Calendário Judaico Introdução ao Judaísmo Leis Judaicas / Talmud

As alegrias do dia 15 de Av

O dia 15 de Av – conhecido como Tu Beav – possui um caráter festivo.

Nas preces desse dia não se recita tachanun (súplicas de perdão pelos pecados), nem na de Minchá da tarde anterior [conforme o costume praticado nas vésperas de todos os dias festivos]. Os noivos que casam nesse dia não precisam jejuar.

Nessa data ocorreram vários eventos felizes para o povo judeu, ao longo dos séculos:

• A geração do deserto parou de morrer.

• O matrimônio entre integrantes de diferentes tribos passou a ser permitido [depois da divisão da Terra de Israel].

• A proibição de casar com qualquer pessoa da tribo de Benjamim foi rescindida, após o episódio da concubina de Guivá [vide Juízes 20-21].

• Foram removidos por Oseias, filho de Elá, os bloqueios que Jeroboão colocara para impedir que as pessoas subissem a Jerusalém nas festas de peregrinação.

• Encerrava-se o corte anual de madeira para o Altar do Templo.

• Os mártires massacrados em Betar foram finalmente sepultados.

Nas gerações anteriores, essa data era considerada uma festa completa, conforme será explicado adiante. Atualmente, como o Templo está destruído e muitos dos dias festivos registrados na Meguilá de Taanit não são mais observados, a nossa alegria nesse dia encontra sua principal expressão no estudo da Torá. Conforme os nossos sábios (Talmud, Berachót 8a) ensinaram, desde que o Templo foi destruído, Deus tem apenas as “quatro amót da Lei da Halachá” [como morada], pois a destruição não afetou a Torá, que permanece em vigor assim como na época anterior à destruição. Portanto, também depois da destruição “os preceitos do Eterno têm absoluta retidão e trazem alegria ao coração” (Salmo 19: 9), assim como antes. Por isso, a partir dessa data costuma-se aumentar o tempo dedicado ao estudo de Torá à noite, até o fim do inverno.

A geração do deserto parou de morrer

Midrash (Eichá Rabá) conta: “No dia 15 de Av a escavação cessou.”

Conforme mencionado anteriormente, dos 600 mil judeus que tinham sido condenados à pena de: “Vossos corpos cairão neste deserto” (Números 14:29), 15 mil morriam a cada ano, na data de 9 de Av. No último Tishá Beav que os israelitas passaram no deserto, 15 mil homens escavaram as suas próprias covas e esperaram pela morte. Mas Deus dispensou-os da pena e eles sobreviveram.

Acontece que ao se levantarem das covas naquela manhã de Tishá Beav, eles ainda não sabiam que tinham sido poupados, e acharam que tinham errado no cálculo da data. Então, durante as cinco noites seguintes voltaram a se deitar nas suas covas. Quando chegou o dia 15 de Av e a lua cheia foi avistada, eles perceberam que o cálculo estava correto e concluíram que o decreto que pesava sobre eles provavelmente havia sido cancelado. Desde então, essa data passou a ser comemorada como um dia de celebração e alegria.

No Talmud (Bava Batra 121b) consta o seguinte:

Enquanto todos os condenados à morte no deserto não terminaram de perecer, Deus não falou com Moisés [salvo a respeito de quatro situações que exigiram ação imediata], conforme os versículos (Deuteronômio 2:16-17) declaram: “E quando terminaram de morrer todos os homens de guerra do meio do povo, [só então] o Eterno me falou, dizendo.”

Embora eles tenham parado de morrer no dia 9 de Av do 39º ano da saída do Egito, Deus só voltou a falar com Moisés um ano e seis dias depois [ou seja, no dia 15 de Av do 40º ano], pois durante todo esse período os judeus viveram com medo de morrer, e a Presença Divina só está presente quando há alegria. Foi só no dia 15 de Av do último ano que passaram no deserto que os israelitas voltaram a se alegrar [como quando tinham se dado conta de que o decreto havia sido revogado], e só então Deus voltou a falar com Moisés – dirigindo-Se a ele de forma direta e em um espírito de reconciliação com o Seu povo, Israel.

As proibições de matrimônios intertribais e de matrimônios com integrantes da tribo de Benjamim foram rescindidas

Ao longo de nossa história, em duas ocasiões o matrimônio entre integrantes de diferentes tribos judaicas foi proibido.

A primeira proibição ocorreu na época de Moisés e ordenada por Deus. Ao responder a Moisés uma pergunta relacionada às filhas de Zelofeade (Números 27), Deus preceituou que não havendo um filho homem, as filhas herdem as propriedades do pai. Ainda vigorava a proibição bíblica de mulheres se casarem com homens de outras tribos, para evitar que se uma filha herdasse a porção de terreno da Terra de Israel atribuída ao pai dela, esse terreno acabasse passando para o domínio da outra tribo através do casamento intertribal. A Torá (ibid. 36:8-9) ordena: “E toda filha que receber uma herança [inexistindo um filho homem] das tribos dos filhos de Israel se casará com alguém da família da tribo de seu pai, para que cada um dos filhos de Israel herde a herança de seus pais e não passe a herança de uma tribo a outra, pois os filhos de Israel hão de se vincular cada qual à sua herança.”

Essa lei foi uma fonte de dificuldades para os israelitas, especialmente para as mulheres diretamente afetadas por ela, por proibir o casamento intertribal. O Talmud (Bava Batra 121b) prova exegeticamente que essa não era uma lei que vigoraria para sempre, mas se destinava apenas à geração que herdou a Terra de Israel. No entanto, o povo continuou a observá-la mesmo depois de Josué dividir a terra entre as tribos.

A segunda vez que uma proibição com características similares vigorou foi na época dos juízes, como consequência da batalha entre a tribo de Benjamim e as outras tribos. Devido ao episódio da concubina de Guivá, o povo de Israel aceitou sobre si a proibição de casar-se com integrantes da tribo de Benjamim. O versículo (Juízes 21:1) declara: “Então os homens de Israel fizeram um juramento em Mitspá, dizendo: Ninguém de nós entregará a sua filha por mulher aos benjamitas.”

Essa lei revelou-se ainda mais problemática que a anterior, pois os sobreviventes da tribo de Benjamim não tinham com quem casar e a tribo enfrentava o risco de extinção. Uma solução parcial foi alcançada ao se permitir que os filhos de Benjamim se casassem com moças de Iavesh Guilád, uma vez que essa cidade tinha sido destruída por não ter tomado parte da guerra contra Benjamim. No entanto, apenas 400 moças sobreviveram em Iavesh Guilád, e da tribo de Benjamim restaram ainda cerca de 200 homens solteiros.

Os sábios daquela geração ordenaram então aos sobreviventes da tribo de Benjamim que se dirigissem a Shiló e tomassem como esposas as mulheres que ali se reuniam, que tinham vindo para a celebração anual na qual as filhas de Israel saíam e dançavam nos vinhedos em busca de maridos. Isso solucionaria o problema imediato e não violaria a proibição de “entregá-las”, já que os homens da tribo de Benjamim as “tomariam” à força. Assim, o versículo (ibid. 21:20-22) declara:

E ordenaram aos filhos de Benjamim, dizendo: “Ide e ficai de tocaia nas vinhas, e observai, e quando saírem as filhas de Shiló a dançar em rodas, saí das vinhas e agarrai cada um a sua mulher, das filhas de Shiló, e ide à terra de Benjamim. E quando os seus pais ou seus irmãos vierem brigar conosco, diremos a eles: Tende compaixão deles [dos filhos de Benjamim]… e vós não as destes a eles, para que sejais culpados [por violação do juramento].”

Embora esses planos tenham solucionado o problema de curto prazo dos 600 sobreviventes da guerra civil entre Benjamim e o resto de Israel, o problema de longo prazo não foi solucionado. Os sábios daquela geração determinaram então que a proibição decretada em Mitspá só se aplicasse à geração que efetivamente tivesse formulado o juramento. Por conseguinte, no futuro, os homens de Benjamim poderiam se casar com mulheres de todas as tribos.

No entanto, perdurava um problema: havia uma outra proibição – desde os tempos de Moisés – que impedia o matrimônio entre integrantes de diferentes tribos. Foi então que os sábios depreenderam exegeticamente que a proibição da Torá relativa a casamentos intertribais não estava mais em vigor, uma vez que a Terra de Israel já tinha sido repartida entre as tribos.

Segundo a tradição, a decisão de revogar as proibições tanto de matrimônios intertribais quanto de matrimônios com integrantes da tribo de Benjamim foi tomada no dia 15 de Av. Nós encontramos prova disso no texto do Livro de Juízes (ibid. vers. 19), onde consta que quando os sábios disseram aos filhos de Benjamim para se dirigirem a Shiló onde encontrariam mulheres para desposar, eles mencionaram: “Eis que há uma festa do Eterno em Shiló, celebrada desde tempos antigos…” Essa festa era a celebração do 15 de Av, que após o fim das mortes no deserto passou a ser comemorado como data festiva.

Como no Iom Kipúr

O clima festivo que impregna as comemorações de 15 de Av tem como origem a alegria do povo judeu por ter sido perdoado do pecado dos espiões. Nesse sentido, o espírito do dia se assemelha ao de Iom Kipúr.

Foi no dia de Iom Kipúr que Deus Se reconciliou com os israelitas, depois do pecado do bezerro de ouro. Foi no dia de Iom Kipúr que Moisés desceu do Monte Sinai trazendo as segundas Tábuas da Lei, depois da quebra das primeiras.

Como ambas as datas marcam momentos de perdão e purificação, as primeiras gerações não hesitaram em estabelecê-las como dias das filhas de Israel saírem para dançar nos vinhedos, pois não temiam que isso caracterizasse uma quebra dos limites da modéstia. Não havia razão para temer que as pessoas cedessem às tentações, uma vez que a essência desses dias é estar livre dos pecados. É por essa razão que o versículo de Juízes (21:19) fala do dia 15 de Av como uma festa para Deus – ou seja, uma festa em que tudo é feito com pureza, totalmente em nome do Céu.

Desde os tempos antigos, a essência da pujança da santidade de Israel encontra expressão nas barreiras de recato que o nosso povo – muito mais do que qualquer outro – levantou. Graças a elas, a alegria do matrimônio judaico é muito maior do que a de qualquer outro povo, pois os laços que unem marido e mulher – regidos pela Torá e pela observância das mitsvót – constituem um ato de santificação, que atesta que toda a vida de um judeu é sagrada. Assim, os sábios ensinam que todos os pecados dos noivos são perdoados no dia do casamento, para que eles possam começar a vida familiar com santidade, “sem trazer sobre os ombros um cesto cheio de pecados”. Há sábios que consideram que os pecados são perdoados com o intuito de promover a harmonia no lar, de modo que, se uma desgraça ocorrer, Deus nos livre, nem o marido nem a mulher possam acusar um ao outro de culpa pelo infortúnio devido a eventuais pecados anteriores.

Nas gerações antigas, os dias festejados com maior exaltação eram Iom Kipúr e 15 de Av, nos quais Deus perdoava os pecados do povo de Israel. A última Mishná do Tratado de Taanit declara:

Nunca houve dias de celebração para o povo de Israel como 15 de Av e Iom Kipúr. As jovens de Jerusalém saíam vestindo roupas brancas emprestadas [para não demonstrarem as suas posições sociais]. A filha do rei emprestava a roupa da filha do sumo sacerdote, a filha do sumo sacerdote emprestava a roupa da filha do assistente do sumo sacerdote, a filha do assistente do sumo sacerdote emprestava a roupa da filha do sacerdote que tinha sido ungido para acompanhar os exércitos nas guerras, a filha do sacerdote que tinha sido ungido para acompanhar os exércitos nas guerras emprestava a roupa da filha de um sacerdote comum, e todas as filhas de Israel emprestavam roupas umas das outras para não envergonharem as desfavorecidas.

Antes as roupas deviam ser mergulhadas ritualmente [pois o povo naquela época observava as leis de pureza ritual com muito rigor]… as filhas de Jerusalém saíam e dançavam nos vinhedos, e quem não era casado ia para lá. 

E o que era dito a ele? “Rapaz! Olhe e faça a sua escolha. Não procure a beleza, considere a família, [pois está escrito]: Passageira é a graça e vã a formosura, mas a mulher que teme ao Eterno por todo o sempre será louvada (Provérbios 31:30) e Concedei-lhe do fruto de suas mãos, e que seja louvada por suas obras nos portões (ibid. vers. 31).” E um [outro] versículo declara [a respeito do marido que as mulheres escolheriam]: “Saí, filhas de Tsión, e contemplai o Rei Salomão, com a coroa com que o coroou sua mãe no dia do seu casamento e no dia do júbilo do seu coração” (Cântico dos Cânticos 3:11). O dia do seu casamento se refere ao [dia da] outorga da Torá; o dia do júbilo do seu coração se refere ao [dia da] construção do Templo de Jerusalém – que ele seja reconstruído logo, em nossos dias. E assim como o lar coletivo de Israel tem como base a Torá e o serviço a Deus, que também os nossos lares sejam construídos com base na Torá e no serviço a Deus. 

E o que diziam as moças bonitas? “Procure a beleza, pois a essência da mulher é a sua beleza.”

E o que diziam as moças nobres? “Considere a família, pois o propósito da mulher é ter filhos.”

E o que diziam as moças simples? “Tome posse de sua aquisição em nome do Céu, desde que nos enfeite de joias de ouro” [pois se não fosse a pobreza que as faz parecerem simples, as filhas de Israel seriam todas belas].

Como era grande a santidade desses dois dias! Em todos os outros dias festivos, nos locais de concentração pública os funcionários dos tribunais preparavam divisórias para separar os homens das mulheres e evitar assim a frivolidade [vide Talmud, Sucá 51a]. Mas nesses dias de festa isso não era necessário, pois cada israelita cuidava de manter ativas as suas barreiras pessoais de recato e santidade, a níveis compatíveis com a pureza dessas datas.

As próprias palavras da Mishná deixam isso evidente: “Nunca houve dias de celebração para o povo de Israel como 15 de Av e Iom Kipúr, quando as jovens de Jerusalém saíam.” Nesses dias não havia razão para temer a queda dos padrões da moralidade, diferentemente do que ocorria durante as outras festividades, quando havia o risco de que as barreiras do recato pudessem vir a ser derrubadas e, por isso, as moças não saíam, pois “mais que em suas vestimentas recobertas de ouro, a dimensão de sua honra está em seu interior” (Salmos 45:14).

Depois que o Templo foi destruído, a alegria genuína do cumprimento das mitsvót diminuiu e as barreiras da pureza e do recato foram derrubadas. Também as alegrias imensas e puras do 15 de Av e do Iom Kipúr cessaram.

Que todas as alegrias retornem em breve – com a reconstrução do Templo de Jerusalém em nossos dias!

Oseias, filho de Elá, removeu os bloqueios

Quando Jeroboão, filho de Nevat, separou o reino israelita de Jerusalém, ele mandou erigir duas estátuas de bezerros, uma em Dan e outra em Betel, e levou o povo judeu a praticar idolatria nesses centros de adoração pagã. No entanto, como ainda havia muitas pessoas em seu reino que permaneciam com os olhos voltados a Jerusalém e ao Grande Templo, ele instalou bloqueios em todas as estradas que levavam à cidade santa para evitar que o povo peregrinasse para lá, impedindo assim que a soberania do rei de Judá fosse aceita, uma vez que ele tinha Jerusalém como capital.

Esses bloqueios permaneceram ativos até os últimos dias do reino de Israel, e só foram retirados por Oseias, filho de Elá – o último rei de Israel – que declarou [vide Talmud, Taanit 30a, Guitín 88a]: “Quem quiser subir a Jerusalém, que o faça!” Segundo a tradição, os bloqueios foram removidos no dia 15 de Av, e isso trouxe uma alegria imensa ao povo.

Contudo, por mais vultoso que tenha sido o ato de Oseias, filho de Elá, ao reabrir as estradas que davam acesso a Jerusalém para os peregrinos, ele acabou sendo severamente punido. O povo judeu tinha se acostumado às tradições idólatras de Jeroboão e seus seguidores, e foram poucos os que tiraram proveito da liberação dos caminhos proporcionada por Oseias. Assim, ao remover os bloqueios, ele de fato removeu de sobre si o jugo da culpa, e o transferiu para o povo. Anteriormente, os reis de Israel tinham irritado Deus por impedirem que as pessoas participassem do serviço Divino; o ato de Oseias serviu para desencadear a ira Divina diretamente sobre o povo, que agora podia ser considerado culpado.

Um rei de Israel não pode desempenhar a sua função simplesmente outorgando autorização aos súditos para servirem a Deus se assim o desejarem. Pelo contrário, ele tem o dever de convencê-los a aceitarem sobre si o jugo do serviço Divino. Tendo fracassado nessa tarefa, Oseias provocou a ira Divina contra o povo judeu; consequentemente, ele acabou sendo punido.

Os nossos sábios (Ialcut Shimoní, 2 Reis 234) ensinaram:

No que Oseias, filho de Elá, se diferenciou [dos demais reis de Israel], a ponto das 10 tribos terem sido exiladas [exatamente] durante o seu reinado, [e não durante o reinado de algum monarca anterior]? Até então o pecado de idolatria só estava vinculado a um único indivíduo [ou seja, a Jeroboão, que erigira as estátuas de bezerros], e Deus não exilaria toda a comunidade devido a um pecado individual. Mas quando Oseias, filho de Elá, removeu os bloqueios e disse: “Quem quiser subir a Jerusalém, que o faça!” ao invés de dizer: “Que todos subam a Jerusalém” – a respeito dele o versículo (2 Reis 17:2-3) declara: “E fez o que era mau aos olhos do Eterno, contudo não como os reis de Israel antes dele. Contra ele subiu Salmanasar, o rei da Assíria” – pois ele retirou de seu pescoço o jugo [de culpabilidade] e colocou-o sobre a comunidade.

Quando o corte de lenha para o altar era encerrado

Ezrá e Neemias construíram o segundo Templo em Jerusalém quando subiram para a Terra de Israel vindos da Babilônia. Eles o aprontaram, mas encontraram uma terra devastada. Todas as árvores tinham sido arrancadas pelo inimigo. Consequentemente, havia falta de lenha para o fogo do Altar. É por isso que as doações de madeiras eram vitais, e quem tinha a possibilidade de cumprir essa mitsvá oferecia um sacrifício especial, conhecido como “oferenda da lenha,” que era acompanhado de grande festa e alegria, ao estilo da oferenda das primícias. Se faltasse lenha, o serviço do Templo não podia ser executado, pois o Altar não podia ser usado.

Os inimigos dos judeus, que pretendiam evitar a construção do Templo e a retomada dos serviços de oferendas, tentaram impedir que a lenha fosse trazida; eles chegaram até mesmo a bloquear as estradas, assim como Jeroboão, filho de Nevat, fizera anteriormente. Quem contribuía com madeiras ficava exposto a um grande perigo; no entanto, ninguém deixava de trazer as suas doações nos momentos estabelecidos. Ao transportar as madeiras, o doador cantava e tocava instrumentos musicais, expressando a grande alegria que sentia pela retomada do serviço a Deus em Jerusalém.

O último dia em que a lenha podia ser cortada para uso no Altar era 15 de Av, uma vez que para queimar no Altar a madeira devia estar seca e livre de vermes. Depois do dia 15, o sol do verão não era mais suficientemente forte para secar toda a madeira, e ela ficava bichada e imprópria para uso.

O Talmud de Jerusalém (Taanit 4:7) relata:

15 de Av é o momento certo para encerrar o corte da lenha, para que toda a madeira que tiver sido cortada até lá não seja comida [pelos vermes; ou seja, o Sol está ainda suficientemente forte para secá-la].

Por essa razão, esse dia de verão, derradeiro para o cumprimento de tão importante mitsvá e indicativo de haver estoque de lenha suficiente até o verão seguinte para o Altar, era dia de grande regozijo. Ele era conhecido como “o dia da quebra dos machados”, já que a partir de então os machados deixavam de ser usados por não serem mais necessários.

Os ladrões de pilão e os ladrões de figos secos

A data de 15 de Av não evoca apenas aqueles judeus valentes que na época do segundo Templo arriscaram as próprias vidas e conseguiram ludibriar as autoridades gentias para garantir que o fogo do Altar não se apagasse por falta de lenha. Também relembra os que possibilitaram a continuidade das oferendas de primícias. Esses indivíduos valorosos ficaram conhecidos como “os ladrões de pilão” e “os ladrões de figos secos”. O Talmud (Taanit 28a) relata:

Os nossos sábios ensinaram: Por que eles foram chamados de “ladrões de pilão” e “ladrões de figos secos”? É porque, certa vez, as autoridades proibiram levar lenha para alimentar o fogo do Altar e levar as primícias para Jerusalém, e colocaram guardas nas estradas bloqueando-as, assim como Jeroboão, filho de Nevat, fizera para evitar que os judeus subissem a Jerusalém. Como foi que as pessoas justas e tementes a Deus daquela geração reagiram? Elas pegaram as cestas de primícias e as cobriram com figos secos, e carregaram junto um pilão. Quando foram paradas pelos guardas e questionadas aonde iam, elas responderam: “Estamos indo moer figos no almofariz – que fica lá [no nosso destino] – com o pilão que carregamos…”

Aprendemos que essas pessoas eram como os “fazedores de escadas de Netofa”. Quem eram os “fazedores de escadas de Netofa”? Os nossos sábios ensinaram que, certa vez, as autoridades proibiram levar lenha para alimentar o fogo do Altar e levar as primícias para Jerusalém, e colocaram guardas nas estradas bloqueando-as, assim como Jeroboão, filho de Nevat, fizera para evitar que os judeus subissem a Jerusalém. Como foi que as pessoas justas e tementes a Deus daquela geração reagiram? Elas pegaram as madeiras cortadas e construiram escadas, que carregaram sobre os ombros. Ao serem paradas pelos guardas e perguntadas aonde iam, elas responderam: “Estamos indo tirar as aves dos pombais com as escadas que carregamos sobre os nossos ombros.”  chegando, desmontaram as escadas e levaram a lenha para JerusalémA respeito delas e de outras pessoas como elas [que arriscam as próprias vidas em prol do serviço Divino], o versículo (Provérbios 10:7) declara: “A recordação do justo será uma bênção.”

Quem aumenta os seus estudos de Torá aumenta a sua vida

Os sábios disseram: “A partir de agora [ou seja, do dia 15 de Av em diante, por todo o inverno], com o aumento da duração das noites, quem aumenta as suas horas de estudo de Torá ‘aumenta’ os seus dias de vida. E quem não aumenta as suas horas de estudo de Torá, ‘diminui’ [os seus dias de vida].”

Os sábios correlacionaram as horas de aumento do estudo da Torá durante as noites de inverno com a data do término do corte de lenha para o Altar, indicando assim que o estudo da pessoa durante as noites de inverno à luz de uma vela é comparável à reconstrução do Templo nos seus dias, pois é como se a lenha queimando no Altar a iluminasse com o seu fogo. Desde a destruição do Templo, o mundo só continua existindo pelo mérito do estudo da Torá, que de uma certa forma substitui o serviço que era feito no Altar. E a respeito do Altar está escrito (Levítico 6:2): “Essa é a lei da oferenda de elevação: a oferenda de elevação ficará queimando sobre o Altar toda a noite, até pela manhã, e o fogo do Altar estará aceso nela.”

Os mártires de Betar foram sepultados

Os sábios ensinaram (Talmud de Jerusalém 4:5) que Adriano, ao destruir Betar, perpetrou um massacre descomunal e tratou os mortos com uma crueldade insuperável. Ele possuía um vinhedo enorme, que media 18 mil por 18 mil [aproximadamente 324 km²]. Os cadáveres foram levados para lá e empilhados uns sobre os outros, formando um muro que cercou a propriedade. Por que ele fez isso? Para desfrutar da vista!

Tempos depois, um imperador romano permitiu que se realizasse os sepultamentos. Todos os judeus da região se reuniram e enterraram os mortos. Segundo o Talmud (Taanit 31a), isso aconteceu no dia 15 de Av.

O Rabi Matna ensinou: “Foi nesse dia que os sábios de Iavne acrescentaram a bênção de hatóv vehametív (“que é bom e faz o bem”) ao bircát hamazón (bênção de graças após a refeição). Deus “é bom” por não ter deixado os corpos se decomporem; e “faz o bem” por ter permitido que fossem sepultados.

Essa mesma bênção é recitada quando alguém bebe um tipo de vinho e, em seguida, lhe é oferecido um vinho de qualidade superior. Segundo uma opinião, os sábios de Iavne instituíram essa bênção apenas sobre o vinho e não sobre outras iguarias, para comemorar o milagre dos mortos na vinha de Betar.

Pois assim como o vinho é tomado em momentos de alegria, ele também pode servir para consolar. E a pessoa deve abençoar o Criador por tudo o que Ele lhe concede – seja alegria ou tristeza.

Fim do ano de plantio

O 15 de Av marca o fim do ano do plantio no que diz respeito às leis de shemitá (ano sabático) e orlá (o fruto produzido nos primeiros três anos desde a plantação da árvore). As árvores plantadas após 15 de Av são consideradas como se tivessem se enraizado depois de Rosh Hashaná. Esse é um decreto rabínico, que foi instituído para que ao se ver uma nova árvore brotando da terra depois de Rosh Hashaná, não se pense que ela foi plantada durante o ano de shemitá. Uma árvore plantada plantada antes de 15 de Av ou nessa data, começará a brotar antes de Rosh Hashaná. Portanto, árvores plantada antes de 15 de Av ou nessa data são consideradas produto do ano anterior, enquanto que as plantadas após essa data são consideradas produto do ano entrante.

O mesmo ocorre com relação a orlá. As árvores plantadas antes de 16 de Av são consideradas como se já tivessem um ano de vida no Rosh Hashaná imediatamente seguinte – e os seus frutos são proibidos, portanto, apenas durante outros dois anos. No entanto, se o fruto amadurecer antes de 15 de Shevát do quarto “ano”, ele também ficará proibido durante esse ano.

Começo dos dias de julgamento

Consta na nossa literatura ética (Mussar) que o dia 15 de Av é um prelúdio de Elul, o mês de preparação para o julgamento do novo ano, sendo portanto adequado que a pessoa comece a revisar os atos que realizou durante o ano.

Sendo assim, há quem tenha o costume de acrescentar votos de ketivá vachatimá tová (“que você seja inscrito e selado para un ano bom”) já a partir de 15 de Av ao escrever cartas a amigos, basendo-se no fato de a guemátria (valor numérico) de chamishá assár beav (928) ser a mesma de ketivá vachatimá tová. Mas o costume generalizado é fazer isso a partir da chegada do mês de Elul.

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Texto extraído do capítulo 37 da obra

Livro do Conhecimento Judaico: 
O Ano Hebreu e Seus Dias Significativos [Sêfer Hatodaá],
do Rabino Eliahu Kitov.

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