Estudos Bíblicos

Afinal, de quem foi o sacrifício: de Abrahão ou de Isaac?

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“E andaram ambos juntos.”

Gênesis 22:8

Na Akedá, de quem foi o sacrifício maior: de Isaac ou de Abrahão? Instintivamente, a primeira resposta que vem à mente é que foi o de Abrahão. Afinal de contas, a porção da Torá tem início com as palavras: “E Deus testou a Abrahão”. De fato, Isaac era o filho ansiosamente esperado por Abrahão por toda sua vida, a afirmação de sua fé e a promessa de seu futuro.

Qualquer pai, e principalmente Abrahão, preferiria morrer a ver seu filho morrer. Se Deus tivesse dito: “Você tem uma escolha: você ou seu filho”, Abrahão teria feito o que milhares de outros pais fizeram – colocaria o filho em segurança e subiria sozinho ao monte Moriá, agradecido a Deus por saber que seu filho sobreviveria. Entretanto, como podemos menosprezar a profundidade do sofrimento de Isaac? Da vida de quem se está tratando? Qual é a carne que está amarrada ao altar, transformada numa oferenda a ser queimada? A do pai ou a do filho? E independente de quão doloroso possa ser testemunhar a tragédia, poderíamos negar que o verdadeiro sacrifício é o daquele cujo corpo subirá em chamas? Isaac, inegavelmente, é tão heróico quanto Abrahão. E está claro que Isaac entende perfeitamente o que vai ocorrer. De acordo com o Rashi, ele tinha 37 anos quando ocorreu a Akedá, idade suficiente para lutar contra a vontade de seu pai ou fugir dali. E mesmo se o Ibn Ezra, que afirma que Isaac tinha 12 anos naquele momento, esteja mais coerente com a história bíblica, ele ainda poderia chorar, protestar ou apelar para a misericórdia de Abrahão. Nenhuma reclamação da parte de Isaac é mencionada na narrativa bíblica. Pelo contrário, mesmo depois que Isaac está, presumivelmente, consciente do que está para acontecer, o texto afirma: “E andaram ambos juntos”.

Além do fato de que o sentimento paterno que há em todos nós se identifique com Abrahão e considere como sendo dele o maior sacrifício, há uma diferença essencial entre o pai e o filho, que me foi mostrada por meu rabino Moshe Besdin.

Foi a voz de Deus que Abrahão ouviu, dando a ordem para que levasse seu filho, seu único filho, e o trouxesse como uma oferenda de elevação. Quando Maimônides quer provar a veracidade da profecia, ele se volta para o episódio da amarração de Isaac. Se Abrahão não acreditasse na absoluta verdade da profecia, teria, mesmo assim, erguido sua mão para matar seu filho? Teria sacrificado todo o seu futuro, bem como o futuro da humanidade, a não ser que estivesse absolutamente seguro da origem Divina da ordem?

Mas, podemos dizer o mesmo sobre Isaac? Afinal de contas, ele ouviu a ordem, mas não de Deus, e sim de seu pai.

Um olhar atento ao que transparece entre as linhas do texto da Bíblia provê uma ligeira percepção do relacionamento único existente entre este pai e este filho.

Há uma temerosa suspeita na mente de Isaac, uma crescente percepção do que está para acontecer, um desejo de confrontar o pai (embora de forma muito delicada) e depois uma profunda aquiescência, até mesmo uma unidade de propósito e missão. Abrahão acorda bem cedo, de manhã, para levar seu filho à fatídica jornada. Sobre o que falam, se é que falam, não é mencionado; mas, no terceiro dia, depois que Abrahão dispensa os dois ajudantes de acompanhá-los, Isaac começa a falar. E o que ele diz e o que não diz é algo de raro e sensível significado.

A professora Nechama Leibowitz nos ensinou que, quando a Torá narra um diálogo e quer informar a mudança da pessoa que está falando, ela o faz usando a palavra Vaiômer, “E ele disse”; afinal, a Torá foi escrita de uma forma que não apresenta aspas. No terceiro dia de sua jornada, Isaac percebe que seu pai está preparando a faca e a lenha para a oferenda. Pela primeira vez, desde o início da caminhada, a Torá revela as palavras de Isaac.

Vaiômer, começa o texto, ”E Isaac falou a Abrahão, seu pai”. Esperaríamos, agora, encontrar as palavras ditas por Isaac, mas isso não acontece. Em vez disto, novamente Vaiômer, mas desta vez com uma palavra: Vaiômer avi, “e disse: Meu pai!”. Por que temos um Vaiômer após o outro sendo que ambos estão se referindo às palavras ditas pelo mesmo locutor, e sabendo que Isaac, afinal, não diz absolutamente nada após o primeiro Vaiômer? É como se tivéssemos aberto e fechado aspas sem qualquer palavra entre elas. Neste ponto da narrativa, Abrahão toma conhecimento do que diz Isaac, dizendo “Eis-me, meu filho.”

Agora vem o terceiro Vaiômer de Isaac neste contexto: “E disse: Eis o fogo e a lenha, e onde está o cordeiro para a oferta de elevação?”

Qual o sentido do Vaiômer?

Aparentemente, Isaac suspeita do verdadeiro propósito da jornada desde o momento em que o pai o acorda e lhe diz que estão de saída. Ele, trêmulo, fica em silêncio pelos três primeiros dias, para talvez ouvir outra explicação ou para receber a trágica confirmação do pior pesadelo. Compreensivelmente, Abrahão não pode explicar o que pretende fazer. Isaac anseia por fazer a pergunta, mesmo que isto signifique que ele ouvirá o pior. Nada, pensa ele, seria melhor do que permanecer nesta incerteza. Mas como pode um filho respeitoso perguntar ao pai: ”Você está planejando me sacrificar?” Dada a proximidade que Isaac sempre sentiu de seu amado pai, que esperou até aos 100 anos de idade para ter um filho com Sara, como poderia ele sequer começar a formular tal impensável questão?

No terceiro dia, Isaac tenta: Vaiômer mas somente um “Aaaah” sai de sua boca – ele consegue apenas gaguejar e balbuciar, mas se sente incapaz de formular esta horrível ideia. Por fim, ele tenta novamente: Vaiômer, e desta vez ele acrescenta “Meu pai!”. Mais uma vez ele para no meio da sentença, mas Abrahão gentilmente lhe responde: “Eis-me, meu filho.” Isto finalmente dá a Isaac a possibilidade de delicadamente sugerir: Vaiômer, e ele diz: “Eis o fogo e a lenha, e onde está o cordeiro para a oferta de elevação?” A resposta de Abrahão não deixa espaço para qualquer pergunta posterior: “Deus proverá para Si o cordeiro para a oferta de elevação, meu filho”.

O que é realmente maravilhoso é a frase seguinte: ”e andaram ambos juntos” (iachdáv). Somos atingidos pelo impacto da palavra “juntos” para descrever uma jornada para a qual os dois se encaminham com igual dedicação, apesar do conhecimento que têm, de que somente um deles voltará vivo.

Também nos impacta a prontidão de ambos para cumprir esta determinação tão inexplicável, ordenada por Deus, a despeito do fato de que o pai a ouviu do próprio Deus e o filho a ouviu somente de seu pai.

Diante destes fatos inquestionáveis, Isaac emerge como um verdadeiro patriarca, um modelo e um paradigma para todas as futuras gerações. Afinal de contas, nossas tristes orações penitenciais (selichót e kinót) atestam o fato de que Isaac é, na verdade, o modelo de Kidush Hashem (Santificação do Nome de Deus provocada por alguém que se deixa matar por sua fé e por sua nação) no decorrer de nossa história umedecida por nossas lágrimas e enrubescida por nosso sangue.

Teriam aqueles que se deixaram torturar e assassinar pelas espadas dos cruzados, em vez de aceitar a conversão que lhes tentaram impor a força, escutado diretamente a voz de Deus? Não seria mais correto dizer que estavam atendendo a seus pais, seus professores e aos textos tradicionais que definiram e delimitaram os limites dentro dos quais se pode e se deve entregar a própria vida pela glorificação do Nome de Deus? Abrahão pode ser o primeiro judeu, mas Isaac é o primeiro filho judeu, o primeiro estudante judeu, o primeiro representante da Messorá (a tradição transmitida de pai para filho, de mestre para discípulo), cuja dedicação à morte emana, não da ordem que ouviram diretamente de Deus, mas de sua adesão à Tradição Oral.

A essência do judaísmo não é o de uma religião baseada em visões beatificantes ao longo do caminho de Damasco ou mesmo de Jerusalém. Nossa religião é aquela em que a verdade é transmitida de uma geração à outra, de pai para filho, de mestre para discípulo. E, para nós, o paradigma começa exatamente na Akedá. Quem é o primeiro judeu? Abrahão. Mas quem é o primeiro judeu histórico, o primeiro representante da cadeia histórica do ser judeu, cujos elos foram forjados pelo arcabouço do compromisso e do sacrifício? O filho de Abrahão, Isaac.


Extraído da incrível obra Luzes da Torá (Gênesis) – sobre vida, amor e família, do Rabino Shlomo Riskin.
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