A um foi dada a beleza; a outro, a força. A um Deus concedeu a riqueza; a outro, a sabedoria. Cada entidade foi dotada de uma área específica para funcionar sem invadir terreno alheio. De todos os povos, só o de Israel estava destinado a converter-se no tesouro precioso de Deus; tudo o que havia de bom e belo estava ao seu alcance. Além disso, a ele foi concedido um dom pessoal exclusivo: a capacidade de aderir a Deus.

Deus concedeu a Jafet e aos filhos dele os dons da sabedoria e da beleza. De fato, Noé, o pai dele, os abençoara com esses atributos, conforme o versículo (Gênesis 9:27) declara: “Deus concedeu beleza a Jafet que habita nas tendas de Sem [Shem].” Os nossos sábios explicaram (Bereshit Rabá 36): “A beleza de Jafet se manifesta nas tendas de Sem; ou seja, é adequado que a beleza de Jafet resida nas tendas de Sem, pois só dessa forma ele pode alcançar a sua verdadeira realização.”

Alexandre Magno levou a Grécia ao ápice do poder, conquistando muitas nações e terras, e fazendo de sua capital um centro de sabedoria e ciência. Foi durante essa época que os sábios explicaram o versículo citado, utilizando a sua exegesepara traduzira Torá para o grego, a mando de Ptolomeu Filadelfo, um dos sucessores de Alexandre no governo do Egito. Os gregos, que buscavam a sabedoria, tinham agora a capacidade de se aproximar das tendas de Sem – da Torá de Israel. 

O próprio Alexandre demonstrou grande respeito pelos sábios israelitas; ao ser apresentado ao justo Simão, ele inclinou a cabeça de maneira reverencial. A Grécia de Alexandre substituiu o império persa no domínio do mundo, e a terra de Judá tornou-se subordinada à Grécia tal como fora subordinada à Pérsia. Enquanto Alexandre viveu, o domínio grego foi clemente e Judá viveu em paz.

Com a morte de Alexandre, o seu império foi dividido em três – Grécia, Síria e Egito –, cada qual governado por um rei separadamente. Atenas continuou sendo o centro da sabedoria grega, mas o poder político foi compartilhado com Alexandria e Antioquia. Judá caiu sob o domínio dos greco-sírios, os selêucidas (assim chamados em honra a Seleuco, que estabeleceu a linhagem real), e estes começaram a oprimir os judeus. Os greco-sírios guardavam um grande ressentimento da pequena província de Judá, que rejeitava a cultura grega, embora estivesse sob a jurisdição deles.

O conflito entre Judá e Grécia não foi uma luta pelo poder; ao contrário, foi um conflito motivado pela divergência das concepções espirituais. Embora os gregos tenham prevalecido no plano físico, Judá reinou absoluto no nível espiritual – para desgosto de seus conquistadores.

A princípio, assim que a Torá foi traduzida para o grego, os governantes se deleitaram com ela e até ficaram inclinados a perdoar o orgulho que aqueles que viviam de acordo com os ditames dela manifestavam. Com o passar do tempo, contudo, a Torá se transformou em um espinho para eles, e os governadores gregos subsequentes decidiram erradicá-la, subjugando o povo de Israel tanto física quanto espiritualmente. A Torá do povo de Israel passou a ser alvo de suas flechas; foi esse o estopim do conflito entre o poderoso império grego e o fraco e subjugado reino de Judá.

Quando a beleza se torna desagradável

Tanto os poderes do Céu quanto os poderes da terra têm missões a cumprir; elas diferem no que diz respeito ao livre arbítrio. As hostes celestiais só podem realizar as atribuições que lhes são ordenadas. Os homens, porém, têm a opção de mudar a natureza das suas atribuições e podem até gerar o mal para si próprios e para o mundo como um todo. Quando a beleza de Jafet reside dentro de tendas de Sem para servi-lo, então ela é genuína. Mas quando o criado tenta substituir seu amo – ou seja, quando a beleza de Jafet procura subjugar as tendas de Sem – não há nada mais repulsivo do que isso!

Os governantes da Grécia tentaram anular apenas três mitsvót – a observância do Shabat, a consagração dos meses e a circuncisão. Eles sabiam que, abolindo essas três, todas as demais mitsvót poderiam ser transformadas em rituais culturais destituídos de sentido, que acabariam caindo no esquecimento.

Shabat serve para lembrar àqueles que o observam – bem como àqueles que o veem sendo observado – que o mundo tem um Criador; que é por intermédio de Sua palavra que o mundo existe do nada; e que Ele pode fazer a existência retornar ao nada. O Shabatproclama: “Homenageie o seu Criador; que toda a terra se curve a Ele.” Os gregos proclamaram: “Que o Shabat seja eliminado e a sua lembrança esquecida. Nós somos os donos do mundo e de seus habitantes; que toda a terra só se curve a nós.”

A consagração dos novos meses lembra àqueles que os consagram – e àqueles que presenciam a consagração – que o poder de Deus controla o tempo. Nem tudo é fixo e depende do tempo, e tampouco o tempo controla aqueles que vivem dentro de seus limites. Ao contrário, tudo depende da santidade que é incorporada ao tempo por aqueles que temem a Deus e cumprem a Sua vontade. Se o tribunal consagra o novo mês, este fica consagrado e o próprio tempo fica consagrado, permeado de fontes de santidade que elevam tanto o corpo quanto a alma. Mas se o tribunal não consagra o mês, então o tempo permanece mundano. Todos os reis do oriente e do ocidente reunidos seriam incapazes de elevar uma única alma da degradação à santidade. É por isso que os gregos proclamaram: “A consagração dos meses deve ser anulada e esquecida! Somos nós que determinaremos os dias de celebração e de festa, de alegria e de aflição!”

A circuncisão lembra àqueles que entram no seu pacto, o berit milá (pacto da circuncisão) – e àqueles que presenciam a sua realização –, que tanto o corpo quanto a alma provêm de uma mesma fonte. Assim como a alma está vinculada ao mundo material e é obrigada a existir dentro dos limites impostos pelas leis que nele vigoram, e está sujeita à influência deles, o corpo também está vinculado ao sublime e é obrigado a funcionar de acordo com as suas leis e mandamentos. Ambos os mundos são um só: o mundo do Criador. Só há neles os Seus criados, que são obrigados a cumprir a Sua vontade. Os gregos, por conseguinte, declararam: “Esse pacto será eliminado. Que o seu cumprimento não represente um desafio para a nossa sabedoria, que versa haver dois mundos separados. O corpo representa o governante irreprimível de um mundo e não há nada que o deva impedir de realizar os seus desejos. O espírito representa o governante irreprimível do outro mundo e não há nada que o deva impedir de subir às alturas, entoando os seus cânticos e sonhando os seus sonhos. O corpo não é subserviente à alma e a alma não é subserviente ao corpo. O corpo pode ser um porco e, a alma, um anjo!”

Um mundo sem Criador, um ano desprovido de santidade e um corpo carente de limitações. Pode haver algo mais repugnante? Imagens de beleza corpórea ao invés de visões Divinas e conflagrações de desejos substituindo a consagração do material – que valor pode haver nesse tipo de vida?

Trecho extraído da obra
O Livro do Conhecimento Judaico,
O Ano Hebreu e seus Dias Significativos
do Rabino Eliahu Kitov

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